No Botafogo, comenta-se que, apesar de sua importância técnica, foi Seedorf que despertou a sua liderança dentro do grupo. O que mudou durante esse tempo de convivência?

Sempre fui uma pessoa calma. Meu jeito de liderar sempre foi na base da conversa e da orientação, sempre mais internamente. Quem me conhece sabe da minha importância no Botafogo, mas não sou muito de querer aparecer para fora. O Seedorf é um grande líder, que sempre cobra a melhora do grupo. É uma liderança forte. Não que ele tenha despertado, mas, a partir do momento que temos dois líderes com personalidades diferentes, a gente acaba mostrando um lado que estava adormecido. Tudo isso foi em prol do grupo. Havia coisas que ele falava que eu não concordava, havia coisa que eu falava que ele não concordava, mas a gente entrava num consenso pensando no grupo.

Do que vocês costumavam discordar?

Na maneira de como tratar as pessoas. A gente sabe que Seedorf sempre pensa no grupo, mas a cobrança era um pouco forte e, às vezes, eu não concordava. Falava: “Não é bem por aí, vamos acabar com essa situação”. Depois, a gente sentava e sempre se acertava.

Depois de Loco Abreu e Seedorf, o posto de ídolo está vago. Está pronto para assumir o papel?

O meu modo de pensar o Botafogo é diferente. Claro que a torcida é carente de ídolos, de jogadores que fazem a diferença, como o Loco Abreu e o Seedorf. A diferença é que eu não faço gols, e a torcida do Botafogo é apaixonada por ídolos que fazem gols. Eu vou ter o meu espaço, mas não tem como preencher a vaga de um camisa 10 como Seedorf.

Você conviveu com os dois. Qual é a diferença de Loco Abreu para Seedorf nos bastidores do elenco?

O Loco é uma figura, um cara super gente boa, engraçado, que pensava muito na garotada e no grupo. A gente aprendeu a gostar demais dele. Quando ele foi embora, muita gente sentiu. Com Sedoorf foi totalmente diferente. As pessoas sentiram um baque quando ele chegou, principalmente os garotos. Na convivência, a gente viu que ele não era um bicho de sete cabeças. Fazia a mesma coisa que a gente, comia o mesmo que a gente. Foi só quebrar esse gelo. São jogadores que fizeram história aqui. Com certeza, vão ser lembrados para sempre como jogadores do Botafogo, principalmente o Seedorf, já que foi o último time que ele atuou.

O Botafogo lutou 17 anos para voltar à Libertadores, mas neste ano já sofreu importantes perdas, como Seedorf e Rafael Marques. Como o grupo encara isso?

Temos que valorizar quem está aqui. Futebol é isso. Chega jogador, sai jogador. A gente sabe que saíram o Seedorf, o Rafael Marques, dois grandes jogadores, mas estão chegando jogadores que vão nos ajudar muito: (Tanque) Ferreyra, Bolatti, Jorge Wagner, Aírton, (Rodrigo) Souto. Eles vão suprir as necessidades do Botafogo. Este é o momento de a gente se fechar e abraçar a todos, independente de ser mais experientes ou mais novos. A gente vai precisar de todo mundo na Libertadores.

Onde o Botafogo pode chegar na Libertadores?

A gente entra para ser campeão, não para passar da primeira fase e ver até onde vai chegar. O Botafogo sempre entra para ser campeão. Temos time para isso. Provamos no ano passado, principalmente em cima do campeão da Libertadores, o Atlético-MG. Todos os jogos foram excepcionais, e acabamos dominando o Atlético-MG. Isso prova que o Botafogo tem time para ser campeão. É ter calma, entender os adversários, a competição, que é totalmente diferente do Brasileiro e da Copa do Brasil. Libertadores é guerra, é pauleira.

Lodeiro recebeu proposta do Besiktas, da Turquia, e ficou balançado. O que o capitão do time pode falar ao jogador neste momento?

O futebol dá oportunidades, mas a gente conversou com o Lodeiro e explicou a importância dele no Botafogo neste momento único que a gente está vivendo na volta à Libertadores. É claro que não depende só da gente. Tem a parte financeira, mas acho que vale a pena ele ficar aqui, até porque já conquistou o carinho de todos e seu espaço. Esperamos que ele nos ajude na Libertadores.

Muito especulou-se sobre a sua saída do Botafogo. Você também recebeu propostas?

Recebi, sim. Sondagens muito fortes do Brasil e de fora, mas tenho um carinho muito grande pelo Botafogo e pelos torcedores. Enquanto o Botafogo estiver me valorizando, fico aqui até encerrar a carreira. Para sair do Botafogo, tem que ser algo muito bom, primeiro para o Botafogo e depois para mim. Estou com 31 anos, muito feliz aqui, tenho dois anos de contrato e espero cumprir.

O Botafogo é um clube que valoriza seus ídolos. Manga é considerado o maior goleiro da história do clube. Pensa em conquistar este status?

Sempre é bom fazer história, mas não por vaidade. Se acontecer, vai ser naturalmente. A maior recompensa como jogador é poder, depois que parar de jogar, voltar ao clube, ao Rio de Janeiro e ser reconhecido pelos torcedores. É entrar no clube e ver a sua foto. Faz bem para o jogador. Espero fazer história para ser lembrado daqui para frente.

Em ano de Copa no Brasil, certamente voltará a ouvir comparações com Barbosa, goleiro da seleção de 1950, que também era negro e ficou marcado pela derrota da seleção. Isso te incomoda?

Fico tranquilo. É lamentável o que falam do Barbosa, mas eu não levanto bandeira alguma, não defendo ninguém. Eu tenho a minha história no Botafogo e na seleção brasileira. Independentemente de cor, o que vale é a competência e isso estou demonstrando que tenho. Não tenho que trazer nenhuma nova responsabilidade ou pressão sobre mim. Esta é uma Copa do Mundo que, por ser no Brasil, todos os jogadores gostariam de disputar e comigo não é diferente. Estou pensando unicamente na Copa, independente da cor e da Copa do Mundo de 50. Isso é passado, e espero ser campeão com o Brasil aqui no Brasil.

Enquanto você atua regularmente no Botafogo, o titular da seleção brasileira, Júlio César, não tem jogado. No Queens Park Rangers, da segunda divisão da Inglaterra, ele não é titular. Isso pesa a seu favor e pode fazer o Felipão mudar de ideia?

Respeito Júlio César e os outros goleiros da seleção, Victor e (Diego) Cavalieri. Eles são meus amigos, de jantar em casa, mas estou buscando meu espaço. Para estar na seleção, você tem que manter a regularidade no clube, tem que estar jogando. Independente do Felipão escolher o Júlio César ou não, o importante é estar na seleção e estou preparado para jogar, para ser titular da seleção e vou trabalhar para isso.

Fonte: O Globo Online