Em meio a debates sobre assuntos como fair play financeiro, atrasos salariais e lei de responsabilidade fiscal do esporte (LFRE), que vai refinanciar dívidas de clubes, o fato é que o cenário econômico não é favorável para muitas equipes brasileiras. Isso avivou discussões sobre o porquê do endividamento e jogou holofotes no modelo de cessão de direitos de mídia. No entanto, esse não é o único fator que preocupa os times na relação com a televisão. A despeito de a maioria ter contrato com a Globo até 2018, há pressão para renegociação. E uma das principais razões é a luta por espaço na TV aberta.

Nas 14 rodadas do Campeonato Brasileiro de 2014, por exemplo, a emissora exibiu sete jogos do Corinthians para São Paulo (incluindo clássicos contra Palmeiras, Santos e São Paulo). No Rio de Janeiro, foram seis partidas do Flamengo ao vivo (uma delas contra o Fluminense).

A situação é mais próxima de um equilíbrio no Rio de Janeiro, com cinco jogos do Fluminense e quatro do Botafogo na TV aberta. Excetuando-se clássicos contra o Corinthians, o São Paulo teve cinco jogos transmitidos. O Palmeiras só apareceu duas vezes, e o Santos ainda não foi protagonista.

A equipe do litoral é uma das insatisfeitas com o atual modelo. Pelo menos outros sete clubes consultados pelo UOL Esporte também reclamam da falta de espaço na TV aberta. Sobretudo os que não estão no Rio de Janeiro ou em São Paulo.

“Nós precisamos entender que acabou essa história de que Corinthians e Flamengo dão audiência. Dão p… nenhuma! Quem dá Ibope é quem está na frente e quem disputa títulos. Você acha que alguém vai ver jogos do Flamengo com o time caindo? Você acha que o Flamengo no meio da tabela dá mais resultado para a TV do que o Internacional tentando ser campeão, por exemplo? A Globo deve ter visto isso. Ela se f… quando deu 52% da renda para cinco times. Acabou com a praça da Bahia, vai acabar com a praça de Belo Horizonte e vai detonar todas as outras. A Globo está fragilizada porque a audiência está indo para o c…”, disse Alexandre Kalil, presidente do Atlético-MG.

O tom do mandatário alvinegro é mais contundente, mas a tese dele coincide com o que pensam as cúpulas de uma série de outras equipes. Ainda que muitas façam esforço por um bom relacionamento com a Globo, há reclamações constantes sobre o tema. “Precisamos pensar em uma alternativa, sim. A grade tem de ser revista”, disse um diretor que pediu para não ser identificado.

Na última quarta-feira (13), o assunto foi abordado em reunião das diretorias dos quatro grandes de São Paulo. A pauta do evento era uma homenagem a Juvenal Juvêncio, ex-presidente do São Paulo, mas os representantes das equipes aproveitaram para falar sobre as cotas de TV.

“Isso foi colocado em uma questão ampla, mas o entendimento é que ninguém quer o que o Corinthians ganha da TV. O que todo mundo defende é que também sejam passados jogos de outros times para São Paulo, até para que o Corinthians possa ganhar um pouco mais com a venda de pay-per-view. No atual sistema, eles praticamente abrem mão dessa receita porque estão na aberta sempre”, ponderou José Carlos Peres, diretor-executivo do G4, grupo que organizou o encontro.

O problema é que o Corinthians não abre mão da receita fixa alinhavada com a Globo. E a emissora, para justificar o alto valor investido, quer ter em rede aberta um número maior de jogos dos times que dão mais audiência.

Quando o mercado estava em alta, o tempo maior de exposição tinha efeito direto nos contratos de patrocínio dos clubes. Agora isso não tem acontecido, o que faz algumas diretorias olharem mais para a receita de PPV.

Como o Corinthians não abre mão da receita fixa, porém, o único jeito de aumentar a presença do clube no PPV seria ampliar também os valores desembolsados pela Globo. E discutir isso num momento em que a emissora questiona a viabilidade do futebol como produto, sobretudo pela queda de audiência constante dos últimos anos, parece ser algo pouco provável.

A Globo agendou para este mês uma série de reuniões com clubes para debater o atual momento do futebol brasileiro. No dia 12, representantes de Atlético-MG, Cruzeiro, Flamengo e Fluminense estiveram com executivos da emissora no Rio de Janeiro. Não houve nenhum debate sobre os contratos de direitos de transmissão.

Em contrapartida, Marcelo Campos Pinto, diretor da Globo Esporte, foi cobrado publicamente em reunião que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) promoveu com clubes das séries A e B do Campeonato Brasileiro. O propósito do evento era discutir a LRFE, mas dirigentes aproveitaram a tribuna para falar sobre cotas de TV. Marco Polo del Nero, que assumirá em 2015 o comando da entidade nacional, pediu que eles elaborassem uma proposta conjunta para revisão do atual formato.

Na prática, com exceção de Corinthians e Flamengo, clubes querem mais dinheiro da TV e mais jogos exibidos ao vivo em rede aberta. Contudo, o atual formato do futebol brasileiro, com contratos sendo negociados individualmente, é um impeditivo para as duas coisas.

Fonte: UOL