Jornais mostram as 'peripécias' do Botafogo em sua 1ª Libertadores: o telegrama de Didi, a lesão de Garrincha e o carro capotado de Amarildo
Jornais mostram a 1ª Libertadores do Botafogo : o telegrama de Didi, Garrincha lesionado e o carro capotado de Amarildo

O voo 0920, que partiu nesta terça pela manhã do Aeroporto do Galeão levando o elenco do Botafogo até Lima, e de lá até o Equador para o jogo contra o Deportivo Quito, é simbólico. Depois de 18 anos, o time volta a fazer uma viagem para um jogo da Libertadores da América, na quarta participação do clube. Há 51 anos, em uma viagem coincidentemente para Lima, o alvinegro fazia sua primeira excursão visando a um jogo pelo maior torneio de clubes da América. Com o objetivo de enfrentar o Allianza Lima na capital peruana e o Millonarios da Colômbia, em Bogotá, o Botafogo partiu para uma aventura lotada de histórias, curiosidades e coincidências impressionantes.

A história fala muito sobre os vencedores, mas é quando se fuça a trajetória dos perdedores que saem os casos mais interessantes. Sabe-se muito sobre a Libertadores de 1963, na qual Pelé deu socos no ar e foi o herói do título santista. Pouco se sabe, no entanto, sobre a participação de craques históricos como Garrincha, Nilton Santos, Amarildo e Zagallo no hoje tão valorizado torneio da Conmebol.

Com quatro bicampeões da Copa do Mundo no elenco, o Botafogo entrou na Libertadores do ano seguinte por ter sido vice da Taça Brasil. O time perdeu a final justamente para o Santos e herdou a vaga, já que o time da Vila Belmiro era o atual campeão da América.

O Botafogo caiu no grupo 1 da competição, ao lado de Alianza Lima e Millonarios. Jogando em turno e returno, apenas um time se classificaria para a semifinal.

Acidente, chuva, terremoto e contusão: apesar das vitórias, uma viagem considerada azarada
Duas vitórias em dois jogos e a liderança do grupo. Assim o Botafogo terminou a primeira viagem e seus primeiros dois embates na história do clube na Libertadores. Apesar dos êxitos, a empreitada teve seus revezes.

A começar pelo caminho ao aeroporto. O atacante Amarildo, além de craque da bola, era conhecido por ser um exímio motorista, tanto que tinha o apelido de “rei das curvas”. Só que naquele 27 de junho de 1963, data do embarque, o jogador vinha com seu Gordini a caminho do Aeroporto do Galeão quando se chocou com a grade de uma ponte, capotando o carro que trazia também o zagueiro Joel.

O veículo caiu de uma altura de 5m, mas os jogadores não sofreram nenhuma lesão. Muito perto do aeroporto, e faltando meia hora para o embarque, os jogadores foram a pé até o saguão, onde, de tão nervosos, tiveram que tomar injeções de tranquilizantes para viajar.

“No dia do acidente, o susto que eu e o Joel tomamos foi tão grande que passamos quase toda a viagem nos apalpando para termos certeza de que não tínhamos quebrado nenhum osso”, contou Amarildo.

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Carro batido de Amarildo
Amarildo e o acidente: o carro bateu em uma grade de proteção, capotou e caiu na contramão; ninguém se feriu

Na conexão, o bordão “tem coisas que só acontecem com o Botafogo” continuou. O avião parou em Buenos Aires para, de lá, seguir viagem até Lima. O frio era tanto no inverno argentino que Óton, jovem titular do time, foi acometido por uma dor ciática e ficou com a perna dura até a volta para o Rio de Janeiro.

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Viagem azarada levou até chuva à 'seca' Lima
Viagem azarada levou até chuva à ‘seca’ Lima

Mesmo assim, Óton jogou o primeiro jogo da história do Botafogo na Libertadores, contra o Alianza Lima. A sorte parecia ter voltado. Garrincha, que era dúvida, também jogou. E foi com gol único de Élton que o time alvinegro venceu fora de casa o rival peruano. Um a zero em um jogo não muito empolgante.

Para ajudar a pagar a viagem, o Botafogo decidiu fazer um amistoso em Lima, aproveitando que tinha os famosos campeões do mundo de 1962 no elenco. E foi aí que o azar voltou. A capital peruana tem um clima onde chuva é coisa muito rara. Em média, 7 milímetros por ano, fazendo de lá a área metropolitana onde menos se chove em todo o planeta.

Pois justo no dia do amistoso, uma chuva torrencial caiu sobre a cidade pela primeira vez em 40 anos. Desacostumada, a população ficou em casa, e a renda do amistoso contra o Sporting Cristal escorreu junto com a água. O saldo final da viagem: prejuízo de 16 milhões de cruzeiros. Se não bastasse, na véspera, os jogadores relataram um pequeno tremor de terra na cidade e pânico total no hotel dos brasileiros, não acostumados com isso.

A ida para Bogotá e a vitória sobre o Millonarios trouxeram mais dois pontos ao Botafogo, mas, pouco antes do jogo, uma notícia muito ruim chegou para os alvinegros. Garrincha sentira o joelho e começara a decadência de sua carreira. O camisa 7 só voltaria a jogar um mês depois, justamente na eliminação do time na Libertadores, na derrota por 4 a 0 para o Santos de Pelé na semifinal no Maracanã.

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Garrincha contundido
Garrincha e a lesão no joelho: era o começo da decadência da carreira do eterno camisa 7 do Botafogo

Jaime de Almeida contra o Botafogo na Libertadores… de 1963
Se o Botafogo avançar na primeira fase e na fase de grupos da Libertadores, pode, nas fases finais, enfrentar o grande rival Flamengo. No banco adversário, terá Jayme de Almeida. Pois em 1963, na primeira viagem, na primeira vez que o clube entrou em campo pela competição, o treinador adversário era… Jaime de Almeida.

Explica-se: o pai do atual treinador do Flamengo, também chamado Jaime de Almeida (o filho só tem o Y de diferente no nome), foi jogador e treinador do clube da Gávea por muito tempo. Quando saiu do clube, foi até o Peru treinar o Alianza Lima. Sagrou-se campeão nacional em 1962 e recebeu o antigo rival Botafogo na estreia do time na Libertadores no ano seguinte, sendo derrotado por 1 a 0. Um adversário hereditário que pode se repetir mais de 50 anos depois.

Seedorf e Didi: coincidências que impressionam 
Seedorf e Didi, de épocas diferentes, são atletas símbolos de um futebol elegante e talentoso. Além da cor da pele e do fato de terem jogado pelo Botafogo, mais uma coincidência passa pelo caminho dos dois craques. Este ano, Seedorf decidiu, no meio de um contrato com o clube e prestes a jogar uma Libertadores, encerrar a carreira para virar treinador. Didi, também.

O jogador, que fora campeão carioca pelo Botafogo em 1962 e ainda em contrato com o clube, de repente, decidiu parar de jogar. Dias depois, a explicação: recebera uma bela proposta para virar treinador do Sporting Cristal, do Peru. Assim como o holandês, sem pestanejar, Didi foi, abandonando carreira e o clube do qual era ídolo.

A história fica ainda melhor. Quarentinha, maior artilheiro da história do Botafogo, recebeu um telegrama do amigo Didi, perto da viagem do clube ao Peru para a Libertadores. Didi dizia querer voltar a jogar futebol, que estava com saudades e pediu ao amigo que encomendasse um par de chuteiras para ele com seu sapateiro favorito, seu Aristides, no Rio. Era uma dica do que estava por vir: o “Folha Seca” queria voltar a jogar futebol, no Rio, e pelo Botafogo. Começava então uma negociação com interesses duplos.

Didi recebeu, junto com Jaime de Almeida, a delegação do Botafogo no aeroporto de Lima. Daí tudo se esclareceu: como Seedorf, ele só pôde romper o contrato porque não seria mais jogador de futebol. Agora arrependido, o craque queria jogar e, ao mesmo tempo, ser técnico de futebol pelo Sporting Cristal. Só que o passe de Didi como jogador ainda estava atrelado ao time carioca. Foi então que o técnico que queria ser jogador propôs atuar um turno do Carioca, por quatro meses, para depois ter seu passe livre para jogar e treinar o Sporting Cristal. O Botafogo recusou. Queria o craque de volta por mais tempo.

Assim, o diretor de futebol do alvinegro, Renato Estelita, viajou até o Peru para convencer Didi a ficar o ano todo. Levou uma lata de goiabada cascão, 2 kg de carne e 3 kg de café para fazer o jogador e sua esposa, dona Guiomar, sentirem saudades do Brasil. Deu certo. O Jornal do Brasil anunciava: Didi voltará com o Botafogo e jogará o Carioca, a Taça Brasil, a Libertadores, o Rio-São Paulo e excursionaria com o elenco. Em troca, ganharia uma quantia em dinheiro e o passe livre após dez meses.

Tudo ficou bem entre jogador e diretor. Tanto que, antes do amistoso contra o time de Didi, o Sporting, o próprio jogador dirigiu o então rival Botafogo em um treinamento, já que o técnico Danilo Alvim sofrera um acidente no hotel e havia luxado o braço, em mais um episódio do azar alvinegro durante a viagem.

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Didi volta ao Botafogo
Jornal anuncia o retorno de Didi para o Botafogo; o clube mal sabia que uma reviravolta deixaria o jogador longe de uma volta

Só que, no Rio, a história da volta de Didi não caiu nada bem entre torcida e dirigentes alvinegros. O jogador ficara com a imagem manchada pela saída do Botafogo. Muitos o achavam velho (35 anos), e a idade atrapalharia o processo de renovação do elenco. Assim, o craque, para deixar que os ânimos se acalmassem, decidiu ficar em Lima mais um pouco. Deixara, sem querer, o ex-clube dividido.

Se a história começou com um telegrama, também terminou assim. Dias depois, influenciados pela repercussão negativa da volta ao Brasil e encantados com a vida que estavam tendo em Lima, Didi e dona Guiomar mandaram um telegrama, curto e objetivo, recebido com surpresa pela direção alvinegra.

“Lima, 7 de Julio de 1963.
De: Sr. Valdir Pereira e Sra. Guiomar Pereira
Não sairemos daqui.”

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Didi telegrafou dizendo que não volta
A maneira inusitada do ‘não’ de Didi ao Botafogo: um telegrama simples, curto e direto para a diretoria

Fim do sonho da América
Didi só voltou ao Botafogo no ano seguinte, perdendo a oportunidade de ser o quinto campeão do mundo daquele time da primeira Libertadores, que ainda ficou desfalcado de Amarildo, vendido ao Milan no meio da competição. O Botafogo se classificou no grupo, fazendo a semifinal contra o Santos, quando foi eliminado.

Fonte: ESPN.com.br