A torcida alvinegra – eram 2.738 testemunhas numa derrota para o Resende, quinta-feira à noite, no Estádio Nilton Santos – vaiou, xingou, gritou “olé” ironicamente e, no fim das contas, disse o que realmente queria dizer: “ah, Moreira Salles” . O grito, na verdade um pedido, tentava alcançar os irmãos Walter e João Moreira Salles , cineastas, empresários e botafoguenses que estudam investir no futebol alvinegro. Felipe Neto, um dos patrocinadores atuais do Botafogo, também aderiu à hashtag após o jogo desta quinta, que eliminou o Botafogo na Taça Guanabara: “#AssumeMoreiraSalles. Ou acabou” , tuitou Neto, em tom apocalíptico.

Entrar na pilha tampouco será útil. O vice-presidente de Marketing, Márcio Padilha , também botafoguense, causou ainda mais irritação ao dizer, em resposta às críticas de uma internauta, que “a torcida abandonou o time” . Foi respondido nas redes sociais com ainda mais impaciência do que as arquibancadas do Nilton Santos haviam mostrado na derrota para o Resende.

Não à toa, Zé Ricardo afirmou depois da eliminação que é o momento de falar o mínimo possível. “Não temos que pedir nada ao torcedor” , disse o treinador. “Eles estão sendo até pacientes diante de uma campanha muito abaixo do que esperávamos”.

É tentador buscar respostas simples quando a necessidade de melhora é imediata. Na próxima semana, o Botafogo já estreia na Sul-Americana, sua única esperança de título internacional em 2019, contra o vice-líder (ainda invicto) do Campeonato Argentino. Para a torcida e para a diretoria, urge que o time comece a jogar melhor para ontem. Se não começar, que se busquem os culpados. Seja na arquibancada ou nos corredores de General Severiano.

Como as soluções fáceis costumam estar equivocadas , a boa notícia é que elenco e comissão técnica não parecem (ainda) contaminados pelo imediatismo a seu redor. Zé Ricardo ressaltou que manterá os parâmetros de seu trabalho, sem que isso represente manter o time na mesmice: “Certamente vamos ter que fazer algumas alterações, seja de peças ou na maneira de jogar”. Eis o xis da questão.

Não há grande variedade de peças no elenco alvinegro, tampouco finanças saudáveis para buscá-las em boa quantidade no mercado. É possível, no entanto, alterar a forma de jogo com o que já existe à mão.

Nas duas partidas diante de pequenos no Nilton Santos, contra Bangu e Resende, o Botafogo quase não conseguia trocar passes verticais , que furassem as linhas de marcação. Matheus Fernandes e Rodrigo Lindoso eram volantes cujo passe e movimentação eram capazes de encontrar espaços, vencer linhas, infiltrar a zaga rival. Ambos deixaram o Botafogo na virada do ano. João Paulo e Leo Valencia , meias capazes de articular ações ofensivas, estão machucados.

Se não tem um jogador com esse perfil no meio-campo, é fundamental que o Botafogo repense seu modelo de jogo. Presos nas pontas direita e esquerda, Erik e Luiz Fernando têm a velocidade a favor, mas não têm quem acioná-los. Além disso, ocupam um corredor que poderia ser usado pelos laterais ou por um meia como Gustavo Ferrareis, que prefere sair da ponta para o meio, e não o contrário.

Caso joguem mais centralizados, juntos, Erik e Luiz Fernando podem fazer uma dupla de ataque com mais mobilidade, que abra espaços no miolo da defesa para jogadores que gostam de arriscar a gol na primeira brecha, casos do volante Alex Santana e do atacante Leandro Carvalho .

Falar é sempre mais fácil do que executar. Mas o relógio corre para o Botafogo: logo terá que medir forças contra o Defensa y Justicia (ARG), adversário muito mais qualificado do que os rivais que provocaram tropeços no Carioca. Eliminado, o time de Zé Ricardo poderá usar a última rodada da Taça Guanabara, domingo, contra o Boavista, como encubadora para novas ideias – de preferência, claro, aquelas mais criativas e menos simplistas.

Fonte: O Globo Online