Montenegro recorda histórias, aposta em Botafogo forte com SAF em 2024 e revela ‘único arrependimento’

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Por FogãoNET

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Carlos Augusto Montenegro, ex-presidente do Botafogo
Reprodução/Storicast

Presidente do Botafogo em 1995 e figura marcante na política do clube nos últimos anos, Carlos Augusto Montenegro concedeu uma entrevista recente para o canal “Storicast” em que falou muito do Glorioso. Ele elogiou a SAF com John Textor e projetou o time forte em 2024.

– Acho ótimo. Não tinha plano B. Se não fosse a SAF, ia ficar disputando do décimo ao 20º lugar. Na Copa do Brasil ou Sul-Americana, iria até terceira ou quarta fase. Porque não tem condição com a dívida de R$ 1 bilhão de disputar contra Flamengo, Palmeiras, Atlético-MG, Athletico-PR, porque são clubes já arrumados, com dívida solucionada e fazendo investimentos pesados. Se não tivéssemos o Textor, brigaríamos para não ser rebaixados de novo. Independentemente dos erros e acertos dele. Tinha gente que vinha da Série B, contratações de nível menor, tinha que esperar as janelas, jogadores chegando de férias, não teve pré-temporada dessa turma toda. Demos sorte de pegar uma pessoa que está se apaixonando aos poucos pelo Botafogo, um empresário dono de fundo importante, está pagando dívidas, formando o time. Acho que ano que vem vamos estar muito mais arrumados, mas ainda não vamos disputar. Pode pegar uma Sul-Americana ou uma pré-Libertadores. Mas em 2024 vamos brigar por Campeonato Brasileiro, por Sul-Americana, por tudo. É bom para o futebol carioca. É legal entrar em competição com chance de ganhar. Entrar para lutar para não cair, um clube com as tradições e glórias do Botafogo, o clube que mais cedeu jogadores para a Seleção Brasileira em Copas do Mundo… Agora é o caminho certo, não tem plano B, a torcida tem que se acostumar. Eles também estão aprendendo muito, o Textor, o André Mazzuco, o Luís Castro, estão se acostumando com pessoas, cultura, comida, clima, moradia, com tudo. Com a geografia do Brasil. Você joga hoje em Fortaleza com 34 graus e na semana seguinte pega 3 graus em Caxias do Sul – disse Montenegro.

🎙️ Leia outras declarações do ex-presidente:

Ligação com o Botafogo

– O Botafogo era um amor de arquibancada. Virei sócio três anos antes de ser presidente. Nunca fui sócio, nunca fui de clube, nunca fui de frequentar. O Rio não tem esse conceito de clube como tem outras cidades, a praia substitui. Não tinha o hábito de clube. Me chamaram para tentar ajudar a recuperar a sede. Eu tenho um pouco de superstição, achava que não ganhava por causa da venda da sede, pensei “está na hora de fazer algo para tentar ajudar”. Muitas pessoas me ajudaram. Recuperamos a sede. Depois, foi outro problema, “vamos ter que restaurar e refazer o clube”. Conseguimos uma construtora, que até hoje sou grato, que fez um shopping embaixo e o clube em cima. Na negociação com a Vale conseguimos que a própria Vale restaurasse a sede. Ela ganhou um terreno ali no Mourisco Mar. Foi permuta desse espaço de 7 mil metros quadrados por toda a área da sede colonial e do clube, que eram 21 mil metros quadrados. A Vale, para aceitar a permuta, pediu para aumentar o gabarito do terreno de três para seis andares. Foi uma guerra, um ano na Câmara de Vereadores, explicando o projeto, pedindo o apoio, até que conseguimos. Trocamos a sede caindo aos pedaços pela parte do Mourisco Mar. A Vale construiu esse prédio e nós restauramos a sede e construímos o clube.

Presidência

– Eu entrei como presidente em 94. Essa luta durou de 91 a 93. Quando foi em 95, o ano do Campeonato Brasileiro, já estava em andamento a reforma, reinauguramos acho que em 94. Foi no fim do ano. Aí em 93 falaram “agora você que vai ser presidente”. “Meu Deus, eu já falei com a minha família”. Era presidente do Ibope, como seria do Botafogo? Conversei com minha família, deu força, combinei que seria uma vez só. Sou totalmente apaixonado pelo Botafogo futebol, nunca fui pelo basquete, remo, natação. Adorava o clube pelo futebol, as cores, o escudo que é o mais bonito do mundo. Acompanhei 67 e 68 como garoto, fui ao estádio. A maior decepção foi em 71, eram dois turnos, o time do Botafogo era tão bom que inventaram terceiro turno, o Botafogo ganhou também. Inventaram o quarto turno. O Botafogo estava tão bem que podia perder três jogos para ser campeão. Perdeu os três. O último jogo entrou contra o Fluminense precisando do empate, aos 47 do segundo tempo houve um gol que até hoje é polêmico, se houve falta ou não no goleiro do Ubirajara. Me recordo que chorei muito e quebrei um radinho de pilha que tinha. Nunca mais levei um rádio para estádios.

Maiores loucuras

– Eu fiz muitas loucuras. Depois que saí em 96, disse para todo mundo que não voltaria a ser presidente, mas ajudaria a qualquer presidente que me pedisse ajuda, porque verificava que seria inviável ser presidente de um clube com dívida tão grande. Tudo que tinha aplicado no Ibope para crescer, ficar robusto e pagar suas dívidas não conseguiria fazer no Botafogo. Fiz algumas loucuras antes e depois. Na ordem cronológica, em 95 eu fiz o diabo. O que senti foi o seguinte, não tínhamos um centavo. Começou com uma conversa do Antônio Rodrigues, diretor de futebol, que me ajudou muito, sabia que não tinha dinheiro, às vezes adiantava do bolso dele. Me apresentou um nome que era o Paulo Autuori, que eu nunca tinha ouvido falar. Veio recomendado pelo Gottardo, que jogou com ele em Portugal, e pelo Léo Rabello, que foi dirigente do Flamengo e era empresário. O Wágner já tinhamos, o Wilson Goiano veio como recomendação do Túlio, o Gottardo foi contratação importante, na esquerda era o André Silva. Léo Rabello me ofereceu Gonçalves e Donizete, que estavam jogando no México. Donizete foi um monstro, Gonçalves foi fundamental, Túlio já tínhamos desde 94. Foi minha primeira contratação. Estava infeliz na Suíça, pediu para vir de qualquer maneira. Era um jogador que eu não conhecia pessoalmente, mas via nos gols do “Fantástico”. Faltava o Leandro Ávila. Entra uma pessoa polêmica, que respeito, sempre foi muito correto comigo, o Eurico Miranda. Ele estava viajando com o time na Europa, eu liguei para o Calçada, que era o presidente e pedi a troca do Nelson e do Jefferson pelo Leandro Ávila. Eurico tinha colocado o Leandro de castigo, porque queria aumento. Calçada aceitou. Foi a melhor jogada da minha vida. Quando Eurico voltou, me chamou, falou “antes pensava que você era pato novo, mas está ficando muito esperto, nunca mais faça isso, fale comigo. Agora não tenho como negar o presidente”. O Leandro foi fundamental. O Beto foi trocado por pares de chuteira. A pré-temporada foi atrás do gol no Caio Martins, porque não tínhamos lugar para treinar, era caro. O negócio foi andando, Paulo Autuori conquistou todo mundo, jogadores se uniram, até chegar a isso. Demos sorte porque nosso elenco não era forte perto dos outros, mas ninguém se machucou. No fim, transformamos a casa do Túlio em um hospital, seus jogadores fazendo tratamento lá escondidos, com o Dr. Nilton Petrone. O Dr. Lídio Toledo não gostava. Acabou que todos conseguiram chegar lá. Foi um campeonato cheio de minúcias, decisões, acho que estávamos predestinados a ganhar.

Decepção

– Uma outra decepção grande que tive foi em 99. Com 120 mil pessoas no Maracanã não conseguimos ganhar do Juventude, foi uma coisa lamentável. No jogo lá fomos bem garfados. O Botafogo sempre é, as pessoas reconhecem, mas não dá para fazer nada. Cada vez você critica mais, as pessoas não gostam, é complicado.

Ser campeão como presidente

– Indescritível. Estava assistindo ao jogo com o Talarico (diretor da empresa dona da Seven Up) na arquibancada. Sempre gostei de futebol para lazer, para desabafar, para xingar, para tirar as situações da semana. Não gostava de ir para a tribuna de honra. Gosto de xingar o juiz, de assistir. Tinha paz porque na época não tinha telefone. Antes do jogo um monte de gente falava comigo, pedia autógrafo, eu tinha paciência. Mas na hora do jogo eles me respeitavam, nós comemorávamos juntos, mas o meu copo não esvaziava muito de cerveja. O pessoal ia comprar e enchia o meu copo também. Só tive problema em dois jogos, um que levei o Túlio e o Wágner. Foi um tumulto. Se não fosse a torcida fazer uma roda e segurar, ia dar confusão. Ele foi com quatro seguranças para a cadeira especial e eu fiquei lá. O outro jogo que deu problema talvez eu tenha tomado muita cerveja. O Botafogo deu uma aula de futebol, 5 a 0 no Atlético-MG, as pessoas estavam em êxtase. Chegaram uns 80, 90, todos do meu lado, vamos chegar, presidente. Um falou que o maior sonho era conhecer o vestiário do Botafogo, agradecer, falar com os jogadores. “Vocês querem conhecer, então vêm comigo”. Levei 80 pessoas andando atrás de mim, o chefe da segurança olhou, eu disse que eram todos meus amigos. Entrei com os 80, tinha jogador tomando banho, o outro na toalha, o outro preocupado com a roupa. Os caras ficaram emêxtase, pegavam atadura, esparadrapo, camisa de treino. Foram embora, tudo bem. Os jogadores me pegaram e pediram para não fazer isso de novo. Falei “sem problemas”.

Retorno após o título

– Teve a famosa viagem de volta. Nós fomos para São Paulo. Eu faria tudo de novo. Fomos, ganhamos. Na ida foram 46 pessoas, normal, voo fretado. Na volta tinham 150 pessoas para voltar. Quem não foi na ida o presidente da Ferj, o Caixa D’Água, o da CBF, o do STJD e uma porção de gente que eu não conhecia. O pessoal demorou um pouco para se arrumar, foi para o ônibus para ir para Guarulhos. Chegaram para mim, faltavam o Gottardo e o Sérgio Manoel, que estavam fazendo o antidoping. Eu disse “de jeito nenhum, fomos juntos, voltamos juntos”. Saímos de lá 11h da noite. Tinha gente no Santos Dumont, no Aterro, em General Severiano. Chegamos no Aterro, o comandante fisse que tinha um problema, era avião para 106, tinham 152. Eu disse “não tem problema, 40 minutos de voo, ninguém tem mala, o que pesa mais é a taça”. Moral da história, o comandante chegou e falou “você teria três camisas do Botafogo”. “Tenho. Gonzaga, roupeiro, pega três camisas por favor”. Então vai todo mundo. Eu fiquei em pé, distribuindo as medalhas. Foi uma bagunça. Tinham oito pessoas da TV Globo, filmaram tudo. Voltamos, na hora que está chegando o comandante me chama, mais um probleminha. “Eu recebi uma orientação da torre para desviar o voo para o Galeão, porque tem 9 mil pessoas na pista do Santos Dumont”. “Mas, comandante, o pessoal está esperando desde 9h da noite, são 1h40 da manhã. Não tem ninguém na pista, estão no canteirinho. Faz o seguinte, vai, freia no final e para o avião”. “Mas tem outra coisa, as aeromoças têm namorados botafoguenses, precisava de mais duas ou três camisas”. “Não tem problema”. Pousamos no Santos Dumont. Aí tomei um susto, 9 mil pessoas correndo, gritando “é campeão”, subindo na asa, batendo na janelinha, fumando, ninguém saía nem subia. Ficamos uns 30 minutos. Apareceu um carrinho de bombeiro desses menores, empurrei o Túlio, o Jamir foi e eu fui atrás. Deram um peixe morto para o Túlio, o caminhão e os 9 mil foram atrás. O avião ficou sozinho, o pessoal pôde desembarcar. O carrinho de bombeiros foi pelo Aterro, passou em frente à sede, foi uma ovação, continuamos para comemorar em um restaurante no Aterro. Foi isso. Foi a maior emoção, depois dos nascimentos dos meus filhos. Acho que foi uma recompensa também pelo esforço por voltar à sede, tenho na minha cabeça que estava tudo conectado.

Arrependimento

– A única coisa que me arrependo é não ter feito um centro de treinamento para as divisões de base. Só isso. Não tínhamos dinheiro para nada, os jogadores foram campeões com quatro, cinco meses de salários atrasados. O que ofereci de prêmio foi liberar todo mundo, tinha a lei do passe, cada um ia seguir sua vida. Tinham propostas milionárias do Japão, mas os jogadores não eram nossos, eram emprestados. Não foi dinheiro que entrou no Botafogo, foi para eles, que fizeram a independência financeira com essa liberação. A missão estava cumprida com o título.”

Bronca no elenco

– Dei uma bronca em jogo com o Grêmio, foi a primeira vez que me viram brabos. Estavam alguns com ciúmes do Túlio, eu chutei o pau da barraca, falei por 40 minutos no vestiário. Saí, ninguém falou nada. O Antonio (Rodrigues) me disse que o Autuori pediu para eu voltar, o Paulo deu a palavra para o Gottardo, que falou dois minutos, eu continuei mais 30 batendo. Alguns falaram “podemos ter perdido o campeonato hoje”. Eu disse “paciência”, mas não ia ficar com isso atravessado. Não podem ter ciúmes do outro, o cara está fazendo gol, garantindo tudo para eles. A Seven Up pagava ele em dia, os outros não recebiam. Sei que ganhamos do Grêmio e fomos embora. Antes disso, jogamos com o Cruzeiro no Mineirão, fizemos 3 a 1 no primeiro tempo, no segundo entrou o Paulinho McLaren e fez quatro gols. Terminou 5 a 3. O Botafogo jogou bem, mas o cara estava iluminado. Reuni os jogadores, falei “hoje vocês perderam, mas jogaram como campeões, me deram orgulho, vão ter bicho especial”. Peguei dois malotes da renda, TV pagava pouco, o que dava dinheiro era bilheteria. Derrubei o dinheiro de dois sacos, falei “dividam aí” e saí do vestiário. Essas coisas também faziam com que ficássemos mais chegados. Eles estavam com salários atrasados, o jogo deu boa renda, me deu na cabeça fazer aquilo e fiz.

Liga no Brasil

– Vai ser muito bom. Vai unir os 40 clubes, da Primeira e da Segunda. Vão ter mais recursos. É o campeonato mais disputado do mundo e o mundo não conhece, não passa nos Estados Unidos, na Europa, na China, na Ásia. O melhor futebol do mundo, eles vêm aqui buscar os jogadores toda hora. A juventude aqui, de 5 a 15 anos, tem que voltar a andar com a camisa dos times do Brasil. Porque hoje só andam com camisa do Manchester City, do Liverpool, do Real Madrid, do PSG. As pessoas procuram os craques. Precisamos resgatar isso aqui, a admiração dos jogadores.

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