20 de agosto de 2011. Henrique Almeida Caixeta Nascentes recebe das mãos de Joseph Blatter, presidente da Fifa, a Bola de Ouro de melhor jogador do Mundial sub-20, logo após a seleção brasileira sagrar-se campeã com uma emocionante vitória por 3 a 2 sobre Portugal, na prorrogação. Ao entregar a taça ao então atacante do São Paulo, o suíço lhe sorri e cumprimenta: “Meus parabéns! Votei em você”.

Essa é uma das melhores lembranças da carreira de Henrique, revelado pelo Atlético-PR e com passagens por São Paulo, Vitória, Sport, Botafogo e Bahia, novo jogador do Coritiba para a disputa do Brasileirão. Aos 24 anos, ele tenta reencontrar o bom futebol do início da carreira, quando foi apontado como um verdadeiro “fenômeno” por suas atuações nas seleções de base.

A fama de goleador, inclusive, quase o levou ao Real Madrid. Em 2013, quando estava atuando pelo Botafogo, ele chegou a ir à Espanha, treinou com o time B dos merengues e agradou. No entanto, acabou não acertando com os gringos, e teve que voltar ao Brasil. Para seu lugar, os blancos contrataram, então, Willian José, outro destaque da seleção sub-20.

Mas o que deu errado para Henrique? Ele mesmo explica.

“Fiquei um mês no treinando no Real Madrid B. Só que o Botafogo estava com problemas de penhoras na Justiça e, quando estava tudo certo entre eu e o Real, apareceu isso. O Botafogo ficou proibido de comprar, vender e emprestar jogadores, podia render multa grande ao time que negociasse com eles”, conta o jogador, em entrevista ao ESPN.com.br.

“Fiquei lá um mês treinando e esperando a liberação, já estava até procurando apartamento. Só que aí fechou a janela e não consegui ser inscrito no Campeonato Espanhol. Eles acertaram na sequência com o Willian José e não pude atuar pelo Real. Foi uma frustração muito grande”, lamenta.

Após a negociação com os merengues melar, Henrique acabou emprestado ao Bahia. Retornou ao Botafogo, mas não teve chances na Série B. Com a chegada do técnico Ney Franco, seu ex-comandante nas seleções de base, ao Coritiba, pintou uma chance no “Coxa”, e o centroavante acertou seu empréstimo para o time do Couto Pereira.

Henrique pode fazer sua estreia neste sábado, quando a equipe paranaense enfrenta o Santos, às 21h (horário de Brasília), na Vila Belmiro, pelo Campeonato Brasileiro. Focado em reencontrar o futebol de outros tempos, ele espera fazer sucesso na equipe alviverde para continuar sonhando em defender um grande clube europeu.

“Ainda tenho o sonho de voltar a jogar bem no Brasil e quem sabe atuar na Europa. Futebol é muito dinâmico, se um atacante vai bem e faz gols as coisas mudam rapidamente. As oportunidades são muito rápidas e você precisa estar preparado, independentemente da situação”, ressalta o novo camisa 91 do “Coxa”.

“Fenômeno” da base

Nascido em Brasília, Henrique deu seus primeiros chutes na bola no CFZ, clube de futebol fundado por Zico. Em 2005, aos 14 anos, viajou ao Paraná para fazer um teste no Atlético-PR, sendo aprovado na hora.

Divulgação/Coritiba Foot Ball Club

Henrique Apresentação Coritiba 30/07/2015
Henrique acertou com o Coritiba

Treinado por Marquinhos Santos na Arena da Baixada, chamou a atenção do São Paulo, que o levou para Cotia no ano seguinte. A estreia profissional pela equipe do Morumbi foi em 2009, justamente o ano em que foi convocado pela primeira vez para a seleção brasileira sub-19.

Seu primeiro grande momento de brilho foi no Sul-Americano sub-20 de 2011, no Peru. Ao lado de nomes como Neymar, Lucas e Willian, Henrique anotou dois gols e ajudou o Brasil a conquistar o título.

O problema foi que Henrique se machucou na reta final daquele torneio, sendo substituído por Willian José. O técnico Ney Franco foi quem lhe passou tranquilidade.

“Eu era titular, mas na reta final, no meu melhor momento, me lesionei e fiquei muito triste. Mas o Ney falou: ‘Fica tranquilo que vou precisar muito de você no Mundial, não se preocupe que não vou esquecer o que você já fez'”, lembra.

O Mundial em questão era a Copa do Mundo sub-20 da Colômbia, disputada seis meses depois do sul-americano. Henrique foi chamado e começou no banco, entrando no segundo tempo na estreia contra o Egito. Na partida seguinte, contra a Áustria, ganhou de Ney Franco a vaga de titular, e não decepcionou.

Henrique Bola de Ouro Fifa Brasil Mundial sub-20 Ricardo Teixeira 21/08/2011

Henrique com a Bola de Ouro em 2011

“Antes deste jogo, eu brinquei com um auxiliar da seleção e falei: ‘Você vai ver, agora vou fazer gol por jogo, hein!’. E pior que isso quase aconteceu, mesmo nem eu esperava (risos)”, brinca.

De fato, a previsão do centroavante por pouco não se concretizou. Ele anotou contra Áustria, Panamá, Arábia Saudita (oitavas) e México (semifinal), passando em branco apenas contra a Espanha, nas quartas de final, e contra Portugal, na grande decisão, vencida pelo Brasil.

Suas grandes atuações durante o torneio lhe renderam não só a Bola de Ouro de melhor jogador de competição como também a Chuteira de Ouro, prêmio conferido ao artilheiro. O atacante terminou o Mundial com cinco gols, empatado com Álvaro Vázquez, da Espanha, e Alexandre Lacazette, da França, mas levou o principal troféu nos critérios de desempate estabelecidos pela Fifa.

E tudo isso vivendo um drama em meio ao torneio.

“Teve um momento que eu achei que estava fora do Mundial, foi muito difícil. Tive uma luxação no braço e precisei engessar depois das oitavas. Para minha sorte, teve uma pausa de cinco dias antes da partida contra a Espanha, então eu me dediquei todos os dias o tempo todo na fisioterapia. Um membro da CBF foi lá e pediu para eu poder jogar com uma imobilização, e ainda bem que a Fifa liberou”, recorda.

Parecia que nada podia parar o implacável artilheiro.

Em busca da velha forma

Henrique Botafogo Union Espanola Libertadores 02/04/2014

Henrique em ação pelo Botafogo: sem oportunidades

Ao retornar ao São Paulo em alta depois do título na Colômbia, Henrique ganhou contrato renovado e aumento do salário. Em grande fase, ele esperava finalmente ter chances como titular no Morumbi. No entanto, o clima que encontrou ficou bem longe do esperado.

“Aquele Mundial mudou tudo na minha vida. Ganhei uma projeção que não tinha antes, até mesmo no mundo, porque muitas pessoas assistem essa competição. Chegaram clubes europeus atrás de mim, só que meu empresário era o mesmo do Oscar [hoje meia do Chelsea], que saiu na Justiça [para o Internacional], e acabei tendo problemas com o São Paulo por conta disso”, alega.

Sem oportunidades com a camisa tricolor, o atacante acabou emprestado ao Granada, da Espanha, e depois ao Sport, sem se firmar em nenhum dos dois.

Em 2013, foi comprado pelo Botafogo, encerrando seu vínculo com o São Paulo após muitos anos. Chegou ao Rio de Janeiro com a missão de substituir o ídolo Loco Abreu, e até teve boas partidas no Campeonato Carioca e na Libertadores, mas também não emplacou.

Segundo Henrique, a fama de “fenômeno” na base acabou lhe prejudicando, já que a paciência com ele não é a mesma que com outros atacantes.

“Eu preciso ter uma sequência de jogos. A paciência comigo não é a mesma do que com outras pessoas, a cobrança é muito maior, tenho obrigação de fazer gol todo jogo. Se um dia tiver uma sequência, vou conseguir ir bem e fazer gols”, dispara.

Agora, ao lado do amigo Ney Franco no Coritiba, ele espera reencontrar a velha forma e recuperar o mesmo futebol que lhe rendeu prêmios, fama internacional e a (quase) oportunidade de vestir a camisa do Real Madrid.

“Reencontrar o Ney é muito bom. É um treinador transparente, que procura tirar o melhor de cada atleta. Não vinha jogando no Botafogo, mas estava treinando e estou em forma. Agora, espero que possa ter uma retomada com ele”, finaliza.

Fonte: ESPN.com.br