Rinus Michels, criador do futebol total, é o ídolo de Louis van Gaal. Mentor de Pep Guardiola, o técnico da Holanda está na Bahia para o sorteio desta sexta-feira, faz polêmica, diz que Brasil é favorito e sua seleção, o azarão.

Como o senhor encara as chances da Holanda na Copa do Mundo-2014?Temos que ser realistas com as estatísticas. Quando lemos as estatísticas, vemos que nenhuma seleção europeia jamais venceu uma Copa do Mundo na América do Sul. As estatísticas não mentem. Mas nós temos também uma chance. Uma chance como azarões, os intrusos da festa.

O senhor foi pupilo de Rinus Michels? Poderia falar sobre a influência dele em sua carreira?

Foi muito importante para mim. Eu era criança quando comecei a ver sessões de treinos do Ajax. Para mim, ele foi um ídolo. Lembro-me quando me encontrei pela primeira vez com ele, através de meu avô. Ele criou o futebol total, ele introduziu essa novidade. O futebol total foi a última grande invenção do futebol.

E sobre Guardiola?

Já como jogador, Guardiola foi meu capitão no Barcelona. Ele sofreu uma lesão muito grave e não pôde mais jogar. Ele era um jogador com grande cérebro. Como técnico, ele se mostra capaz de transferir esse conhecimento para os jogadores. Ele mostrou isso como técnico do Barcelona, e agora está mostrando no Bayern de Munique. Ele é um grande técnico. Existe uma grande diferença entre os jogadores capazes de fazer as coisas e os que pensam as coisas. Guardiola foi e é um pensador. Ele está acima dos treinadores normais.

O senhor espera uma Copa do Mundo difícil?

É muito difícil porque temos que pensar no estado físico dos jogadores. Todos os jogadores estarão em fim de temporada. Para você triunfar numa Copa do Mundo precisa estar muito em forma. Na fase de grupos também é importante o trabalho mental. Quando assumi a seleção, ano passado (depois do mau resultado da Holanda na Eurocopa), tive que mudar jogadores, mudar o espírito. Estou muito feliz. Espero que os jogadores jovens possam se desenvolver. Assim, podemos ter um time muito bom.

Quem é o favorito para ganhar a Copa-2014?

Estou muito feliz de apontar o Brasil como maior favorito, não apenas pela qualidade da seleção, mas também pelo treinador que tem (Luiz Felipe Scolari).

O que mais o senhor destaca no Brasil?

Não gostei muito do Brasil na fase preliminar da Copa das Confederações, mas, na semifinal e na final, o Brasil foi muito bem. O time cresceu mentalmente, ganhou força, uma identidade. O Brasil joga verdadeiramente como uma equipe e é o maior favorito para a Copa do Mundo.

O senhor já confirmou que a Holanda usará o Rio de Janeiro como sua base na Copa e que treinará no Flamengo?

Não, ainda. Isso depende do sorteio. Há outra possibilidade. Porém, normalmente, nós preferimos o Rio de Janeiro para o hotel e as facilidades de campos de treinamento.

O senhor conhece a história do Flamengo?

Viemos aqui ano passado. Soubemos mais sobre a história e o enorme número de torcedores que eles têm não só no Brasil, mas também fora deste país. Estou muito honrado que possamos treinar no campo deles e também ajudá-los a melhorar e a modernizar as instalações que têm porque queremos treinar num campo muito bom. Esse é o nosso objetivo com esse clube.

O senhor conhece grandes jogadores do Flamengo?

Eu conheço Zico, Júnior, mas não sei o que estão fazendo agora porque moro na Holanda. Nós assistimos a jogos e recebemos muitas notícias sobre a maioria dos campeonatos de países europeus, não do Brasil.

E a importância do sorteio desta sexta?

O sorteio é o evento mais importante. O sorteio pode te dar sorte com adversários e também sorte com a parte das viagens. Pode te dar também sorte com o clima porque o clima exerce o papel mais importante na recuperação dos jogadores entre um jogo e outro, especialmente num país tropical como o Brasil. Fatores locais serão decisivos, como o clima, as distâncias das viagens, os horários das partidas. Se você joga a uma hora da tarde no Brasil não é algo agradável para um país como a Holanda. Temos que ver o clima, se está frio, se está quente. Faz uma grande diferença. Isso afeta no mais importante, que é a recuperação dos jogadores entre uma partida e outra.

Se o senhor pudesse escolher um grupo, qual seria?

Poderia dizer B ou E. Ou F, G ou H. O Mas você pode estar no Grupo B e pegar adversários fortes. Pode estar no E e ter jogos em cidades de muita umidade. Ou estar no G e ter de percorrer grandes distâncias. É difícil dizer que grupo é o melhor. Mas quando tivermos o resultado do sorteio, eu responderei a você (risos).

Clarence Seedorf teve um tremendo impacto no Botafogo nesta temporada…

Todas as notícias que leio na Holanda sobre o Brasil são sempre sobre Seedorf. Ontem (anteontem), ele apresentou a nova bola da Copa (Brazuca), no Rio de Janeiro. Ele é um grande jogador, eu já falei isso. Como jogador, Seedorf foi o (holandês) que mais ganhou. Mais do que Cruyff. Em diferentes países. Então, talvez, Seedorf seja o melhor jogador da história da Holanda. De todos os tempos. Na Holanda, todo mundo diz que (o melhor) é Johann Cruyff. Então, você tem sempre que apontar um critério. Você entende? Mas ele (Seedorf) ganhou mais em diferentes países. Ele teve um grande impacto.

O senhor estaria mesmo dizendo que Seedorf é melhor do que Cruyff?

Sim, é o que eu estou dizendo. Você precisa ter um critério. No critério mundial é. Quando você pergunta pelo jogador holandês com mais títulos, é ele (Seedorf). Mas Johann Cruyff teve mais impacto para o futebol holandês e também no mundo. Então, se você adotar esse critério (de impacto), Johann Cruyff é o melhor.

O senhor espera grandes mudanças táticas nas seleções para a próxima Copa do Mundo?

Não. Já inventamos tudo. Tudo o que havia para ser inventado, já foi inventado. Talvez, aconteçam variações táticas. Até para variações do passado. Como o 5-3-2. Tudo já foi inventado há 30 anos atrás.

Fonte: O Globo Online