Contratado para ajudar a Chapecoense a renascer após a tragédia, Vagner Mancini tem feito o time sonhar. Hoje, o clube ocupa a quarta colocação do Brasileiro. Mais do que isso, a ida ao interior catarinense abriu as portas para o treinador de 50 anos refletir sobre a vida e se reaproximar das raízes. Amanhã, ele encara o Botafogo.

A Chapecoense teve um imbróglio jurídico na Libertadores, briga na partida com o Cruzeiro, torcedor jogando objeto em campo. É a volta à normalidade de um clube?

Todo mundo se comoveu muito. Foi uma coisa necessária porque todo mundo queria prestar solidariedade, o que é bacana, mas sabíamos que seria por tempo limitado, íamos encontrar os rivais no estadual. Depois, foi incomodando alguns dentro de campo, porque o time foi se ajustando. É natural. É como se desse apoio a uma pessoa mas, quando ela fica bem, pisa no seu pé. Acho até bom. Ninguém quer ficar de coitadinho. A gente ia viajar e era aplaudido nos aeroportos. Ainda somos, mas, quando começa o jogo, há uma partida de futebol, é perfeitamente normal.

O acidente ainda é utilizado para motivar o vestiário?

A gente até falou em um determinado dia, mas, depois, paramos de falar nisso. Os que chegaram têm que construir uma nova história. Tem que dar espaço para que todos possam escrevê-la. A gente tem que comemorar a vida, o fato de outras pessoas estarem aqui, e que elas consigam homenagear no trabalho diariamente. Não é falando sobre o acidente, mas vivendo.

Boa parte de sua carreira foi em times de capitais, Rio de Janeiro, Salvador, Curitiba, Recife, Belo Horizonte. Como é Chapecó? A relação do time com a cidade parece ser diferente.

Dá a impressão que você repensa sua vida, tem tempo de fazer mais coisas. Eu saio do hotel onde moro e até o CT demoro 10, 12 minutos. Isso é difícil em capitais, você perde tempo no trânsito. Aqui, tem vida mais saudável, tem qualidade de vida. Você encontra pessoas na rua. Todo mundo fala com todo mundo, a cidade vive intensamente o time. Nas cidades grandes, você tem pressão maior, tem um dia a dia mais acelerado. Aqui, a cidade te acolhe muito. Todos têm acesso a você. Não que não tenha pressão por vitórias, mas aqui tem vida.

Do ponto de vista pessoal, ter esse tempo te fez bem?

Todo mundo que passa aqui nota que é uma cidade diferente por te mostrar que existe uma outro tipo de vida, que não é a vida atribulada das capitais. Eu sou do interior de São Paulo, mas são mais ou menos os mesmo valores. Chega à noite, bota a cadeira para sentar na calçada. Você é parte de uma comunidade que vive de forma diferente. Não tem como isso não te fazer bem. É bom para voltar às raízes. Na cidade grande, a gente leva uma vida artificial, de poucos lugares e muito tempo perdido. Aqui é o contrário. Eu tomo um café na padaria e encontro com pessoas que todo dia estão ali. Com calma, sem medo de ser assaltado. A parte boa é que, ao longo do Brasileiro, a gente também vive nas cidades maiores.

Fonte: Extra Online