Rio de Janeiro, 12 de abril deste ano. Eliminado pelo Juventude na Copa do Brasil, o Botafogo desembarca no Aeroporto Santos Dumont às 18h45 daquela sexta-feira. Revoltados, torcedores botafoguenses aguardam os jogadores que, por segurança, saem por um portão dos fundos.

O técnico Zé Ricardo, demitido pelo clube após oito meses de trabalho, precisa pegar um táxi para buscar seu carro que estava no Engenhão. Dois casais de amigos o esperam em sua casa. Por isso, ele opta por passar pelo saguão de desembarque comum. Já sabendo da concentração da torcida no local, ele aguarda por uma hora e 15 minutos.

Quando o grupo de torcedores parecia ter se dispersado, Zé Ricardo, o preparador físico e o fisioterapeuta da equipe resolvem sair. Não há avaliação de risco. Uma repórter ainda o alerta sobre a presença de dois ou três torcedores ali perto. Outros jornalistas também o esperam, o que acaba chamando mais atenção. Não dá outra. São três minutos de ofensas, intimidação, verdadeiro ato de covardia mostrado pela televisão. Nenhum policial, nenhum segurança. “Você é um frouxo”, diz um. Calado, o treinador não reage às provocações e entra no táxi.

Zé Ricardo falou pela primeira vez sobre o episódio ao Super FC. Um mês e meio depois, Zé Ricardo esteve em Belo Horizonte no último dia 24 para participar do Futclass, evento de liderança e gestão de pessoas no futebol para estudantes, realizado na Universidade Fumec.

“Foi um ato inaceitável. É a intolerância que faz parte do atual momento. Aquilo representou um pouco da nossa sociedade”, destacou.

Profissional da nova safra, Zé Ricardo ganhou a primeira oportunidade de dirigir uma equipe profissional no Flamengo, em 2016. Depois, esteve no Vasco e, por último, no Botafogo. Está atualmente desempregado.

O treinador, que esteve na mira do América, falou sobre seus trabalhos, o mercado profissional e os desafios da interinidade, situação vivida hoje, por exemplo, por Rodrigo Santana no Atlético. Confira:

Estamos vivendo um período de poucos treinadores experientes no mercado. A que se deve isso?

Essa diferenciação não é muito produtiva. Entendemos que renovações em todas as áreas da sociedade acabam sendo normal. Mas, nós que chegamos um pouco depois, devemos muito aos experientes. E liderança e sucesso independe da idade, e sim da competência e do conteúdo que o profissional pode passar.

A função de treinador tem caído de uma hora para outra nas mãos de novatos em grandes clubes, como aconteceu com você, no Flamengo. Isso acaba sendo um fardo, um desafio além do normal?

Encarei como um grande desafio, já fazia parte do quadro de funcionários do clube há 13 anos. Pegar um clube do porte do Flamengo foi um grande desafio. Mas me senti completamente preparado. E o fato de fazer essa transição em um clube que eu conhecia muito ajudou bastante. E acredito isso ajudou muito o Thiago (Larghi, no Atlético), o Odair Hellmann, no Inter. São questões que facilitam a adaptação.

O imediatismo de resultados do futebol está minando a nova safra de treinadores no país?

Isso não é um desafio da nova geração, sempre foi assim. O imediatismo no Brasil é um dos problemas. O principal assunto esportivo da atualidade é a final da Champions, com dois treinadores, um com quatro, outro com cinco anos no mesmo clube, nenhum deles com títulos conquistados e, mesmo assim, tiveram a continuidade no trabalho. Somos de culturas diferentes. Não que a gente tenha que obedecer sempre essa regra, mas é um grande exemplo a seguir.

Torcida e dirigentes têm menos paciência com novatos? Lembrando do episódio no aeroporto após sua saída do Botafogo: está se tendo uma cobrança exagerada?

Esse fato é reflexo da sociedade atual. Infelizmente, a educação no país vem sendo negligenciada, e continua sendo. E isso reflete em todos os níveis da sociedade, e não é diferente no futebol. Nós que trabalhamos no esporte, com tanta pressão, adquirimos essa sabedoria. Agora, intolerância e ódio são coisas que vem crescendo, não só no futebol. Atitudes como aquela não representa a maioria da torcida. Foi uma minoria. O equilíbrio era o que pregava naquele momento. Foi o que procurei fazer.

Você foi treinador interino no Flamengo. Hoje temos o Rodrigo Santana na mesma situação no Atlético. Essa fase interina tem menos cobrança ou, pelo contrário, é preciso mostrar serviço, porque pode ser a chance da vida?

Tem os dois lados. Conheço o Rodrigo, um treinador bastante competente, que já vinha trabalhando em outras equipes de menor investimento. Ele está tendo sua oportunidade. O fato de ser interino lhe dá uma certa tranquilizada, mas, em breve, o clube vai ter que tomar a decisão. No meu caso, demoraram 11 rodadas. Mas ele está muito bem. Tenho certeza que mantendo esse nível de confiança, com bons jogos, certamente, vai ter a oportunidade de ser efetivado.

Que autocrítica faz de seus trabalhos no Flamengo, Vasco e Botafogo?

A transição do Flamengo para o Vasco foi algo normal. O Flamengo é um clube que tem muita pressão. Consegui ficar lá um ano e meio. Nos moldes atuais é até um tempo razoável, mas cai naquelas situações que comentamos. Fiz uma adaptação muito rápida no Vasco, o time teve uma recuperação muito legal, um orgulho do trabalho que foi feito em 2017. Mas, infelizmente, na transição para 2018, houve problemas políticos. Todos acompanharam as questões eleitorais, troca de presidente e tivemos quase todo o time desmontado, além das questões financeiras. É uma grande marca, vai se recuperar, mas chegou um momento em que eu não estava conseguindo dar meu melhor e preferi abrir mão. Depois teve um convite do Botafogo, que conseguimos fazer um trabalho de recuperação em 2018. Terminamos o ano jogando bem, classificados para a Sul-Americana. Infelizmente, com as trocas, a impossibilidade de manter os principais jogadores e saída de outros, mudamos bastante, o trabalho ia demorar para encaixar e a pressão ficou muito grande, principalmente depois da eliminação na Copa do Brasil.

Os clubes têm melhorado suas gestões nos últimos anos?

Prefiro esperar mais um pouco. Assim como tem jovens treinadores chegando, de muita qualidade, tenho visto, nos cursos de gestão, muita gente boa. Essa é a nossa expectativa: gestores com a cabeça nova, entendendo o que é um trabalho de governança e liderança e que possam contribuir conosco, que estamos no campo. É importante que ex-jogadores, ex-funcionários que tenham trabalhando no futebol também se interessem pela área. Seria um elo importante da área técnica com administrativa. Nosso principal desafio só vão ser sanados com investimento no capital pessoal.

Essa disparidade financeira entre os clubes vai criar um “buraco” no futebol brasileiro? Qual o perigo disso?

Isso vai demorar um pouco mais de tempo, mas é realmente um caminho perigoso. O Brasileirão tinha dez ou 12 equipes brigando pelo título. Hoje a gente não vê mais isso. As diferenças têm ficado muito grandes. Tem que ter uma conversa com todos os segmentos, não só dentro, como fora de campo, como marketing, televisão, patrocínios, torcidas, CBF. Temos que tentar minimizar isso. Acredito que o fortalecimento de outras equipes vai trazer qualidade e competitividade em um campeonato que, apesar de mal aproveitado, ainda tem muita rentabilidade.

Fonte: O Tempo