Jair Ventura definiu como uma guerra a partida de quarta-feira, às 21h45m, quando o Botafogo enfrenta o Colo Colo, no jogo de ida do mata-mata válido pela segunda fase da Libertadores. Não se espante se a guerra for tática. Muito além de outra tradicional camisa alvinegra do futebol sul-americano, o time chileno é comandado por um treinador argentino apaixonado pela escola do Barcelona. Fã dos compatriotas Marcelo Bielsa e Jorge Sampaoli, ambos com passagens de sucesso no Chile, e do espanhol Pep Guardiola, Pablo Guede quer derrubar os sonhos botafoguenses no Engenhão com a bola nos pés.

Após um início ruim no “El Cacique”, em que chegou em julho passado, Guede levou o time ao título da Copa Chile, mas não passou da quinta posição do Torneio Apertura. O treinador gosta de atuar com três zagueiros. Um deles, Claudio Baeza, de 23 anos, que atua pela esquerda, ajuda a entender melhor o estilo de Guede impõe. Habilidoso com a bola nos pés, Baeza ajuda na distribuição de jogadas aparecendo como um meia. Jogador que interessava ao Atlético-MG, o defensor teve sua renovação de contrato muito comemorada na última semana.

Quem também é peça central na armação das jogadas é o experiente meia Javier Váldes, de 36. Ele volta até a intermediária para distribuir a bola, quase sempre com toques rápidos e curtos. Pela esquerda, o ala Brayan Véjar, de 21 anos, é o jogador mais insinuante de lado de campo. Com frequência, ele aparece na linha de fundo para cruzar. Na área, os responsáveis por botar a bola dentro do gol são Esteban Paredes, terceiro maior goleador da história do Colo Colo, e o uruguaio Octavio Rivero.

— Contra o Botafogo, Guede vai ter que trocar a formação para ser defender num gramado maior. Essa é a tônica da partida: como mudar o jogo e conseguir um bom resultado no jogo de ida — explica o jornalista Javier Ramírez, do jornal El Mercúrio, do Chile. — É uma equipe rápida, mas tem jogadores em idade mais avançada, com mais de 35 anos, como Villar (39), Valdés (36) e Paredes (36). Isso pode jogar a favor em partidas como essa. São jogadores que sabem o que é competir como visitantes em uma competição internacional.

Com folha salarial de R$ 1,5 milhão, o clube sonhou com Macnelly Torres, meia do Nacional de Medellín, mas teve que se contentar com contratações menos estreladas. Trouxe o Mark González, de 32 anos, que jogou oito partidas do Brasileiro pelo Sport e fez um gol, e o atacante Pedro Morales, de 31, que estava no Vancoucer Whitecaps, do Canadá. Na última semana, trouxe também o zagueiro argentino Fernando Meza, de 26, que estava no Necaxa, do México.

Líder de greve e ex-companheiro de Tito

Ainda é incerta a presença de Meza, que foi apresentado apenas na quinta-feira passada. À imprensa chilena, ele revelou sua admiração por Guede, com quem atuou no Palestino, do Chile, em 2014, quando o técnico foi responsável pelo que seria batizado de “revolução ofensiva”. Após uma breve passagem pelo San Lorenzo, clube do coração do treinador argentino de 42 anos, Guede regressou ao Chile em julho passado e garantiu a vaga na Libertadores com o título da Copa Chile.

— Guede me fez ver o futebol de forma diferente. Estou convencido que o que ele propõe é a melhor forma de ganhar — afirmou Meza.

Como atleta, Guede se notabilizou quando, em 1997, liderou uma greve geral de jogadores argentinos quando atuava no Deportivo Español. Ele e outros cinco companheiros de clube receberam o direito de deixar o clube. Foi então para a Espanha, onde fez carreira no Málaga e em clubes de divisões inferiores. No Elche, atuou junto com Tito Villanova, que se tornaria mais tarde assistente de Pep Guardiola e, posteriormente, técnico do Barcelona. Tito morreu em 2014 vítima de um câncer na garganta.

Com 42 anos, Guede é visto como um treinador com capacidade para reeditar o sucesso do também argentino Jorge Sampaoli no arquirrival, o Universidad do Chile. Assim como o atual treinador do Sevilla, da Espanha, ele tem adoração por Marcelo Bielsa, outro técnico argentino com sucesso no Chile. Tanto Sampaoli como Bielsa são conhecidos por seu estilo ofensivo dentro de campo e também por serem pessoas excêntricas fora dele, que pensam no futebol 24 horas por dia. O técnico do Colo Colo parece seguir o mesmo caminho. Em 2015, uma reportagem do La Nación, da Argentina, se surpreendeu como um quadro com a imagem de Guardiola na casa de Guede.

O time do Colo Colo, primeiro adversário do Botafogo na Libertadores – Carlos Succo/Divulgação
Fonte: O Globo Online