(Vale ler) Montenegro detalha caos, critica Assumpção e projeta anos complicados

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Homem mais influente da vida política do Botafogo, Carlos Augusto Montenegro se relaciona melhor com os atuais jogadores do que o presidente Maurício Assumpção. Ex-presidente (de 1994 a 1996), ele juntou um grupo de alvinegros para pagar parte das dívidas com o elenco. Montenegro, que é presidente do Ibope, dribla as preocupações com as eleições para acompanhar seu clube do coração — que também terá eleições no fim do ano, em que ele garante que não se candidatará. Mas dá sugestões para o futuro mandatário do clube.

Dá tempo de acompanhar o Botafogo?

É um ano muito complicado, com eleições importantíssimas depois das manifestações do ano passado, com o quadro mudando após uma tragédia recente, mas dá tempo. Infelizmente, é um ano em que o Botafogo errou todo o planejamento. Vinha acertando até então, mas, por este ano, estamos pagando um preço muito caro. Em todas as competições fomos pessimamente: no Estadual, na Libertadores, na Copa do Brasil e no Brasileiro.

Com R$ 700 milhões de dívidas, o Botafogo está próximo do fim?

Muita gente diz que vai terminar ou virar um América, mas eu não acredito pelo tamanho da torcida do Brasil e pela história no futebol. Mas vamos ter que reciclar o futebol brasileiro. De todos os clubes, talvez o Botafogo seja o que está em crise mais aguda. Tem muita culpa do sistema e também culpa do clube. O 7 a 1 da Alemanha é usado como ápice da tragédia, mas, na verdade, é o modelo arcaico que não foi mudado nos últimos 50 anos enquanto o mundo todo se modernizou. Se for ler os estatutos da CBF, das federações e os clubes, são as coisas mais antigas e fora de moda que existem. Os clubes também não fazem o dever de casa, contratam sem poder. É um absurdo um jogador de futebol ganhar R$ 700 mil. O Botafogo fez um esforço para trazer o Seedorf, que foi uma grande contratação. Se eu soubesse que a vinda dele faria o Botafogo passar o que está passando, não gostaria de tê-lo no clube.

Qual é a saída para o Botafogo?

O Proforte (rebatizado de Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte) vai ser importante porque os dirigentes serão responsabilizado com seus bens, mas a redenção do futebol brasileiro é nivelar por baixo. Para disputar o campeonato, você vai ter que pagar atrasados e mostrar guias de pagamento de três em três meses para não ser rebaixado. O Botafogo vai precisar pagar despesas do Proforte, que vai ser mais ou menos de R$ 1 milhão. Está tentando um novo Ato Trabalhista (para pagar dívidas com ex-funcionários), e vai pagar mais R$ 1 milhão por mês. E ainda vai precisar de mais uns R$ 400 mil para pagar os impostos do mês. Nosso melhor jogador, o Seedorf, vai ser o Ato Trabalhista. Isso é sagrado. Nosso segundo melhor jogador, o Jefferson, vai ser o Proforte. O terceiro vai ser o imposto do mês. A partir daí, você começa o clube. Não vamos ter receita suficiente. A folha salarial vai ser de R$ 1 milhão, R$ 1,2 milhão.

Isso não é folha de time de Séria A…

Talvez nem de Série B. Vai ter jogador de R$ 15 mil, R$ 20 mil. Vai precisar de criatividade para contratar, trabalho forte na base, botar garotos para jogar e contratar um ou outro astro para compor. E uma comissão técnica normal para poder sobreviver. Se contratar jogador de R$ 300 mil, não vai pagar imposto. Se não pagar, cai de divisão. É melhor não contratar esse pessoal e tentar ficar na Série A com trabalho sério. Na hora que a lei valer para todo mundo, o jogador que ganhava R$ 300 mil não vai bater na outra porta porque o cara vai ter o mesmo problema. Vão ter dois ou três clubes, como Cruzeiro e Internacional, que não vão sofrer impacto, mas vão ter de se adequar para não ficar fora de sintonia. Todos clubes precisam disso. Botafogo, Flamengo e Vasco precisam muito. O Fluminense, se a Unimed sair, é o clube em pior situação do Brasil. Vão levar todos jogadores e deixar uma dívida tremenda. O Botafogo tem que se redimensionar. Se tiver Proforte, vai ficar igual a todo mundo. Se não tiver, só o Botafogo tem que fazer, mas via ficar bem atrás dos outros.

O Botafogo terá eleições neste ano.

O clube hoje não tem nem situação nem oposição. O Botafogo vive em um caos. Se fosse uma empresa, estaria perto da falência. Alguém vai ter que ganhar a eleição e assumir esse caos. Eu estou com muita pena dessa pessoa, que vai ter a vida transformada. Tenho pena da família e da saúde dessa pessoa. Se me chamar para ajudar, eu vou ajudar. Espero que não seja com dinheiro, porque é a fundo perdido. A situação é muito difícil, principalmente não saindo o Ato Trabalhista. Todo mundo diz que vai sair, mas não sai. O Proforte vai sair, mas tem eleição. Um presidente que ninguém está esperando pode querer rever isso tudo. Tudo isso é futuro, mas o presidente assume em 25 de novembro como sócio de uma dívida brutal de R$ 700 milhões, sem Ato Trabalhista e com penhoras.

Como montou o grupo de torcedores para pagar os direitos de imagem do elenco?

Às vezes, eu atropelo. Vejo que não tem saída. Vi que não tinha dinheiro. Falei: “Ou vamos para a paixão ou não vamos.” É empréstimo sem garantia, sem nada. O Botafogo pode pagar em 20, 30 anos, sem juros. O que é isso? Empréstimo, doação. Quero ver se consigo terminar o ano. Se eu não fizer e outros não fizerem, ninguém vai fazer. Todo mundo critica e não faz. Resolvi fazer.

Vai ser suficiente para o ano todo?

Vai ser suficiente para chegar até o fim do ano. Se Deus quiser, sem cair. Esses jogadores já sofreram muito. Foram muitas promessas não realizadas. Respeito a instituição presidente do Botafogo, sei o sacrifício que é. Infelizmente, tudo de outubro (de 2013) para cá foi errado. Saiu do Ato Trabalhista, perdeu Seedorf para a Libertadores, não se preparou com profissionais e passou a usar muitas pessoas amigas e conhecidas da relação dele (Maurício Assumpção), da praia, seja no futebol, no marketing e em outras áreas. Ele abandonou o profissionalismo. O presidente e os vice precisam ser amadores, mas não precisa botar amadores em tudo.

Como avalia os seis anos de Assumpção?

O Botafogo está terminando com o Engenhão fechado, que não foi culpa dele; com Marechal Hermes todo esburacado; com o centro de treinamento que a Prefeitura deu em Vargem Grande sem nem começar obras; com o campo de General Severiano motivo de controvérsia, com Caio Martins mal e porcamente improvisado e meninos dormindo onde era o camarote. Eram ideias ótimas: CT na Barra, Marechal Hermes mais novo, Engenhão bombando, campo sintético, mas está terminando sem nada. Nunca estivemos tão mal de patrimônio, pessimamente em receitas, sem nenhum centavo, e pessimamente em todas as competições.



Fonte: O Globo Online
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