Religioso, Júnior Santos tem certeza que Deus mudou sua vida. Em entrevista ao “Podcast Recomeçar”, o atacante do Botafogo citou histórias incríveis de superação e da reviravolta que teve seu caminho pessoal e profissional.
Júnior Santos foi pedreiro, viveu dificuldades e superou diversos problemas, inclusive um “caminho quase sem volta”. A fé foi o que o ajudou.
Leia abaixo as palavras do jogador.
Recomeços
– Eu costumo dizer que na minha vida, em toda a trajetória da minha vida, eu tive que recomeçar sempre, recomeçar talvez pelas atitudes que a gente acaba tomando no decorrer da caminhada, recomeçar pelos erros também que a gente comete e continua cometendo, então a gente tem que parar e dar aquele reset. Mas eu acho que o que mudou mesmo na minha vida, no início da minha trajetória, foi quando eu percebi que o rumo que eu estava trilhando ali era um caminho que não teria mais volta para mim se eu continuasse. Foi quando eu decidi recomeçar com Cristo, com Deus, foi quando eu encontrei Jesus e decidi recomeçar a minha história. Foi quando eu fui pra Camaçari para trabalhar. Eu costumo dizer sempre que minha vida foi muito difícil e às vezes as pessoas atrelam a dificuldade ao fato de eu ter trabalhado de ajudante de pedreiro, mas na verdade eu acho que aquela fase da minha vida foi a melhor, tenho certeza que foi a melhor. Foi quando eu tive uma outra mentalidade, eu recomecei e tive uma outra mentalidade com Deus, comecei minha vida ali como um homem de verdade e aí foi quando Deus foi me dando sabedoria e me trouxe até aqui.
Início no futebol
– Eu tenho certeza que foi milagre de Deus na minha vida ali. Uma trajetória que eu começo sem ter o sonho de ser jogador de futebol, na verdade eu desisti desse sonho ali por uns 15 anos mais ou menos. Eu já não tinha mais esse sonho, principalmente quando eu lembro que eu estava assistindo na TV e eu vi o Neymar estrear com 16 anos no profissional. Ali eu falei, “cara, para mim não tem mais jeito, eu vou desistir do futebol, essa coisa de futebol no interior da Bahia não dá mais certo”. E com 23 anos, na verdade com 20 anos, eu comecei a trabalhar, comprei uma chuteira, voltei a jogar bola, fiquei uns cinco anos sem praticar esporte, sem jogar futebol, e voltei a jogar nos fins de semana e trabalhava também como ajudante de pedreiro. Você tinha que fazer muita força. Comecei a jogar nos fins de semana e comecei a ficar conhecido pela força, pela velocidade, comecei a marcar gols nos campeonatos amadores e comecei a ganhar uma fama ali na Bahia, até chegar o momento de ter a oportunidade de fazer um teste em clube de futebol.
Importância do pai e de Deus
– Cara, meu pai, quando eu fui para o Osvaldo Cruz, eu não tinha uma ideia clara de como era o profissional. E, quando eu chego lá, eu percebo que eu ganhava muito mais jogando no amador do que no próprio profissional. E eu já tinha dois filhos, então estava passando um momento de muita dificuldade porque eu não conseguia mandar recursos, na verdade nem receber direito. A gente recebeu ajuda de custo. E eu falo para meu pai que eu iria voltar, e meu pai fala, “não, você está em São Paulo, eu tenho certeza que você vai se tornar um jogador de futebol. Então, se você voltar, você nem olha na minha cara”. E eu falei assim, “pô, meu pai, não é tão fácil como o senhor acha, é difícil eu chegar nos grandes clubes, eu estou jogando na quarta divisão”. Aí ele falou, “mas você nunca saiu daqui da Bahia, você está em São Paulo, você já está perto aí, então não é tão difícil assim como você acha”. Eu falei, “então tá bom, eu vou ficar aqui para o senhor ver”. E aí, quando chega o final do ano, meu empresário, Edivaldo Ferraz, acaba me vendo jogar e decide me levar para São Paulo para fazer um teste no Ituano. Eu volto para a Bahia, fico um tempo lá, quando eu volto para São Paulo para fazer o teste, meu pai me leva até o aeroporto, e em seguida ele acaba sofrendo um AVC e ele perde a memória. E aí eu acabei passando no teste. Deus agiu rápido assim minha vida. Nos primeiros três meses, já no meu primeiro Campeonato Paulista da Série A, nos meus três primeiros jogos, como titular eu faço três gols, e em três meses eu estava jogando a Série B (do Campeonato Brasileiro). Eu acredito muito nisso, acredito que, com certeza, foi a influência de Deus na minha vida, sabe? Foi uma promessa que Ele fez, e eu acredito muito que não foi só porque eu tinha um talento, entendeu? Eu acho que foi mais o propósito de Deus em minha vida do que propriamente o meu talento.
De pouco ao muito
– Quando eu comecei o trabalho como ajudante, eu lembro que uma vez eu fiz alguns pedidos a Deus. Quando eu inicio a minha trajetória como cristão, eu tive uma conversa com Deus, pedi que Ele nunca me deixasse passar fome, que Deus me desse uma família e que eu pudesse andar de cabeça erguida como cidadão. Eu pedi essas três coisas a Deus, e isso consegui. Eu andava feliz com Deus por causa disso. Eu nunca pedi dinheiro, nunca pedi fama, mas eu lembro de uma situação que Deus fechou as portas do trabalho, era um trabalho que não era carteira assinada, e aí eu lembro que chegou uma situação dentro de casa que só tinha um pedaço de carne para fazer uma última refeição e um pouco de farinha, entendeu? Então, fazer uma farofa ali, com um pedaço de carne que tinha no congelador seria a minha última refeição. E aí eu saí pela manhã pedindo a Deus que me desse um trabalho, então eu saía nas casas perguntando se as pessoas tinham alguma coisa, algum serviço para fazer, nas obras, aquelas obras na favela mesmo, eu estava morando em Camaçari. Havia uma moça que tinha um terreno, eu pedi para limpar o terreno dela, ela falou que eu poderia limpar e que ela só poderia me dar R$ 10. Eu falei, “glória a Deus” e tal, comecei a agradecer a Deus, comecei a limpar aquele terreno ali, quando foi umas 15h, acabei. E ela falou assim, “passa aqui 17h que eu vou te dar os R$ 10′. Fui para casa, coloquei um hino dentro de casa, comecei a agradecer a Deus, feliz por ter conseguido os R$ 10, sabendo que eu ia ter o meu alimento ali naquele dia. Então falei “com certeza Deus me abençoou aqui, está provendo”. E aí, quando chegou perto das 17h, caiu uma chuva que não parava. E o mercado fecharia às 19h. Nada para comer, e aí aquela chuva, eu falei, “cara, eu vou ter que ir debaixo de chuva, porque o mercado vai fechar, aí eu vou ficar com fome”. Quando eu saí de casa, R$ 10 na rua. Eu peguei aqueles R$ 10, eu glorificava tanto a Deus, e o mercado já era mais perto da minha casa. Saí no meio da rua assim, na chuva, agradecendo, cheguei no mercado, comprei o que eu tinha que comprar, separei R$ 1 do dízimo, entendeu. Comprei mortadela e um arroz, porque o arroz ia fazer aquele montante e a mortadela eu consegui fritar e comer mais dias. Aí eu agradecia a Deus, peguei aqueles R$ 10 depois também, comprei mais mortadela e mais arroz. Fiquei uns dias ali com só mortadela e arroz, e toda vez, antes de fazer a refeição, eu ajoelhava e agradecia a Deus.
– Coincidentemente, depois desse dia assim, a prosperidade de Deus em minha vida foi abundante, cara. E eu nunca pedi a Ele, nunca pedi dinheiro, nunca pedi por contrato, nunca pedi por nada. Deus foi me abençoando, aí eu comecei a jogar o amador até chegar ao profissional e passar essa dificuldade que eu te falei aí, aí passei essa dificuldade, depois dali as coisas encaminharam bem para o lado assim de bênção de Deus assim na minha vida financeira. Acredito que foi um grande teste ali, mas em hora nenhuma eu murmurei e nem deixei de ter fé de acreditar que Deus ia suprir o meu alimento ali naquela situação. Tem dias que eu choro ao abrir a geladeira, quando eu abro a geladeira e eu vejo assim tudo de bom assim que hoje eu posso escolher e pegar. Eu por dentro já glorifico a Deus e assim, às vezes parece que é um sonho, às vezes parece que não é real. Deus fez isso tudo em minha vida mesmo, então assim, eu acho que eu sou religioso até demais, sabe, acho que tudo meu eu agradeço a Deus, é Deus o tempo todo, porque eu sei de onde Deus me tirou, eu sei o que eu já passei, sei e vi o sobrenatural, então só quem vê o sobrenatural entende o que é ser grato a Deus, né, então eu sou muito grato a Deus.
Experiências
– Uma das experiências espirituais que eu tive forte foi uma que, quando eu não acreditava muito nesse lado espiritual, eu estava vivendo uma vida assim, muito atribulada, eu sentia muito ódio no coração. Era uma pessoa muito revoltada. Hoje as pessoas que já me conheceram e me veem hoje, falam assim, “pô, cara, é Deus na sua vida, é outra pessoa”. Sou um cara alegre. Eu acho que a felicidade de ter conhecido Deus é a minha maior alegria. Deus tem me transformado, então hoje, se você me vir, dificilmente você vai me ver triste, mas eu já fui um cara muito triste. Já fui um cara muito revoltado, sabe, tinha um ódio no coração, parece que o dia todo eu estava com ódio. E eu lembro que em uma dessas situações, eu até tentei fazer trabalho, frequentava centros em busca de proteções, de ter outras proteções, e uma certa feita, eu tinha comprado um chip, um cartão de memória na época, e tinham umas músicas de reggae, que eu gostava de escutar e tal. Eu estava enrolando um cigarro, e ali, quando eu estava no quarto, fui colocar a música, e aí tinha uma música de Bruna Karla, aquela música que fala assim, “Filho, estou aqui, estende a tua mão, eu vim cuidar de ti, sarar teu coração, te faço reviver, em meio a provação, sinta agora meu poder”. Eu estava com muito ódio no coração, muita mágoa, sabe, muita coisa, muitos pensamentos negativos, e aí quando eu coloquei essa música, sem querer, porque eu tinha comprado um cartão de memória para ouvir os reggaes, os raps que eu gostava, e sem querer, tinha dentro desse mix de música, tinha a da Bruna Karla. Foi direto nessa música, cara, Deus começou a falar comigo, assim, nessa parte parece que a pessoa está falando assim para Deus, “Deus, vem, sara meu coração”, apareceu uma luz dentro do quarto, cara, que assim, é o sobrenatural, que tem pessoas que não acreditam, mas eu vivi. E aí eu fiquei, mano, eu me sentia tão sujo que eu escondi o cigarro atrás de mim e comecei a chorar. E Deus começou a falar comigo ali, naquele momento, e foi da onde eu comecei a acreditar em experiências espirituais, porque eu não tinha esse contato com Deus e também não acreditava, não acreditava em profecias, não acreditava. Eu ficava me perguntando “pô, como é que Deus vai falar com a pessoa, a pessoa está mentindo, como é que Deus vai falar?” Eu não acreditava, e depois disso eu passei a acreditar nessas experiências, depois disso que eu passei. Você quer falar para todo mundo, acredita que é real.
Profecia
– Justamente quando eu passei essa dificuldade, e Deus proveu, aí eu estava sem dinheiro, a bicicleta acabou furando o pneu, e não tinha como eu fazer a força. E aí Deus abriu uma porta de emprego na casa de uma mulher, e essa mulher era evangélica. Não tinha como eu ir de bicicleta, porque o pneu estava furado, cara, eu tinha que andar, nossa, nem sei quantos quilômetros eram, mas muita coisa. Subia a ladeira e tal, ia andando para o trabalho, tinha que chegar cedo, porque às 7h já começava o trampo. Fui trabalhar na casa dessa mulher, aí estou cavando uma sapata, cansado já, cavando e tal, aí ela me perguntou, “filho, você já está cavando aí há um tempão, deve estar fraco, você quer um lanche?” Rosana o nome dela, lá de Camaçari. Ela veio até no meu casamento. Quando ela voltou com o lanche, aí ela já começou a falar em línguas, “estende a mão que Deus está mandando eu te trazer uma palavra”. Estendi a mão, baixei a cabeça. Aí ela, “ó, Deus está te dando chave de casa, chave de apartamento, chave disso, chave daquilo, você vai rodar o mundo todo, e vai levar a palavra e tal, vai ser conhecido no Brasil, não sei o quê, Deus está carimbando teu passaporte, pode tirar o passaporte”. E eu na mente, assim, “eu vou viajar para onde? Que chave de carro é essa? Eu não tenho nem o dinheiro para arrumar a roda da minha bicicleta”. Recebi aquilo e fiquei me perguntando, falei, “ah, isso aí não deve ser de Deus não”. Depois de muito tempo, quando Deus realizou, aí eu falei, “caraca, mano”. No dia do meu casamento, eu liguei para ela e falei, “ó, quero você no meu casamento e tal, Deus te usou”. Aí ela falou, “meu filho, como é que eu vou?” “Vou alugar uma van. E vou mandar roupa, vou comprar tudo aí”.
– É porque a gente está condicionado a enxergar o momento, né? A ver aquilo que só o que os nossos olhos conseguem ver. E Deus já está lá na frente, né? Então, Ele já sabe como vai ser o nosso amanhã, Ele sabe o que a gente vai passar, como temos que passar. Então, é por isso que eu digo assim, o exemplo, independentemente se eu vou vencer ou perder, seja dentro da minha vida profissional, dentro do meu casamento ou dentro de qualquer coisa que eu venho lá fazer, eu sei que Deus está no comando de todas as coisas, não só na vitória, mas na derrota também, nas perdas, no aprendizado. Então, algumas coisas às vezes fogem do nosso controle, muitas das vezes porque nós mesmo tomamos a decisão errada ou às vezes é algo que temos que aprender. Então, eu estou sempre tentando entender o que é que eu faço de ruim ou o que é que eu estou fazendo errado ou qual é o aprendizado que Deus está me fazendo aprender.
Gol mais marcante
– Acho que o gol da final da Libertadores, por ser uma competição, onde é o sonho de todo jogador, aqui no Brasil, sul-americano, é o nosso maior campeonato. É o maior torneio. Então, acho que foi o gol, assim, que marcou. Era um título muito importante e foi mais importante, ainda, porque, em 2023, a gente acaba perdendo o título brasileiro, então, a gente estava muito magoado, assim, né? Então, assim, depois a gente consegue dois títulos. Foi forte.
Todos iguais
– Peço muito a Deus, né? Que ele venha me proteger, que ele venha me livrar de lesões. Não só eu, como o adversário também. Peço para o adversário também, para que a gente possa entrar, não se lesionar, entendeu? Assim, a gente sabe vive num país em que a desigualdade é muito grande, né? A desigualdade de quem mora, assim, numa comunidade, ou da pessoa que tem ali uma classe média que também veio de uma dificuldade. A gente sabe que vive num país que poderia ser muito mais rico e muito mais próspero do que é. Então, um país marcado por corrupções, por roubalheiras, por pessoas que estão preocupadas mais em si do que propriamente na comunidade, na evolução do ser humano, das pessoas, né? O homem de bem. E a gente sabe também, que eu falo sempre, que o jogador de futebol ganha um valor exorbitante, comparado à pessoa comum. Isso é um fato. Só que, na maioria das vezes, as pessoas comparam o ser humano jogador com o ser humano que ganha bem. “Ah, pô, se eu ganhasse bem, eu não ficaria triste”. Somos seres humanos, né? Hoje eu ganho bem, com certeza, mas eu também já passei por dificuldade. A maioria dos jogadores são crianças que vieram da pobreza e hoje realizaram seus sonhos. Então, assim, tem o ser humano por trás disso, tem a conquista, tem esse peso. O sentimento é o mesmo. O sentimento de você se sentir triste, de você ter seus íntimos. Então, você tem que pedir muito a Deus isso, essa proteção, para que você tenha a cabeça boa e saber que tem muitas pessoas que são más também, são ruins, né, que desejam mal.
Conselhos a jovens
– É difícil dar uma resposta direta, porque eu entendo que a resposta direta não alcança muito, porque talvez um jovem vai ouvir uma palavra e vai dizer assim, “pô, mas o que esse cara está falando? Ele não passou, ele não passa e ele não sabe o que eu passo”. Assim, eu fui um jovem que eu me perdi muito, né? E um dia eu contarei meu testemunho, que eu sei que vai impactar muita gente quando eu contar. Ainda não é o momento, mas Deus já me falou que está me preparando para esse momento. E o que é que acontece? O que é que eu entendo? O inimigo trabalha na vida das pessoas, ele vai lançando palavras. E muitas das vezes pensamentos que a gente tem, que os jovens têm, muitas das vezes são sopros e coisas que o maligno vai lançando. Eu perdi minha mãe, para você ter ideia, com oito anos. Meu pai sempre foi um bom pai em relação a estar comigo, a não deixar as coisas faltarem, a ser guerreiro, a trabalhar. Só que eu acredito que certos exemplos que eu tive ali na infância, sem ter uma mãe, eu acho que me prejudicaram bastante, porque depois que minha mãe morre, eu passo a ser uma criança com muita revolta. Esse ódio também vinha dessa revolta, de chegar no Dia das Mães na escola e não ter minha mãe, né? Então, eu percebia ali e muitas das vezes eu me isolava. Eu era uma criança alegre em determinados momentos. Antes da minha mãe falecer, eu era uma criança muito alegre. Depois que minha mãe faleceu, eu passei por uma depressão interna, mesmo sendo infantil. Eu tinha muitos pensamentos, sabe? Pensamentos, “pô, você não tem mãe, você não vai ser feliz, você nasceu pra sofrer”, entendeu? Então, eu tinha esses pensamentos. Até uma certa idade, eu tinha esses pensamentos de sofrimento.
– E o que é que acontece? Em determinado momento da minha vida, eu acompanhava meu pai nos bares, meu pai gostava de beber, de jogar sinuca. Eu ia jogando aquilo ali, eu passei a gostar de estar nos bares. Eu comecei a beber novo. Escondido do meu pai, porque ele não deixava. Ele falava pra mim que no dia que eu me viesse bebendo, no dia que eu fizesse uma tatuagem, que ele ia arrancar. Só que por trás dele eu comecei a sair com pessoas, comecei a beber, comecei a experimentar outras coisas, entendeu? E aos poucos, essas vozes que eu ouvia, foram me levando para um caminho que chegou a quase não ter volta para mim, sabe? Se não fosse o Senhor na minha vida, esse caminho não ia ter volta. Então, eu passei por muitas coisas. A maioria dos meus amigos morreu, entendeu? Então, às vezes a gente olha para a sociedade, às vezes a gente olha para as comunidades. Hoje eu moro na Barra. Eu sei que, para nós, às vezes, é difícil também entender. Tem pessoas que saem, viram policial, estudam e se tornam um homem de bem. Mas a grande maioria não é assim, entendeu? Tipo assim, tem uma grande parte que se perde nas drogas, no vício, no crime. E a gente vive numa guerra política que a gente está sempre debatendo com homens “ah, mas um tem que fazer isso, mas o outro não faz aquilo”. Mas entrando e saindo, e a única solução que às vezes a gente encontra na favela é só bala, né, é só polícia. Tem que ter a segurança. Eu estou falando sobre isso. Mas e os projetos dentro das comunidades? Não tem. Você está entendendo? O esporte que salva, a opção de um favelado estudar, poder ter uma opção de emprego bacana. Para que essa taxa de criminal e de pessoas que se jogam na droga diminua. Para que a pessoa sonhe com algo melhor, tenha uma outra saída, entendeu? E muitas das vezes a saída que a galera acha de ter uma roupa bacana, um tênis da hora, é o crime. É entrar na vida de uma forma errada. Pelo sopro do diabo, para que depois venha a ceifar essa vida. Porque é um caminho, mano, que vai te levar diretamente para o caixão, diretamente para a morte. Ou você vai assaltar alguém e vai morrer trocando tiro com a polícia, ou vai morrer numa trocação de tiro em uma operação, ou vai morrer trocando tiro com outro bandido, que era uma criança que cresceu revoltada por alguma coisa, ou pela perda de um pai, ou pela perda de uma mãe, ou pelo bullying que sofreu na escola. Então, o diabo tem várias maneiras de manipular a mente do ser humano. Então, tem pessoas que, graças a Deus, Deus coloca a mão, a pessoa tem uma visão bacana. “Pô, vou ali, vou estudar, vou fazer um curso aqui”, um vira policial, outro vai e vira empresário, ou consegue algo, mas a taxa é bem pouca.
– Então, o conselho que eu dou para a galera é, cara, existem essas vozes, mas essa voz vai te levar para um caminho que não vai ter saída pra você. Você está entendendo? Tu vai para um caminho que, mano, só romantiza o crime quem nunca viveu. Eu fico alegre quando eu vejo alguém que saiu do crime, que saiu da favela e conseguiu vencer. E vencer para mim não é ter dinheiro e ser um milionário. Vencer para mim é você ter uma consciência legal, ter um trabalho digno, ter uma família, ser um pai digno, entendeu? Tentar ser alguém melhor, tentar lutar contra você mesmo para ser um cara melhor. Eu não vou aqui chegar para você e dizer que eu sou um santo. Eu não sou um santo. Eu sou um cara que eu tenho muitas marcas do meu passado que eu tento melhorar a cada dia, entendeu? E no meio dessa trajetória até aqui, mano, eu já caí várias vezes, eu já errei, sou um cara que eu erro bastante, mas sou um cara que eu boto a minha cabeça no travesseiro e falo, “pô, mano, eu preciso melhorar, eu preciso ser o exemplo para os meus filhos e para alguém, para um moleque”. Eu gosto de chegar no clube, conversar com os moleques e falar, “mano, não vai por esse caminho, cara, senão você vai se atrasar”. E hoje a gente não tem ajuda do governo nas comunidades para olhar o cara e dizer que ele pode mudar de vida. O futuro, esses moleques, eles podem ter uma outra opção, entendeu? Mas a gente está preocupado mais em política, em atacar o outro. Ninguém faz nada. E o único caminho é Cristo, mano.