O segundo chamado foi aceito. Zé Ricardo chegou ao Botafogo em agosto, comandou o time que se livrou do rebaixamento e até sonhou com vaga na Copa Libertadores. Na última quarta-feira, mesmo antes do jogo deste sábado contra o Atlético-MG, o treinador recebeu o LANCE! no Estádio Nilton Santos para uma entrevista exclusiva. Em pauta, assuntos do passado, do presente e do futuro dele e do clube, que você poderá ler em quatro recortes ao longo desta sexta. Nesta primeira parte do bate-papo, o técnico responde sobre a possibilidade de extensão do atual vínculo, que termina em abril. A diretoria alvinegra já declarou que isso é prioridade. E o treinador quer a equipe sonhando alto.

– Temos que ter muita ambição. Não podemos ser gananciosos, mas ambiciosos, sim. Dentro das nossas limitações, o botafoguense pode certeza que terá uma equipe de muito representatividade para ele. Que vai combater, lutar até o fim e querer ser protagonista de todas as partidas. Queremos um grupo que entenda a responsabilidade que é jogar aqui, o tempo que for. Assim, tenho certeza que a torcida estará aqui sempre, nos apoiando, pois nós também estaremos guerreando por eles – garantiu.

Que projeção que você faz para o Botafogo no ano que vem? É possível chegar ao G6? Ao G4?
Primeiro dizer que terminar na primeira página já é motivo de satisfação. Não orgulho porque queremos e o Botafogo merece mais, mas satisfação porque brigamos muito contra a parte de baixo. E vamos lutar muito por essa oitava posição, uma colocação mais honrosa, e com uma valorização a nível de CBF (financeira) que o clube está precisando tanto. Mas fazer projeção é um pouco complicado de falar agora porque tem muitas negociações, o Botafogo tem muitos atletas emprestados. As operações não são simples. Temos uma base, temos condição de fazer um bom Carioca, a Copa do Brasil depende muito de chaveamento, mas a nossa expectativa é de preencher o calendário com a Sul-Americana, onde o Botafogo tem uma identidade diferente para jogar essas competições internacionais desde a Libertadores passada. A própria Sul-Americana, esse ano foi positiva, apesar de termos saído nas oitavas. O Brasileiro vai depender de como fizermos o primeiro semestre, de como vamos orientar a formatação do nosso elenco, das carências a fortalecer. Claro que queremos uma equipe que brigue no mais alto possível. Hoje é um tanto quanto complicado brigar em igualdade de condições com equipes com investimento altíssimo como Palmeiras, Flamengo, Internacional, Atlético-MG, São Paulo e outros que têm fluxo maior. Mas com criatividade, trabalho organizado, fechado, podemos fazer uma competição digna, uma vaga na pré-Libertadores, na Libertadores. A visão tem que ser otimista para a gente. Quero lembrar que vamos jogar com o Atlético-MG e pode até ir contra o que eu estou falando, mas tiramos ponto de todas as equipes da competição. Não tivemos duas derrotas para ninguém. Pode acontecer com o Atlético, que nos venceu aqui, mas pelo menos um empate nós tivemos contra todos. Isso mostra que o Botafogo tem viés de time grande, que não vai perder nunca. Se a gente tiver trabalho sério, organização, a estrutura funcionar, salários em dia, mesmo que seja um plantel mais enxuto, mais redondinho, com nossas limitações, podemos tirar muita coisa.

Isso significa que você fica até dezembro?
Tivemos uma conversa esses dias passados, mas foi estritamente técnica e de formatação de elenco. Eu, como funcionário do clube até abril pelo menos, tenho essa responsabilidade de estar ali tentando montar o elenco. A decisão é, lógico, passa muito por mim, mas tem que ser do clube porque é quem vai estabelecer contrato de dois, três anos ou de empréstimo. Então as partes do clube fizeram essa reunião – eu responsável pela área do futebol -, e entendemos quais seriam os jogadores que deveriam continuar e quais os jogadores que poderiam seguir suas carreiras em outros clubes. Essa foi a reunião, não tocamos nada de prorrogação de contrato até porque é algo que as pessoas que cuidam da minha carreira vão falar com o Botafogo e, se for do desejo do clube, apresentar um aditivo, uma proposta para renovação e nós vamos analisar.

Mas… analisar quando?
Primeiro eu quero terminar o Brasileiro, deixei isso bem claro para o clube. Depois vou dar continuidade no curso da CBF e nesse meio tempo (em dezembro) a gente deve conversar. E é uma coisa que nós vamos conversar com calma porque eu acho que não é a prioridade agora. A prioridade é acertar com os atletas que estão com pendências. Certamente, a vontade existe de continuar. O Botafogo é um clube que me abriu as portas para o trabalho. É questão de sentar e conversar.

Quais jogadores você quer que permaneçam?
É difícil falar antes da última partida. Acho que não é legal. Temos uma partida difícil, queremos esse oitavo lugar, temos responsabilidade com terceiros porque a partida pode definir o sexto lugar na pré-Libertadores, já vivi isso a favor e contra. Tem profissionais lá que vão dar o melhor. Vamos tentar o nosso também.

Existe um perfil dos reforços que o Botafogo precisa?
Nossa equipe é eminentemente jovem e queremos dar continuidade a isso. Ter uma equipe com saúde porque a maneira como entendo e gostaria de ver o Botafogo jogando é intensa, participativa e, para isso, precisamos de atletas com saúde. Logicamente, a condição técnica que se encaixe no nosso jogo sempre vem à frente. Mas, efetivamente, jogadores inteligentes. Para mim, são as três características do jogador moderno: que tenha técnica, seja inteligente e que tenha saúde. Saúde num contexto geral, que não tenha passado por lesões graves, que tenha condições de aguentar uma temporada tão difícil e estreito novamente pela Copa América. Porque senão o clube acaba tendo relação custo-benefício muito aquém do esperado. Lógico que contusões acontecem, mas temos que tentar minimizá-las tendo uma equipe com muita saúde, vibração. Esse é o perfil dos jogadores que queremos.

Mas os times que têm vencido campeonatos recentes contam com jogadores experientes. Isso não vai na contra-mão?
Não é que a equipe vai ser toda jovem. Temos João Paulo, Rodrigo Lindoso, Kieza, Gatito, Carli e outros nomes que vão estar fazendo parte sem dúvida. Mas jogadores das equipes que venceram são muito caros para o orçamento do Botafogo. É lógico que a gente não abriria mão de um jogador desse nível pela idade. Mas, de uma forma geral, a maneira como o Botafogo precisa levar o ano, pela contundência no jogo, uma forma agressiva de jogar, a expectativa que tenho é de que os reforços sejam de bom nível técnico, mas aliando volúpia de jogo.

Já indicou nomes? Para quais posições?
Certamente sim. Estamos focando no ataque, já que tem a indefinição da permanência do Erik, que, certamente, foi uma belíssima tacada de aproveitar um jogador que não vinha sendo utilizado. Juntou com o desejo extremo extremo dele de jogar e é importante sentir isso do atleta. A permanência ainda é plausível, mas difícil porque envolve outros clubes e a questão financeira que tem uma limitação. Se não pudermos contar com ele, precisamos atacar mais ainda nestas posições. A gente precisa ainda de um meia, de um homem de ligação e, com a aposentadoria do Jefferson, vamos buscar mais um para a posição. Tem Copa América e Gatito deve ser convocado.

Mas você pensa ser necessário contratar um ‘9’ ou se concentra nos extremos?
O Aguirre tem contrato até o meio do ano, o Brenner vai depender da operação com o Internacional e o Kieza fica até o fim do ano que vem. A princípio, são nossos atletas. Está subindo um menino que me chama muito a atenção: o Igor Cássio. Precisamos trabalhá-lo, tem um potencial técnico muito bom, precisamos trabalhar o lado físico. Temos as peças. Nos preocupamos mais com os lados de campo. O Luiz (Fernando) tem uma característica de meio interessante também, o Pimpão, o Erik e Ezequiel são jogadores mais de lado de campo. Talvez mais um ou dois jogadores que possam atacar e cair mais pelo meio, e um mais de velocidade sejam importantes, por entendermos que são atletas muito cobrados fisicamente. Temos que ter boas opções.

Então você está 100% no Botafogo?
Estou 100%. Até abril, estou no Botafogo.

Fonte: Terra