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Além da Recuperação Judicial, SAF Botafogo pede à Justiça aval para dinheiro de Textor e retirada de poder da Eagle; saiba detalhes

Leonardo Andrade

Por: Leonardo Andrade

- Atualizado em

John Textor, do Botafogo
Reprodução/SporTV

A petição submetida pela SAF do Botafogo à 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro vai além do escopo de um simples pedido de antecipação de recuperação judicial. O clube apresenta farta documentação, incluindo memorandos e trocas de mensagens, para demonstrar que a atual asfixia financeira não decorre de sua operação cotidiana. A crise teria raízes profundas na gestão do grupo controlador da SAF e em um imbróglio societário internacional que fugiu ao controle da administração brasileira.

Segundo o documento, o colapso teve início com a quebra do modelo financeiro que sustentava o grupo liderado por John Textor. Após a mudança na governança da Eagle Football, que passou a sofrer forte influência de credores, as decisões deixaram de visar o benefício conjunto dos clubes e passaram a priorizar os interesses exclusivos desses mesmos credores.

A SAF afirma que o cenário se agravou substancialmente devido à disputa pelo controle do Lyon, na França. Esse conflito envolve a Ares Management e outros atores ligados à gestão da equipe francesa. O Botafogo aponta que essa briga gerou questionamentos na Justiça francesa sobre a administração do grupo. A petição menciona, inclusive, alegações graves de irregularidades e possíveis práticas fraudulentas na condução do processo e na reorganização dos ativos.

Neste contexto, a SAF destaca o cerne de sua argumentação: o grupo passou a tratar o Lyon como prioridade absoluta, com o objetivo de recuperar o time francês para valorizá-lo e, possivelmente, vendê-lo. Essa postura alterou de forma drástica a distribuição de recursos entre os clubes.

Anteriormente, o Botafogo havia remetido quantias expressivas ao Lyon por meio do modelo de “caixa único”, sistema no qual os recursos circulavam entre as equipes do grupo conforme a necessidade. Esses repasses somam cerca de 146 milhões de euros. Pela lógica do sistema, esse montante deveria retornar ao caixa alvinegro.

Contudo, de acordo com a SAF, o retorno não ocorreu. O capital teria sido retido no exterior e utilizado para socorrer financeiramente o Lyon. A petição sugere que essa retenção de recursos, em um ambiente já marcado por suspeitas na França, ocorreu de maneira direcionada para atender a interesses específicos ligados ao controle do clube europeu. Como consequência direta, o Botafogo sofreu um impacto severo em sua liquidez.

Com o caixa esvaziado, o clube precisou antecipar receitas futuras, presenciou o aumento de suas dívidas e perdeu capacidade de planejamento a longo prazo. Esse desequilíbrio é apontado como o resultado imediato da decisão de priorizar o Lyon.

Para a SAF, esse detalhe é o pilar do processo. O argumento central é que não se tratou apenas de uma escolha de gestão, mas de uma atitude frontalmente contrária aos interesses do Botafogo. Na prática, a instituição brasileira teria sido utilizada para financiar outra equipe do grupo, sem garantias e sem a devolução dos valores.

A partir dessa constatação, o documento acusa formalmente a Eagle de abuso de poder de controle. O acréscimo jurídico fundamental trazido pela petição baseia-se na Lei das Sociedades Anônimas (Lei das S.A.), que proíbe o acionista controlador de orientar a companhia para um fim estranho ao seu objeto social ou lesivo aos demais interesses envolvidos. Na visão da SAF, a Eagle tomou decisões voltadas à preservação de ativos no exterior, mesmo ciente de que isso asfixiaria o Botafogo. O documento ressalta ainda que, após a Ares indicar a empresa Cork Gully LLP para conduzir um possível processo de venda, foi feita na última semana uma proposta para a aquisição do clube francês pela própria Ares, em conjunto com Michele Kang.

A diretoria do Botafogo relata que tentou solucionar a crise internamente por diversas vias. Um dos registros é um e-mail de novembro de 2024, enviado pelo então CEO Thairo Arruda, cobrando soluções urgentes. Segundo o clube, a controladora não apresentou nenhuma resposta efetiva:

“[…] Escrevo para acionar o alarme sobre a situação crítica de caixa do Botafogo. Nesta sexta-feira, precisamos pagar os salários de jogadores e funcionários, mas atualmente não dispomos de nenhum caixa disponível para cumprir essas obrigações. Há mais de dois meses, venho compartilhando semanalmente projeções de fluxo de caixa com todos os principais stakeholders para garantir total visibilidade dos nossos limites financeiros. Já antecipamos recebíveis de 2026 para ganhar tempo adicional para que a Eagle alcance uma solução de longo prazo. Infelizmente, não temos mais nenhum recebível a antecipar, e nossa única fonte potencial de liquidez agora é a Eagle. (…) Gostaria também de lembrar a todos que o Botafogo já concedeu empréstimos significativos tanto à Eagle quanto à OL. Apesar das transferências de jogadores dentro do grupo, o saldo líquido permanece substancialmente positivo em favor do Botafogo. Compreendemos que nosso clube irmão na França fez tudo o que estava ao seu alcance para recaracterizar sua pesada dívida com nosso clube, mas tenho certeza de que, a esta altura, vocês estão começando a perceber que nossa contabilidade tem sido impecável e que nossos empréstimos (e transferências bancárias) estão bem documentados. Paramos de tentar entender como nosso clube de alto crescimento e excelente desempenho, que superou todas as expectativas imagináveis de crescimento de receita e EBITDA, pode continuar sendo sacrificado em favor de um modelo de negócios falido na França, mas devemos ao menos insistir que contratos e dívidas sejam honrados. É difícil justificar EUR 40 milhões parados nas contas da OL enquanto tanto a OL quanto a Eagle devem valores incríveis ao Botafogo. Deixando isso de lado por ora, meu pedido é simplesmente que haja liquidez suficiente para cobrir as obrigações imediatas e manter as operações enquanto as negociações mais amplas prosseguem. […]”

O clube também tentou convocar uma assembleia geral para aprovar um aporte emergencial, mas a reunião não ocorreu por falta de quórum.

Diante da explanação, A SAF fez dois pedidos à Justiça:

O primeiro é a autorização para a contratação de um financiamento emergencial (DIP – Debtor-in-Possession), fundamentado no art. 69-A da Lei de Recuperação de Empresas e Falências. O objetivo é injetar capital fresco para garantir a continuidade operacional, honrando salários e despesas correntes. O aporte seria viabilizado por John Textor, sob as seguintes condições:

• Valor: R$ 125.000.000,00 (cento e vinte e cinco milhões de reais);

• Garantias: Ações da SAF BOTAFOGO detidas pela EAGLE BIDCO;

• Destinação: Financiamento das atividades da SAF BOTAFOGO e pagamento de obrigações correntes.

O segundo pedido, ancorado no conflito de interesses, é a suspensão temporária do direito de voto da Eagle Bidco nas assembleias da SAF. O Botafogo defende que a controladora atua em benefício próprio e em detrimento da companhia brasileira, devendo ser afastada das decisões estratégicas.

O juiz responsável ainda ainda não tomou decisão sobre os dois pedidos. Sobre o financiamento, determinou a manifestação prévia do administrador judicial (prazo de cinco dias úteis) e do Ministério Público (dez dias úteis). Quanto à suspensão dos direitos da Eagle, abriu-se um prazo de cinco dias úteis para que a empresa apresente sua defesa.

Por fim, o Botafogo afirma que o problema é de falta de caixa no curto prazo, e não de falta de viabilidade. O clube diz que gera receita, tem ativos valiosos e pode se sustentar, desde que consiga reorganizar suas dívidas.

O que está em jogo, portanto, não é apenas um pedido de recuperação. É uma disputa sobre quem decide o futuro do Botafogo e se o controle atual está, de fato, agindo a favor do clube ou não.

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