Ex-Botafogo, Rafael Marques conta com detalhes como foi enfrentar Romário em possível partida do gol mil; detalhe: zagueiro não jogou

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Por FogãoNET

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Rafael Marques, ex-zagueiro do Botafogo
YouTube/Charla Podcast

Ex-zagueiro do Botafogo, com passagens também por Grêmio e Atlético-MG, Rafael Marques deu entrevista ao canal “Charla Podcast”, contou histórias de sua carreira e cometeu uma gafe ao ser traído pela memória. Ele detalhou como foi jogar contra Romário na semifinal da Taça Rio de 2007, em que o centroavante do Vasco poderia marcar o milésimo gol da carreira.

Rafael Marques falou sobre a expectativa antes da partida, sobre as entrevistas e a sensação no jogo. O detalhe é que ele não jogou a partida, já que a zaga alvinegra era composta por Juninho e Alex. No mesmo ano, dez dias antes, o Botafogo também venceu o Vasco por 2 a 0 em outro clássico que Romário tentava o milésimo gol, mas novamente Rafael Marques não foi a campo. Jogaram Juninho e Alex, além de Vagner entrar no fim.

Escalação do Botafogo no 4 x 4 com o Vasco em 2007 (Foto: Reprodução/TV Globo)

Em 2007, Rafael Marques teve poucas oportunidades no Botafogo e fez apenas dois jogos. Ele perdeu espaço, foi afastado pelo técnico Cuca (com quem depois trabalhou no Atlético-MG) e acabou tendo que sair do Glorioso na Justiça.

Leia o relato de Rafael Marques:

– Quando cheguei no profissional, estava me calejando. Chegar com 18 para 19 anos, o Botafogo não tinha tido uma grande revelação na época, ou melhor nenhuma. Fui muito cobrado, zagueiro, 19 anos, chegar nos profissionais, tendo Sandro, Gilmar, João Carlos, Scheidt, Emerson e o treinador optar por você, chegar no Maracanã e encarar o Romário é pesado. Mas consegui suportar tudo isso, fazer temporada boa no Botafogo. Dali a carreira foi desenrolando, até porque eu estava realizando um sonho de jogar no Maracanã.

– Minha geração, costumo falar para meus amigos que jogaram ou jogam bola, com todo respeito, mas enfrentávamos Romário, Edmundo, Sávio. Você vai enfrentar Romário e Edmundo, como que dorme? Era muito difícil. A responsabilidade era muito grande, qualquer erro era fatal. Lembro de um Botafogo e Vasco, 7 a 1, Romário marcou quatro, o zagueiro era um amigo meu, acabou a carreira dele ali. Eu tinha isso comigo, não posso aparecer negativamente, tenho que me cuidar porque vou enfrentar o Romário e vão ter 60 mil, 70 mil pessoas.

Me lembro, guardo comigo foto do jogo, que o Romário estava para marcar o milésimo gol. Um jogo antes, não lembro se foi contra o Bangu, não conseguiu marcar. Aí no fim de semana era Botafogo e Vasco no Maracanã, foi 4 a 4, ele não fez o gol. Joguei esse jogo. Foi a semana que mais dei entrevistas na minha carreira toda. O assessor do Botafogo, Carlo na época, falava “bota o Scheidt”, a imprensa queria o Rafael, porque o Romário jogava do meu lado, “Scheidt vai falar um dia, Zé Roberto, Guilherme, mas Rafael precisava falar segunda, quarta e sexta” (Nota da Redação FN: Scheidt e Guilherme não estavam mais no Botafogo em 2007). O assessor me orientava, para falar isso, ter cuidado. Fui para a coletiva, diversas perguntas de como parar o Romário. Vou falar o quê? “Vou entrar e parar o Baixinho”, ele mete o milésimo, faço o quê? “Tenho que fazer o que sempre faço, o que treinador me pede, sabemos que vai acontecer o milésimo um dia, não tem como impedir, espero fazer meu melhor e ajudar o Botafogo”.

Não queria ser o zagueiro do milésimo, sou sincero. Dependendo de como sai o gol, fica aquela imagem para sempre, imagina se faz um gol de cabeça em cima de mim? Foi de pênalti (contra o Sport), eu não estava, estava em casa vendo o jogo. Até porque na minha geração não tinha quem não era fã do Romário. Foram 90 minutos bem pesados. Normalmente com 10, 15 minutos baixava a tensão e eu ia de boa, jogava. Naquele jogo não tinha como, cada ataque do Vasco era… Jogar no Maracanã na minha idade, no Botafogo, que as oportunidades eram menores, o Romário marcar o milésimo gol?

– Marquei o Romário diversas vezes, quando ele estava no Vasco e no Fluminense. Ele sempre foi tranquilo. Tenho camisas dele, fotos com ele. Era um ídolo da minha geração, um ícone do esporte. Jogar contra ele no Maracanã era a realização de um sonho. Sempre me dei bem com ele, às vezes encontro com ele no shopping, nos encontramos em uma pelada no fim do ano, ele falou “você de novo? Vai jogar no ataque, não fica na defesa não”. É gostoso ter essas histórias. Mas ainda bem que o milésimo não foi contra mim. Ganhamos nos pênaltis. Para mim foi um alívio quando terminaram os 90 minutos, não tinha prorrogação no Carioca. Quando acabou o jogo, joguei as costas para e falei “acabou”. “Vai para outro. Vou torcer para acontecer o mais rápido possível.”

Leia outros pontos da conversa:

Início na carreira

– Sou do Rio, nascido em campinho e criado em Realengo. Eu participava de um projeto chamado Cria e Recria, do Oswaldo de Oliveira, Serginho e Waldemar, que eram irmãos. Em um torneio, o técnico do Grajaú no salão me chamou, fiz um teste, fique dois anos jogando, até que em um jogo com o Botafogo em General Severiano o treinador do mirim do Botafogo, o falecido Botinha, me viu jogar de pivô. Fui fazer um teste no campo, morava em Realengo, era distante ir para Grajaú, para Marechal Hermes era pertinho. Me aventurei, fiz o teste, fui aprovado e permaneci até chegar nos profissionais, em 2002, com 20 anos. Depois tive uma passagem pelo Brasiliense, o Botafogo estava com problemas financeiros grandes, lá tinha Vampeta e Marcelinho Carioca, voltei, disputei Série B e comecei a dar seguimento de verdade na minha carreira.

Marechal Hermes

– Era uma estrutura bem precária. E o mais engraçado é que gosto de colocar uma discussão bem bacana de que é perto de Madureira, Bangu, Realengo, Campinho, vários bairros com jovens que querem virar jogadores e mudar a história da família. Flamengo era na Gávea, Fluminense em Xerém, Vasco em São Januário, as pessoas da região procuravam Marechal Hermes. O Botafogo não sabia utilizar isso. Mais velho percebi o quanto de crianças que tinham, filas absurdas para testes, não lembro se tinha custo porque não participei. Mas era surreal. Olhar o Botafogo como um dos clubes que pouco revelavam é surreal, porque a quantidade de crianças era surreal.

Base na época

– Depois de federado, minha geração era muito boa, fomos tricampeões cariocas em todas as categorias disputando contra grandes times. Nos outros vários jogadores viravam, na nossa fui o único da geração que segui carreira. Não tinha como não aproveitar quatro ou cinco por ano, o Botafogo não sabia aproveitar, desperdiçou muito.

História no Botafogo

– Em 2005 foi o ano que me afirmei, em 2006 fomos campeões carioca já com Carlos Roberto. Quem me deu oportunidade de jogar foi o Mauro Galvão, foi o cara que me viu treinar e falou que eu ia jogar, que queria um zagueiro jovem e com disposição. Começou a falar da história dele, de quando estreou, a me dar conselhos. Aceitei bem, porque imagina com tudo que passei ter oportunidade de voltar e ouvir o Mauro Galvão? Voltei do Brasiliense como ninguém para ser uma aposta, joguei, tive mais de 150 jogos no Botafogo, diversos companheiros de zaga, fui muito feliz naqueles anos todos de Botafogo. Fiquei até 2007.

Sentimento

– Tenho muita gratidão ao Botafogo. Não é o clube, são as pessoas que gerem, têm escolhas (o que acabou culminando com saída na Justiça). O Botafogo me projetou, fez minha formação, não tem por que ter mágoa. Quando tive uma situação foi com o presidente (Bebeto de Freitas), que Deus o tenha, não está vivo. O Botafogo não tem culpa de nada, de não revelar jogadores naquela época. Hoje é uma SAF. Minha gratidão é muita ao Botafogo e primeiramente a Deus, pelo dom que me deu. Sou muito grato ao Botafogo até hoje.

Fonte: Redação FogãoNET e Charla Podcast

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