A noite desta terça-feira, no Nílton Santos, não é definidora do que será o ano do Botafogo. Tudo jogava contra, a começar pelo tempo de preparação do alvinegro e do rival, que treina desde novembro. Mas o empate em 2 a 2 com a Portuguesa na estreia do Estadual indica o tamanho das dificuldades que se colocam no caminho.

Uma delas, a construção do time. Embora seja um elenco parecido com o do ano passado, houve perdas importantes como as de Bruno Silva e Roger. Além disso, o sinal é da busca por um novo jeito de jogar, algo ainda mais dramático para um Botafogo que se condicionara tanto ao estilo de Jair Ventura. E não seria tão cedo que as adaptações se mostrariam afinadas.

Seja pela filosofia do técnico Felipe Conceição, seja pelas circunstâncias de um jogo contra um pequeno, a noite impunha um Botafogo de mais elaboração, mais toque. Um tanto diferente do time de roubada de bola e velocidade de Jair. Muitos jogadores tinham funções ou comportamentos alterados em relação a 2017. A defesa, com Igor Rabello e Carli, jogava mais adiantada. No 4-1-4-1, Matheus Fernandes era o único volante, não tinha João Paulo ao seu lado. Este atuava mais à frente, como meia junto a Léo Valencia. Defesa e meio acabaram se espaçando, dando terreno à Portuguesa. Que ainda achou um gol aos nove minutos, com Sassá, após um córner.

Neste desenho de time e de jogo, Pimpão não tinha tanto espaço para correr. Enfrentava uma marcação posicionada à sua frente. Na direita, sem Bruno Silva e sua movimentação da ponta para o centro, Arnaldo ficava sem o espaço para arrancar, esbarrando em Luiz Fernando. Há muitos ajustes a fazer. E haverá paciência?

Não parece. Nem a sorte ajudou, porque aos 35 minutos Sassá acertou um chute e o sempre confiável Jéfferson errou: 2 a 0 antes mesmo do intervalo. E vaias no estádio.

Eis a outra questão que vai perseguir este Botafogo. O clube convive com capacidade escassa de investimento, mas as boas campanhas recentes colocaram nas alturas o nível da cobrança. A ausência na Libertadores virou fracasso para o padrão que a torcida estabeleceu. Uma ferida aberta, como se 2017 não tivesse terminado. Algo que ficaria ainda mais claro no segundo tempo.

Conceição inverteu lados de Pimpão e Luiz Fernando, alinhou mais João Paulo a Matheus Fernandes e o Botafogo pressionou uma recuada Portuguesa. Mas sem tanta inspiração, tanto que achou um gol apenas numa falha bizarra de Romarinho, que pôs a mão na bola após errar uma cabeçada em um lance aparentemente morto. Brenner converteu.

Mas a criação de chances era escassa. Eram muitos os cruzamentos da intermediária. Até começarem as substituições em série, algo que este Carioca traz como novidade. Conceição fez as cinco, um tanto pela busca do placar, muito pela questão física. Ocorre que, em times que treinaram pouco, as mudanças até refrescam pernas, mas também desfiguram equipes em formação. O Botafogo, com todos os seus setores alterados, ainda encontraria o empate. Na pressão, na luta, o gol de Marcos Vinícius veio após um escanteio e não em um lance trabalhado.

Àquela altura, o coro “time sem vergonha” ecoava no Nílton Santos. Um decreto popular emitido com 90 minutos de temporada. Uma traço brasileiro, a que o Botafogo não foge. A arquibancada sonha com um time que, talvez, não corresponda à realidade do clube. O 2018 do Botafogo é uma sucessão de desafios.

Fonte: O Globo Online