Ex-coordenador de scout do Botafogo, Raphael Rezende trabalhou em todo o processo de construção de elenco, desde 2022, que culminou nos títulos da Libertadores e do Campeonato Brasileiro em 2024. Ele saiu do clube em 2025, mas ainda tem proximidade e conhece bem os profissionais, como Brunno Noce, que se tornou head scout e recebeu elogios dele.
– De maneira geral, scout mesmo, ou o head scout mesmo, o cabeça do setor, é uma área que trabalha meio que na sombra. Ela não aparece tanto assim em questão a visibilidade, talvez fosse o maior desafio do que foi a minha mudança. Porque antes era visibilidade extrema. Mas sobre o Brunno, cara, é competência, parte técnica muito aguçada, é a capacidade de eleger bons nomes, de trabalhar com afinco para isso. É um cara especial. Os anos foram muito tranquilos de convivência por ter uma pessoa como ele lado a lado no dia a dia – declarou Raphael Rezende, em entrevista ao jornalista Thiago Franklin, do canal “Resenha com TF”.
O profissional viveu a Glória Eterna no Botafogo, com o título da Libertadores. O sentimento foi diferente.
– Eu não sei se eu consigo trabalhar no mundo do se, porque imaginando que eu não estivesse trabalhando no Botafogo, com a relação com o clube, família, minha mulher é botafoguense, meu pai, meu sogro, meus filhos, então a relação está ali no dia a dia. Se eu estivesse trabalhando na televisão como comentarista, talvez o melhor cenário fosse não participar disso trabalhando, ter o distanciamento que eu falei que era natural em questões como essa. A não ser que fosse algo muito direcionado, uma transmissão que é voltada para o público botafoguense, enfim, aí são outras questões. Mas, cara, foram dias para a vida, para a história. Ali foi muito marcante, principalmente a questão da Libertadores, porque eu tinha para mim que o torcedor do Botafogo nunca ia conseguir viver o título de Libertadores, sabe? Eu achava, eu vou morrer e o Botafogo não vai ser campeão da Libertadores, E ter participado disso, influenciando para que acontecesse, foi um bombardeio de sentimentos lá, foi um negócio de louco. Não sei nem explicar – disse.
– Acho que passa muita coisa pela cabeça. O que eu tinha certeza quando era moleque era que eu queria trabalhar com futebol. E você conseguir vincular isso ao clube que você tem identificação, ao que você não acreditava que fosse possível, acho que a Libertadores era um sonho completamente distante, assim, utópico. E Conseguir isso efetivamente é difícil replicar. Beleza, chegamos aqui, conquistamos isso, o que faz agora? É difícil – acrescentou.
No Botafogo, Raphael Rezende viveu o outro lado, bem diferente do da época de comentarista. A experiência anterior o ajudou.
– Eu acho que ter a bagagem que eu tive profissional foi importante no contexto que eu encontrei no Botafogo. Quando a gente fala da equipe de scout em si, ela era tão heterogênea, pessoas de perfis, muito distintos, a origem, o que trabalhou, a visão de futebol que tem… Quanto mais elementos você traz para a discussão, melhor. E eu acho que eu sou uma pessoa, de um ponto de vista que era um tanto diferente de outros, que já tinham uma bagagem de mais tempo dentro do futebol, de base ou profissional. Era importante porque em vários momentos isso se complementava. Eu acho que foi gradual, uma questão que o comentarista tem muito claro é esse lado mais frio, você tentar ter um distanciamento do jogo para fazer a análise, para não ser tão impactado por questões emocionais. E isso é relevante. O futebol de clube, pelo contrário, independentemente de time de coração, mas por estar vivenciando o dia a dia do clube e buscar a vitória acima de qualquer outra coisa, ele demanda um pouco mais de paixão, digamos assim, de emoção, de envolvimento. E eu acho que esse foi o principal desafio. Não da parte técnica, de avaliação, mas o desafio foi vestir a camisa, não por ser um Botafogo, mas pelo futebol dito profissional demandar uma entrega de a gente tem que ganhar. E o jornalista não ganha ou perde no fim do jogo, no fim do dia, no fim do trabalho. Acho que essa foi a maior diferença. Me envolver tanto de maneira racional já era o meu trabalho, mas me envolver de maneira mais passional com aquilo que eu estava produzindo pode ter sido importante para trazer uma visão um pouco diferente e complementar. Aquela que a gente já tinha como trabalho no dia a dia. Então, foi bom no fim das contas ter outra origem. O que eu mais senti de diferença foi isso – completou.