Quando o Botafogo assumiu o Engenhão em 2007, fez uma afirmação rumo ao futuro. Quis uma arena própria, de porte compatível com sua torcida. Rebatizou-a com o nome de Nilton Santos e fez dela sua casa. Enfrenta agora o desafio de preenchê-la com sua própria torcida, o que é mais difícil com o mau futebol que reflete a penúria financeira. O importante é ter em mente que o Botafogo fez um movimento para virar o jogo do orgulho a partir do mando de campo: nele, os regulamentos da CBF determinam a destinação de um máximo de 10% da capacidade do estádio. Qualquer coisa acima disso é generosidade.

É inegável que o Nilton Santos alterou uma tradição carioca: a de que clássicos são jogados no Maracanã. Mesmo quando o Vasco leva os seus a São Januário, mais antigo que o Maracanã, há um tom de anomalia — e a experiência não os recomenda.

Pela sua dimensão, a torcida do Flamengo potencializa esse risco. Sedenta por grandes títulos e reativada por uma série de orgulhos (as finanças exemplares, o time vistoso, a campanha indiscutível), a multidão rubro-negra já provou que lida mal com acessos restritos. Basta considerar as invasões e ameaças que o próprio Maracanã sofreu nas finais de Copa do Brasil e da Sul-Americana, em 2017, além do enorme esquema de segurança da semifinal da Libertadores deste ano.

Neste cenário, o clássico Botafogo x Flamengo, nessa ordem, se tornou um confronto entre uma soberania e uma maioria. O Botafogo quer exercer seus direitos como mandante. Além disso, não admite jogar no Maracanã pagando aluguel ao Flamengo. Por sua vez, a torcida do Flamengo não aceita ser minoria no Rio. Usa até o argumento da precária saúde financeira do Botafogo: ceder mais ingressos ao rival significaria alívio nos cofres. Em resposta, o Botafogo deve ter feito suas contas e preferido a vantagem de ter uma maioria a favor de seu time. É seu direito dizer “não, obrigado”.

Esse cenário, porém, levou a um comportamento tribal. Ante a barulhenta reação rubro-negra à cota mínima e a afirmação da Polícia Militar de que o Botafogo “assumiu um risco” ao não ceder mais bilhetes, parte da torcida do Botafogo se sentiu desautorizada em sua própria casa; logo se preparou para caçar infiltrados. A tal ponto que um gesto mal interpretado virou senha para a tentativa de homicídio do taxista Sérgio Fernandes Pacheco, botafoguense doente.

Botafogo e Flamengo precisam conversar entre si a fim de desistirem do rótulo de clássico mais perigoso do Brasil. A partida, cedo ou tarde, terá de ser disputada no Rio. Caso vá para o Nilton Santos, o Flamengo terá de demover seus torcedores, de forma enérgica e indiscutível, da ideia de se infiltrarem em setores alvinegros, estimulando o respeito à casa alvinegra. O tamanho da torcida do Flamengo não lhe dá o direito de invadir a casa alheia, esteja ela plena ou parcialmente cheia — e a conta rubro-negra no Twitter é dúbia quanto a isso, ao falar em “perder espaços” para a “intolerância desportiva”. Estaria falando dos ingressos a mais negados?

Por outro lado, talvez seja possível encontrar uma solução para que os botafoguenses se sintam em casa no Maracanã, como um dia já se sentiram. O que não é possível é uma briga territorial disputada de forma tão irracional que nem mesmo os iguais possam se sentar lado a lado.

Fonte: O Globo Online