Carlos Eduardo Pereira é um presidente retrô conectado aos princípios modernos da gestão sóbria no futebol. Líder do clube que fez da superstição a sua estrela, e do passado uma referência para os dias de hoje, o dirigente esteve presente em distintas etapas da reconstrução do Botafogo, fosse ela na década de 1990, na retomada da sede de General Severiano, ou agora, na volta do time à Copa Libertadores. Em meio a tudo isso, ele cuida de uma ONG que ajudou a resgatar 3,5 mil vira-latas.

Mesmo de longe, Pereira não tira os olhos do Botafogo. Do seu escritório no 9º andar da torre do Rio Sul, ele observa a bandeira alvinegra tremular na sede a centenas de metros dali. Aos 58 anos, começou a frequentar General Severiano ainda na barriga da mãe. Natural do bairro que dá nome ao time, o dirigente insiste na conexão com os dias de glória como atalho para o sucesso. Nascido em 1958, no início do bicampeonato mundial do Brasil e na fase áurea alvinegra, Pereira reconheceu bem cedo os heróis de infância.

— Meus pais moravam aqui atrás, na Rua Góis Monteiro, e vinham ao Botafogo desde que eu estava na barriga da minha mãe, sempre no final de tarde, para olhar no treino o Zagallo, Gérson, Jairzinho, Garrincha… Naquela época, o Botafogo era vitorioso. Começamos a descolar daquela história maravilhosa quando o clube vendeu a sede de General Severiano. Nunca poderíamos ter perdido e jamais perderemos novamente a nossa conexão com o passado — disse Pereira.

Vendida para a Vale do Rio Doce na década de 1970, a sede histórica viveu dias de abandono e deixou sem casa uma legião de alvinegros históricos, entre eles Carlito Rocha, ex-jogador,ex-técnico, ex-presidente e símbolo eterno. Ao seu lado, Pereira caminhava pelo matagal que cobria a sede até a capela, onde o responsável pela criação da mística do amuleto em forma do vira-lata Biriba rezava pelo Botafogo:

— Foi General Severiano que me colocou na política. Andava naquele matagal com o Carlito, que ia rezar na capelinha e mandou fazer fotos em preto e branco, nas quais escrevia no verso: “Sangue, suor e lágrimas dos botafoguenses”. O mínimo era dizer para ele : vamos lutar pela sede.

Carlito morreu sem ver a reinauguração da sede, em 1994. Pereira, que depois viria a ser vice geral da gestão de Carlos Augusto Montenegro naquele ano, era conselheiro do clube quando levou a proposta à Vale do Rio Doce, que acabou ficando com o Mourisco Pasteur, hoje um moderno centro empresarial, como os que o presidente administra em sua vida profissional de gestor imobiliário:

— É preciso planejamento para manter o negócio funcionando e produzindo resultados com baixo custo. Alguma semelhança? São preceitos válidos para ambas funções, só que lá lido com números, no Botafogo, com paixão.

Antônio Lopes: ‘papo com ele é fácil’

No Botafogo, no entanto, lida com paixão e também com números. Assumiu o clube em novembro de 2014 com uma dívida quase bilionária. Pena até hoje para manter os salários em dia. Como gestor da Cia. Botafogo, sofreu penhora de um imóvel seu em Botafogo devido à ação trabalhista milionária movida pelo voltante Túlio, contratado em outra gestão.

— Tento gerir com os mesmos critérios da minha empresa. Mas, ao assumir, levei 90 dias para assinar um cheque! Não havia o que fazer.

Além de fazer cálculos, Pereira multiplica amizades e memória. No garimpo em uma das sedes, funcionários acharam uma placa comemorativa, onde estão reunidos o seu nome, como dirigente, e o do seu pai, Hugo da Costa Pereira, ex-integrante do Conselho Deliberativo. Virou troféu em sua sala.

Em Antônio Lopes, o gerente de futebol achou uma outra figura paterna, além de um amigo, confidente e admirador.

— O papo com ele é fácil, porque ele conhece o futebol. Quando eu vou falar com ele de um jogador, ele já viu jogar, já conhece. E ele paga em dia, o que facilita na hora de contratar. Os jogadores querem vir jogar no Botafogo — contou Lopes.

Biriba e o título da série b

O título da Série B, em 2015, amenizou a dor da perda do Biriba, no ano anterior. Vira-lata homônimo ao famoso batizado por Carlito, faleceu dias após a posse. O cachorro foi o responsável pela sua mudança de Botafogo para Itaipava em busca de espaço. E também por ele abrir a Gapa-MA — Grupo de Assistência e Proteção aos Animais e ao Meio Ambiente, para adoção de cães abandonados. Ele diz não se importar em ser chamado de presidente vira-lata nas redes sociais.

— Eu tive o meu Biriba. que morreu três dias depois de eu ganhar a eleição. Agora eu tenho outros três, todos vira-latas de Itaipava — disse.

Em ano de eleição, tem trabalhado bastante, mas não lhe falta energia para ir ao jogos com o seu radinho de pilhas modelo título carioca de 1989 a tiracolo. Hoje, às 17h (SporTV 2 transmite), deverá estar no amistoso com o Rio Branco-ES, em Vitória. Quando não pode ir, senta-se em frente à TV com a esposa, Rose, nos lugares previamente demarcados. Para dar sorte, óbvio.

— Tem que ser supersticioso, porque faz parte da conexão com o Botafogo. Meu rádio é fundamental mesmo, vem desde 1989. Estava com ele no Maracanã, no gol do Maurício (que quebrou, contra o Flamengo, um jejum de 21 anos sem título carioca). E eu e minha esposa temos lugares certos quando não podemos ir. E camisa alvinegra tem que ser a de estilo retrô — explica Pereira, sem se importar com a atual tendência geral ao desapego:

— Uma pessoa chegou para mim e disse que o Botafogo é apegado ao passado. Chamei esta pessoa aqui em General, no museu, e mostrei para ela o motivo. Fomos percorrendo os corredores com troféus, bustos de Garrincha, de Nílton Santos… Até que paramos em frente ao time do século. Bem, o time do século tem 13 jogadores, porque apenas 11 não bastariam, impossível, não deu.

Fonte: O Globo Online