Há risco em todas as decisões tomadas dentro do futebol. Seja uma decisão singular, tomada por um jogador em campo, seja a maneira de armar o time para um jogo, seja a escolha de um treinador por uma diretoria. Quando um técnico arma um esquema perfeito, por exemplo, não é para garantir a vitória, porque isso ele não pode. É para minimizar o risco de não vencer.

Ao decidir que Felipe Conceição, um técnico com quase nenhuma experiência em um vestiário profissional, comandaria o time em 2018, a diretoria alvinegra aumentou exponencialmente o risco de perder. Felipe, talvez inspirado, fez o mesmo ao jogar com um esquema de três zagueiros nunca antes treinado justamente no único jogo, até aqui, que não poderia sair derrotado. A sequência de decisões erradas apareceram feito bola de neve em Aparecida de Goiânia, onde se achava que não nevava, e o Botafogo perdeu por 2 a 1 e está eliminado da Copa do Brasil em mais um inesquecível vexame para a coleção do clube na competição.

A impressão que a decisão por Felipe Conceição foi feita baseada no simplista raciocínio de que “deu certo com Jair, vai dar de novo com ele” parece cada vez mais real e condenável. Real porque não havia de fato nenhum profissional do futebol palpitando na época (Antônio Lopes estava de saída, Anderson Barros ainda chegando) e condenável porque, ao contrário de Tigrão, Jair já se preparava, comandava alguns jogos como interino há anos, convivia diariamente com aquele grupo. Felipe não era nem substituto natural, já que, técnico do sub-17, teoricamente, estava abaixo de Barroca, do sub-20.

Achar que só porque Jair Ventura fez um belo trabalho, outro também faria, como se o Botafogo fizesse algum esforço para formar bons treinadores, o que não faz, é um erro tão amador como possível diante dos dirigentes do futebol brasileiro. Cabe lembrar, Jair foi exceção. Não fosse, não viraria a joia no mercado que virou mesmo com um fim de trabalho questionável no Botafogo. Fosse regra, a torcida alvinegra não teria convivido com Eduardo Húngaro, outro caso parecido, em 2014, que até hoje aterroriza a memória do calejado torcedor.

Quando chegou, Felipe Conceição só precisava superar suas próprias dificuldades de começo de carreira. A missão não era dificil. Qualquer quarto lugar no Carioca não seria problema, e, até o Brasileiro, duas missões pela frente, nada complicadas para um time que estava nas quartas de final de Libertadores, dando trabalho para o futuro campeão, há menos de seis meses. Era treinar e vencer três fases da Copa do Brasil, em que o adversário mais difícil seria o Náutico, da Série C, no último confronto; e passar pelo Audax Italiano, do Chile, um time que põe suas esperanças em Loco Abreu, na primeira rodada da Sul-Americana, em abril. Fora as missões nada impossíveis, porém com foco necessário, Tigrão tinha o tempo que queria para armar bem o time e chegar no Brasileiro brigando na parte de cima da tabela.

Toda calma é necessária para avaliar trabalhos em começo de temporada. Porém, o fracasso alvinegro na Copa do Brasil se deu da pior maneira possível: na primeira rodada, contra um time muito fraco, em uma lambança de decisões do treinador antes e durante o jogo. Mantê-lo no cargo por um, de novo, simples raciocínio de demonstrar alguma modernidade, profissionalismo, é tentar passar o desodorante quando o cheiro já se espalha. Se Felipe ficar, a não ser que consiga uma bela exibição contra o Flamengo e garanta não tropeçar contra Bangu ou Boavista depois, a diretoria afasta ainda mais uma torcida que, desde o fim do ano passado, só se decepciona enquanto boa parte da imprensa pede paciência. O Botafogo é sofrido, e paciência em General Severiano é um item que não tem as mesmas condições de sobrevivência do que em outros clubes.

E, claro, não foi só a Aparecidense. O Botafogo não viveu qualquer quinze minutos de brilho em 40 dias com Felipe. Seis jogos, só duas vitórias, ambas por vantagem mínima, contra Macaé e Boavista. Três empates: no último minuto, contra a Portuguesa da Ilha, contra o lanterna Madureira, num horrendo zero a zero, e contra um Fluminense em crise. O time de Abel também teve dificuldade contra a Caldense, em situação parecida com a do Botafogo ontem, pela primeira rodada da Copa do Brasil. Sobrou, porém, um treinador que soube trabalhar com o que tinha, sabendo que um empate que dava a classificação não era nada humilhante em tempos de vacas magérrimas, até mais raquíticas que as, tradicionais, alvinegras.

Felipe tenta fazer com que o Botafogo possua mais a bola, explorando alguma velocidade pelo lado do campo, apostando em Luiz Fernando e Pimpão, tentando estabelecer diálogos com os laterais. Louvável, mas ainda sem vislumbre de sucesso. Enquanto isso, a defesa, ponto forte do ano passado, passa mal bocados: dos cinco gols que sofreu no ano (marcou outros cinco), quatro foram em bolas cruzadas pela área pelo alto, o que causa, de novo, a nítida sensação de que o trabalho, desde a definição pelo seu início, é uma sequência de decisões erradas. Claro, o elenco não é um primor, as referências técnicas não ajudam. Mas saber trabalhar com o que tem deveria, ao menos, ser o legado de Jair para Felipe ou qualquer outro que viesse no mesmo modelo que o Ventura.

O pensamento mais pessimista na época do anúncio do novo treinador virou hoje, o mais otimista: se é pra dar errado, que dê logo. Pois bem, deu. Hoje completamente torto pelo tamanho do risco que tomou, o Botafogo pode e precisa ser corrigido. Não custa lembrar que tem coisa muito pior a acontecer na temporada do que uma eliminação para a Aparecidense. E o Botafogo tem como evitar. Basta não se rebaixar ao orgulho de não admitir que as decisões, até aqui, foram erradas. Um time triste, para um Tigre triste. O trava-línguas alvinegro precisa ser dito.

Fonte: O Globo Online