A reunião do Conselho Deliberativo do Botafogo na próxima terça-feira promete ser agitada. O principal ponto de polêmica é a forma como foi feito o orçamento para 2014, que será votado no encontro. O documento aponta uma previsão de resultado operacional positivo de R$ 3.7 milhões no exercício. Porém, esse número só é alcançado com receitas não garantidas – como as premiações em diversas competições, incluindo a Libertadores – e sem levar em conta as dívidas do clube. Mantendo todas as estimativas do orçamento, mas acrescentando o valor das dívidas, o resultado é um déficit de R$ 69 milhões, como explicou o presidente do Conselho Fiscal, André Silva. O buraco pode crescer caso receitas como R$ 11,7 milhões de premiações na Libertadores e R$ 9 milhões na mesma rubrica para o Brasileiro não sejam confirmadas.

O orçamento não leva em conta também a possibilidade de aprovação do chamado “fair play financeiro” – defendido pelo movimento de jogadores Bom Senso FC -, que reduziria ainda mais a receita do clube, pois implicaria no desconto de receitas na origem. O objetivo do plano é que os clubes paguem em 20 ou 25 anos as suas dívidas com a receita. Silva esclarece que o parecer do Conselho Fiscal foi favorável à aprovação do orçamento, apesar de o resultado operacional positivo poder dar uma falsa impressão sobre a realidade financeira do clube, porque o orçamento por competência, nome que se dá a essa prática contábil, não é ilegal, tampouco incomum. Sobre as previsões de receitas com premiações de competições, incluindo a Libertadores, ele afirmou se tratar de uma “situação irreal, mas uma situação possível”.

– No nosso parecer, esse orçamento foi feito pelo regime de competência, que não traz as dívidas passadas. Quando você aplicar as dívidas de coisas que estão estourando, que não tem mais como recorrer, você tem um débito de R$ 69 milhões. O orçamento não prevê essas dívidas do passado, só o que será orçado no ano de 2014, as despesas e as receitas. Então achamos por bem fazer no nosso parecer essa observação de que existe um fluxo de caixa negativo, o que acontece todos os anos em todos os clubes. O Botafogo, sem as dívidas antigas, seria superavitário. Com as dívidas, é deficitário todos os anos.

Orçamento Botafogo (Foto: Divulgação)
Quando comparativo mostrando valores dos orçamentos de 2013 e 2014 do Botafogo (Foto: Reprodução)

Único a votar contra o orçamento no CF, Édson Alves Júnior contesta esse argumento, alegando que na maioria das empresas que adotam essa modalidade de orçamento não há uma disparidade tão grande entre a mera análise das receitas e despesas em um determinado exercício e a situação financeira real com a aplicação dos valores de dívidas.

–  Esse foi o motivo principal de eu ter votado pela reprovação do orçamento. Justamente pela discordância da metodologia. Eu não sou da área de finanças, mas sou engenheiro, tenho uma empresa e mexo com administração. Não conheço tanto de fluxo de caixa. Embora tenham colocado que o orçamento tenha sido feito em regime de competência, no caso do Botafogo, ele fica muito descolado desse passivo, o que não ocorre na maioria das empresas, onde as duas metodologias são muito próximas.

O conselheiro afirma ainda que, pelo aspecto técnico, não há muito o que contestar, mas ressalta que, apesar de tecnicamente não haver problema, o orçamento feito pelo conselho diretor, na sua opinião, não reflete a realidade.

– Não discuto nem a metodologia tecnicamente falando, o conselho diretor pode colocar o orçamento do jeito que ele quer. Agora, se você olha o resultado operacional positivo e olha o fluxo de caixa, e você sabe que a realidade do clube é o fluxo de caixa projetado, mascara a realidade dos fatos. A função principal do orçamento é técnica, não política, fazer a sua gestão em cima do seu orçamento e ir ajustando o orçado e o realizado. A situação financeira do Botafogo é terrível e isso se reflete no fluxo de caixa. Mas como o orçamento foi feito em um modelo tecnicamente correto, isso foi o que fez a maioria do Conselho Fiscal aprovar.

Clube prevê gastar em média R$ 5,7 milhões por mês com folha do futebol

Além das previsões otimistas para o Engenhão e para as competições a serem disputadas em 2014 – o clube prevê R$ 16,5 milhões de receitas com a Libertadores -, chama atenção no orçamento alvinegro os gastos com salários do departamento de futebol. O valor mensal varia entre R$ 2,7 milhões, previsão para janeiro de 2014, e atinge o máximo de R$ 7,7 ,milhões em setembro. O valor de uso de direito de imagem de atletas varia entre R$ 900 mil e R$ 1,5 milhão por mês na previsão alvinegra para 2014. Dividindo a soma dos valores de salários por 13 (incluindo encargos, gratificações e benefícios) e a soma dos valores do uso de imagem de atletas por 12, chega-se a uma média de gasto mensal com a folha do futebol de aproximadamente R$ 5,7 milhões. O total de gastos na rubrica salários, incluindo os encargos e benefícios, é de R$ 53.833.714,00. O total de custo previsto para uso de imagem de atletas é de R$ 18.032.500,00.

Orçamento Botafogo (Foto: Divulgação)
Previsão de gastos mensais com salários no futebol e uso de imagem de atletas do Botafogo (Foto: Reprodução)
Fonte: Globoesporte.com