Por Augusto Decker e Márvio dos Anjos – O Globo

Ardente no alvinegro peito, a Estrela
Guiou Heleno e coroou Garrincha.
Alçou Sinval – que fez por merecê-la –
e Túlio – cuja fama não desincha.
Mas velhos louros cessam de aquecê-la,
E ávida, ela chama os seus na chincha:
“Se vós me amais, calai os vãos louvores!
Ide à América e voltai libertadores.”

Coube a Jair, filho de Jairzinho
Num ritual à sombra da Pereira,
Armar-se treinador quase sozinho,
E convocar a equipe aventureira
Para enfrentar o azar que, no caminho,
Lançou-os na missão mais traiçoeira:
Pegar no Chile o imenso Colo-Colo
E então o Olimpia, em paraguaio solo.

Tudo isso com o elenco dizimado.
A barca de verão tinha partido;
Depois de tantos anos celebrado,
O Jefferson seguia contundido;
Montillo, sem fulgor, recém-chegado;
Camilo, sem seu brilho repetido;
E o obstáculo que sempre irritará:
Não ter o compromisso de Sassá.

E assim, aos trancos, no Maior Engenho,
De longe Airton fez seu arremate;
Um gol contra premiou o empenho
E a volta, em Santiago, deu empate.
Num duelo difícil e ferrenho
O Alvinegro evitou seu abate,
E o gol no fim do salvador Pimpão
Jogou no colo a classificação.

No segundo capítulo da história,
O tricampeão Olímpia era o da vez.
Veio Pimpão, ungido pela glória,
E, em casa, outro prodígio, aos 36:
Pedalou, e a ciclística vitória,
Tinha luta, mas algo de escassez:
O gol lhe deu o empate por vantagem,
Mas Montillo não iria pra viagem.

Fervia o Chaco e, frente a adversidades,
O time foi valente em Assunção.
Pra tensa decisão, penalidades;
Pra ser herói, um Gato da nação:
Um jovem nada estranho à tal cidade
Que entrou no jogo após a contusão
de Helton Leite e mostrou ao Paraguai
O talento que herdara de seu pai.

Deixai toda esperança, vós que entrais
No grupo da pior fatalidade.”
Um trio vinha e prometia mais
(Em força, em tradição e habilidade):
O Estudiantes, de louros ancestrais,
Com Verón a inspirar a mocidade,
O Nacional, que em Chapecó louvais,
Mais um Barça sem Messi, porém duro,
Que represava o otimismo puro.

No Nilton Santos – ambiente insano –
Viu-se que nada iria ser como antes:
Roger marcou o seu, câmbio Shimano,
E Pimpão despachou os Estudiantes.
“Tão curto o elenco e ambicioso o plano…”,
Repetiria Jair aos navegantes,
“Melhor não nos fixar no Estadual
se a sorte nos sorri continental”.

à bonança se segue tempestade
Quando Camilo, súbito, se enerva:
Deixa pra trás o treino, sem vontade
De servir a Montillo na reserva.
Mas Jair reafirma autoridade
E o clima produtivo se conserva:
O 10 abre o placar em Medellín,
Com Guilherme acertando outro no fim.

E veio então o falso Barcelona,
Empate em Guayaquil, perda no Rio.
Vexame raro, que a torcida abona,
Pois a vida não ’stava por um fio.
No returno, a verdade veio à tona
E o Nacional testemunhou o brio:
Lindoso pra Pimpão e, enfim, a vaga,
Enquanto na Argentina, o Mengo paga!

Em La Plata, cumprir uma tabela,
Depois de começado o Brasileiro.
Logo Sassá se foi, quando a janela
Lhe deu a chance de ir para o Cruzeiro
Ao Botafogo, o que o destino sela
Só ao fim saberemos por inteiro
(Tal qual o paradeiro de Mané,
Cuja ossada procura-se em Magé).

Mas antes das oitavas, um recesso;
Sofrência deu lugar à empatia
No gol de Roger, em 3D impresso:
Giulia nos viu, e vimos alegria
– Pouco importa o Avaí e seu sucesso,
O que temos é o que nos diferencia.
Só que ninguém jamais se preparou
Para o adeus que Montillo anunciou.

Tão alvinegro quanto inesperado,
Claro se revelou o ato divino:
Tornou-se herói quem foi aposentado,
Tornou-se torcedor como um menino.
Abrindo mão do 7 mais sagrado,
Em lágrimas se foi o argentino:
No Uruguai, seu nome será canto,
A empurrar quem quer que vista o manto.

Fonte: O Globo