O Botafogo está em vias de, oficialmente, ter sua SAF controlada pela GDA Luma, credora de John Textor. Em entrevista ao canal “Botafogo é Tradição”, do jornalista Milton Rocha, o ex-presidente Carlos Augusto Montenegro, figura influente no clube associativo, projetou como será o futuro do Glorioso sob nova direção e revelou que Gabriel de Alba chega na terça-feira (18/8) ao Alvinegro, com chance do acordo ser oficializado durante a semana.
– O Gabriel está vindo ao Brasil pela primeira vez depois da compra do Botafogo, chega aqui na terça-feira. Vai conhecer o Botafogo, o CT, o Nilton Santos, vai ver essas burocracias, assinar talvez o acordo de acionistas e, ele assinando aqui, a cláusula é disparada. Quer dizer, o Textor não tem mais ações, não tem mais poder, não tem mais lugar no board, não tem mais título, não tem mais nada. Ele perdeu as ações, perdeu dentro da Eagle. E quem deu as ações de garantia foi ele mesmo. Ele não conseguiu pagar ao Banco Ares e perdeu as ações. Não dá para ele voltar – explicou Montenegro, continuando:
– Gabriel é uma pessoa, pelo que eu senti, totalmente diferente do Textor. A torcida não está acostumada a isso. O Gabriel não gosta de aparecer, tem uma equipe de trabalho muito boa que ele confia. Ele comanda tudo de Nova York. Ele é um mexicano, que está erradicado em Nova York, nos Estados Unidos, há muito tempo. O projeto dele é recuperar o Botafogo, a instituição Botafogo, acabar a recuperação judicial, fazer investimentos, crescer, para que sirva de modelo.
– O Gabriel tem uma empresa que é especializada em comprar empresas que estão com esse tipo de problema, numa situação semifalimentar. Ele, por exemplo, salvou e recuperou o Cirque du Soleil. Também estava numa situação bem difícil e ele recuperou. E ele quer recuperar o Botafogo para que seja o carro-chefe no projeto que ele quer entrar nos esportes, no futebol, que seja o projeto para ele entrar na América Latina, via Botafogo, que seja o carro-chefe. Vamos ter investimento. O projeto esportivo dele? Primeiro não é esportivo, primeiro é salvar, é dar oxigênio ao Botafogo. Por isso a recuperação judicial. Depois que você salva, você começa a fazer investimento, a voltar a disputar títulos, brigar, ganhar campeonato, etc. Porque não adianta você disputar nada se você não tiver oxigênio – completou.
‘Risco zero’ de John Textor voltar
Crítico da gestão financeira de John Textor, Montenegro afirmou que a chance do empresário norte-americano, que segue brigando na Justiça, voltar ao clube é “zero”.
– Existe zero risco [do John Textor voltar]. Ele está sempre ameaçando voltar, acha que ainda é um herói, que seria recebido de braços abertos pela torcida, que é muito querido. Ele não tem mais condição. Por quê? Porque ele fazia parte da Eagle. Ele perdeu as ações dele dentro da Eagle, que ele deu em garantia para a Ares, para pegar quase US$ 150 milhões, até para comprar o Lyon também. Não pagou. Quem infernizou a vida dele foi o Lyon. Ele não pagou, perdeu as ações que deu em garantia, e a Eagle também se desinteressou, porque o Botafogo não era o mercado principal da Eagle. O mercado principal da Eagle era a Inglaterra, com o Crystal Palace, e o Lyon. Por causa da moeda, da segurança jurídica… O Textor passou a ter uma paixão pelo Botafogo por causa das conquistas. Na hora que ele perdeu as ações, os sócios da Eagle falaram: “Bom, não tem mais interesse no Brasil.” E saíram. A Eagle deixou de aportar dinheiro, deixou de pagar as coisas.
– Então, o que aconteceu? Pelo contrato que a gente tinha, do Botafogo de Futebol e Regatas com a Eagle, que gerou a SAF, eles romperam o contrato, não cumpriram o contrato. Por não terem cumprido o contrato, eles perderam as ações. É uma cláusula que tinha, que se eles não cumprissem o contrato, não pagassem os salários, os impostos, as dívidas normais, eles perderiam. E eles perderam. Então, hoje a situação está: Botafogo de Futebol e Regatas 51% e eles, a Eagle, 49%. Sendo que esses 51% já passamos para a GDA. E agora, você vai exercer um segundo item do contrato. Não sou advogado, mas me explicaram por alto. Agora eles perdem tudo, a GDA pode comprar por US$ 1, pelo direito de preferência, os 49% restantes. E aí volta a participação de 10% do Botafogo de Futebol e Regatas e 90% da GDA. Tem prazo, talvez seja semana que vem – completou.
‘Agonia’ do torcedor e investimentos a longo prazo
Na entrevista, Montenegro disse entender a “agonia” do torcedor para que a situação se resolva logo e ressaltou que o clube viverá um período de controle forte de gastos com a recuperação judicial até novamente poder investir pesado no futebol.
– Eu também, como torcedor, fico agoniado, mas o processo está muito rápido. Isso pode ser uma coisa que demore três, quatro, cinco anos. Porque é detalhe e detalhe. O Botafogo de Futebol e Regatas é a parte pobre. A gente não tem dinheiro, e temos 10% da SAF. O Botafogo teve que negociar com o Lyon, está tendo que negociar com o pessoal da Bélgica, com a Cork Gully, que foi nomeada pela Ares para ser representante, a Ares que ficou com a maioria das ações. O Botafogo tem conversado e negociado com todos os sócios da Eagle, a Michele Kang, o russo, o JP Conte, etc… Imagina você com 40 negociações, sem grana, pisando em ovos, com advogado para tudo quanto é lado, ao mesmo tempo administrando aqui a arbitragem, a Justiça brasileira, e ao mesmo tempo negociando com um grupo que está entrando – falou o ex-dirigente.
– A própria recuperação judicial, não é que ela proíba, mas você tem dificuldade de fazer investimento num grande jogador porque você está comprando um novo jogador e está adiando o pagamento de vários credores que estão na fila da recuperação. Então, eles dificultam a autorização. Por isso é que você precisa primeiro engrenar uma série de pagamentos para depois pedir permissão para grandes investimentos. Não são investimentos de reposição de jogador, de lateral, de goleiro. É trazer jogadores no nível de um Luiz Henrique, de um Igor Jesus, etc. É mais difícil numa recuperação. Talvez [isso pode acontecer] em dois anos. Não precisa pagar tudo, precisa dar uma engrenada no sentido de que você está cumprindo os compromissos. O juiz acompanha isso. Então você mostra para o juiz: “Olha, nós podemos continuar pagando isso e contratar o fulano.” Você mostra dinheiro, caixa, e aí o juiz autoriza, porque os credores não vão ser penalizados. É uma situação complicada, não é fácil. No fundo, a torcida pergunta quando é que vamos voltar a ser como em 2024? Vai demorar um pouco – completou.