Se na tabela do Campeonato Brasileiro Corinthians e São Paulo andam patinando, no ranking da dívida dos clubes a situação é bem diferente e os rivais paulistas aceleram em busca da indesejada liderança que é do Botafogo. É o que indicam os dados apresentados no balanço financeiro de 2014 das principais agremiações do futebol nacional.

No ano passado, as finanças dos clubes mostram uma estagnação das receitas, com aumento substancial dos déficits e uma evolução preocupante do endividamento. Os únicos clubes que fecharam no azul foram Flamengo, Atlético-PR, Goiás, Vitória e Avaí – os dois últimos com superávits insignificantes. Ao todo, as dívidas dos 20 maiores clubes já somam R$ 6,3 bilhões.

No horizonte, como tábua de salvação, a aguardada aprovação da Medida Provisória que refinancia a dívida dos clubes com a União em troca de uma série de contrapartidas. No entanto, o consultor de marketing e gestão esportiva Amir Somoggi, em entrevista ao R7, explica que somente a emenda a ser votada nesta terça-feira (7) não é capaz de reverter o problema financeiro das equipes. Mais do que isso, ela poderá se tornar um grande incômodo.

“A questão da Medida Provisória é uma faca de dois gumes. Se por um lado ela ajudaria os clubes, que teriam um período de carência para se adequar, mais para frente ela será um facão nas receitas das agremiações, que primeiro precisaram pagar o que devem para depois investir no futebol”, explica Amir Somoggi. “Não acredito que daqui a quatro anos um clube vá pagar R$ 1,5 milhão para estar em dia com financiamento. Provavelmente eles darão novo calote, como foi com a Timemania. No fim das contas, a MP pode ser um novo problema”, completa.

Botafogo: no vermelho da Série B

A situação do Botafogo é a mais preocupante. Rebaixado para a Segunda Divisão do Brasileiro, o Glorioso lidera o ranking dos devedores, com mais de R$ 845 milhões de déficit.

“Se fosse uma empresa o Botafogo não teria condição de operar. Mas tem o exemplo do Flamengo, que passou os mesmos problemas recentemente e em dois anos reduziu drasticamente o seu desiquilíbrio financeiro”, lembra Somoggi.

Para tanto, é preciso cortar despesas e investir nas categorias de base, por exemplo. “Os clubes têm recorrido a empresários para montar times competitivos. Mas, na hora que o jogador é vendido, o dinheiro é do empresário, e não do clube. Por isso que é importante usar jogadores da base, que o clube detém os direitos econômicos. Vender jogadores é fundamental para a saúde financeira. Assim o clube vai gerando receita e abatendo as dívidas”, defende o consultor.

Exemplo rubro-negro

O Flamengo mostrou o caminho para o mercado. Segundo o consultor entrevistado pelo R7, a gestão do clube da Gávea está fundamentada em três fatores: maximização constante das receitas, controle efetivo dos custos e redução do endividamento. É o único clube brasileiro orientado para uma gestão sustentável. Fechou com superávit de R$ 64 milhões e espera encerrar 2015 com R$ 100 milhões de ganhos.

“Os clubes têm dito que não conseguem administrar o negócio por causa das dívidas, e o Flamengo provou o contrário. Durante dois anos, enquanto todos estavam gastando, o clube carioca fez um controle de gastos. A chegada do Paolo Guerrero é, provavelmente, uma consequência deste trabalho de austeridade”.

Paulistas encrencados

O cenário atual do futebol brasileiro é tão preocupante que clubes que antes apresentavam alguma solidez financeira encerraram 2014 encrencados. Um exemplo é o São Paulo, que terminou o ano com déficits na casa dos R$ 100 milhões (o segundo pior do Brasil), e outro foi o Corinthians, com perdas de R$ 97 milhões (o terceiro pior). Os dois somente ficaram atrás do Botafogo, que fechou com déficits de R$ 175 milhões.

“O Corinthians cometeu dois erros. O primeiro foi não ter vendido os camarotes e o naming rights durante a obra da Arena. Se tivesse vendido estaria com metade da dívida quitada, pelo menos. Só que a obra ficou pronta junto com a crise financeira e hoje o Corinthians está numa situação dramática. Perdeu bilheteria para pagar o fundo. Antes, no Pacaembu, fazia R$ 35/40 milhões limpo nos cofres”, lembra Somoggi.

“Já no São Paulo o que falta é patrocínio. O clube esta abrindo mão de R$ 20/25 milhões há muito tempo. Por quê? Porque quer R$ 30?! Podia ter fechado por 20 milhões e ter faturado esse dinheiro nos últimos anos”.

Fonte: R7