Por ironia do destino, as semifinais do Campeonato Carioca, que se iniciam neste fim de semana, colocarão frente a frente aliados e rivais da Federação de Futebol do Rio de Janeiro (FERJ). De um lado estarão Vasco e Botafogo, que ajudaram e colaboraram com todas as medidas da entidade. De outro, Flamengo e Fluminense, que declararam uma verdadeira guerra contra a instituição e ameaçaram até mesmo criar uma liga independente.

Neste sábado, às 18h30, no Maracanã, o Alvinegro, campeão da Taça Guanabara, enfrenta o Tricolor, classificado nos minutos finais após vitória apertada sobre o Madureira. O clube de General Severiano, antes do início da competição, votou a favor dos preços populares dos ingressos e em nenhum momento se opôs às regras impostas pela Ferj.  Já a equipe das Laranjeiras travou uma batalha de notas oficiais e foi a quem mais bateu de frente, com direito a insinuações e até um pedido do atacante Fred de que o Estadual acabasse.

No dia seguinte, às 16h, Flamengo, vice da Taça GB, encara o Vasco, terceiro colocado, no Clássico dos Milhões. O Rubro-Negro também é opositor declarado da Federação e, inclusive, já acionou judicialmente a instituição tanto na esfera esportiva quanto na pessoal, através de seu presidente Eduardo Bandeira de Mello, que alega ter sido ofendido pelo presidente da entidade, Rubens Lopes.

O Cruzmaltino, por sua vez, não esconde o apoio à Ferj e seu presidente, Eurico Miranda, é amigo pessoal de Rubinho. O cartola vascaíno, inclusive, foi quem propôs os preços dos ingressos e declarou solidariedade após críticas da dupla Fla-Flu. Por conta da aliança, o clube sofreu insinuações dos rivais de estar sendo favorecido na competição, principalmente pelo fato de já somar sete pênaltis a seu favor, algo contestado pelo dirigente.

Técnico vascaíno, Doriva garante não estar preocupado com uma pressão em cima da arbitragem por conta das reclamações de Flamengo e Fluminense.

“De forma alguma. Temos que fazer nosso trabalho e focar no jogo. Não estamos preocupados com a questão da arbitragem”, declarou.

Zagueiro e capitão rubro-negro, Wallace destaca que a pressão já começa internamente, independente de qualquer coisa.

“No Flamengo, tudo é muito grande, as coisas têm proporção macro. A obrigação de ganhar é normal. Time que está acostumado a vencer tem que estar acostumado com esse tipo de cobrança. Há também uma cobrança interna. Quem não quer ser campeão? A externa é natural, mas também temos nossa pressão um com o outro”, disse.

Ainda se acostumando com as polêmicas que envolvem o futebol carioca, o técnico do Fluminense, Ricardo Drubscky, lembrou dos percalços e “conspirações “enfrentadas na campanha da Taça Guanabara.

“Foi um primeiro objetivo nosso, chegamos com situação difícil, dependíamos de terceiros, as coisas conspiraram, nos classificamos de forma difícil, mas merecedora. Agora é dar uma descansada e buscar o primeiro jogo da decisão contra o Botafogo., que foi campeão e fez bela campanha. Vamos nos preparar da melhorar maneira”, declarou.

Em situação mais tranquila por ter conquistado o título, o que lhe dá a vantagem do empate nos confrontos, o técnico René Simões garante ofensividade por parte do Botafogo.

“Nunca gostei disso de vantagem. Até porque com nosso DNA ofensivo, fica complicado trocar o chip e jogar para empatar. O Botafogo não vai sair de sua característica. Esse DNA ofensivo eu não consigo tirar. Imaginar um 0 a 0 não vejo vantagem, porque essa equipe faz gols. Vamos torcer para que continue assim”, ressaltou.

Polêmicas longe de acabar
A chegada às semifinais não significaram uma trégua nas polêmicas. Unidos pela mesma causa, Flamengo e Fluminense seguem batendo na tecla de que elaborarão a criação de uma liga independente e mantém conversas neste sentido. Rubens Lopes, por sua vez, sempre que questionado sobre o tema, ameaça-os lembrando que os clubes podem sofrer sanções da Fifa pela desfiliação.

Em paralelo, uma grande dor de cabeça poderá ocorrer caso os finalistas sejam o Tricolor e o Vasco. Isto porque a questão do lado das torcidas no Maracanã segue sendo um impasse, com os dois clubes não abrindo mão de abrigar seus fãs no lado direito das cabines de rádio. Na Taça Guanabara, o duelo acabou sendo transferido para o Engenhão, mesmo com o estádio alvinegro aberto somente parcialmente.

Na noite desta quinta-feira, o “Bom Senso”, criado por um grupo de jogadores para reivindicar melhorias no futebol brasileiro, emitiu um comunicado apoiando a luta de Flamengo e Fluminense contra a Ferj.

Confira abaixo a íntegra:

“Diante dos episódios recentes do Campeonato Carioca que dominaram os debates do mundo do futebol, o Bom Senso F.C. manifesta sua solidariedade ao Clube de Regatas Flamengo e ao Fluminense Football Club. As arbitrariedades cometidas não são condizentes com o papel que as Federações deveriam cumprir.

Ao contrário do que alguns divulgam, o Bom Senso não é contrário a existência das Federações. Acreditamos que as Federações estaduais têm, teoricamente, um papel fundamental para o desenvolvimento do futebol brasileiro em suas dimensões educacionais e sociais. Para nós, elas deveriam ser a ramificação pela qual a CBF disseminaria e aperfeiçoaria sua metodologia, ainda inexistente, para o fomento e a democratização do esporte, para o desenvolvimento e capacitação dos profissionais da área técnica e de gestão de todo o futebol brasileiro.

Isso não quer dizer que sua participação na organização das competições de atletas profissionais seja preponderante. Está claro que não é por meio dessas competições que essas entidades cumprem sua função primordial, a social. Não concordamos com o modelo atual dos estaduais, com 19 datas. Esse período representa 25% do ano e gera apenas entre 6 e 15% da arrecadação dos grandes times.

Atualmente o Sr. Eurico Miranda e o Sr. Rubem Lopes, críticos circunstanciais, dizem que o fim dos estaduais representa o desemprego de 3 mil famílias. O Bom Senso afirma há 2 anos que a manutenção desse modelo de calendário resulta, ao final dos estaduais, o desemprego de 15 mil famílias por todo o Brasil. O que eles têm a dizer sobre isso?

Também não concordamos que as Federações tenham tanto poder, com a maioria dos votos no Colégio Eleitoral da CBF. Lutamos por mais democracia na eleição da Presidência da CBF – pedra filosofal para a oxigenação do futebol brasileiro e mola propulsora para que as decisões sejam mais técnicas e menos políticas. Defendemos que as entidades de administração desportiva, regionais ou nacionais, sejam mais democráticas e transparentes, com massiva participação dos clubes e dos atletas nos colegiados e conselhos técnicos.

Reivindicamos e propusemos uma fórmula de calendário que ofereça estabilidade de emprego a todos os profissionais do futebol e previsibilidade das datas dos jogos durante o ano todo, para que se permita aos clubes do interior conquistarem sua autossuficiência.

A média de público dos estaduais brasileiros é mais baixa que a de países como Vietnã, Uzbequistão e Israel. Os clubes e as novas arenas acumulam déficits, ao passo que a arrecadação das federações aumentou 25% de 2012 para 2013. Vemos ainda que 1/3 dos seus presidentes estão há mais de 20 anos no poder.

O objetivo de todas as entidades de administração do futebol brasileiro – além das dimensões sociais e educacionais – deve ser melhorar a visibilidade e competitividade do futebol que administram. Infelizmente, em todas esses aspectos as Federações estaduais fracassaram.

Bom Senso FC,
por um futebol melhor para todos”.

Fonte: UOL