(Vale ler!) Revista faz perfil de Seedorf e o coloca na capa: ‘O craque dos sonhos’

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Quando Neymar trocou o Brasil pela Espanha, deixou um vácuo. Afinal, quem seria o sucessor do ex-santista como o jogador que todos gostariam de ver no seu time? Placar perguntou a 28 especialistas qual craque atendia a esse desejo das arquibancadas. A resposta foi arrasadora: metade desse colégio elegeu o o meia Seedorf como o cara. E não apenas pelo que o holandês representa dentro de campo. Motivos não faltam. O caráter do botafoguense e uma sucessão de preocupações, como a alimentação oferecida pelo clube e a formação de atletas recém-saídos das categorias de base. Um conjunto de qualidades que Placar enumera.

ELE AMA O TIME QUE JOGA

A chegada de Seedorf ao Botafogo pode ter surpreendido a muitos, mas, para quem conhece o jogador, parece escrita nas estrelas – ou na estrela, solitária. Quando era criança, no Suriname, Seedorf tinha um pôster do Botafogo colado na parede de seu quarto. Aos 10 anos, chorou com a eliminação do Brasil na Copa do Mundo, em 1986 – e uma das principais lembranças que tem da época é justamente a dos dois gols do lateral-direito Josimar, então no Botafogo, na Copa.

No fim dos anos 90, casou-se com uma brasileira, Luviana, torcedora alvinegra. O que, junto com sua facilidade para línguas, explica seu português fluente – ele também fala inglês, francês, espanhol, italiano e, claro, holandês. Foi Luviana quem incentivou o craque a vestir a camisa do Botafogo. Por ela Seedorf saiu da Europa, continente adotado há mais de 20 anos, e voltou à América do Sul.

Seedorf vive no Leblon, zona sul do Rio de Janeiro, com a mulher e seus quatro filhos – as meninas Jusy, Darjaene, Jaysyley e o caçula Denzel. Não precisou correr atrás de moradia quando assinou com o Botafogo. O apartamento já era dele havia alguns anos. Era para lá que ele e sua família corriam nas férias e festas de fim de ano. Seedorf se sente tão local que anda pelo bairro de bicicleta e volta da praia de ônibus. Gente como a gente. Mas com grana e uma vontade enorme de resguardar sua imagem. Prefere jantares discretos em família e com amigos íntimos em restaurantes estrelados como o Fasano.

ELE (AINDA) JOGA PORQUE GOSTA

Não é à toa que, aos 38 anos, Clarence Seedorf, é um dos grandes protagonistas do Brasileiro 2013. Quando chegou, há pouco mais de um ano, tornou-se o maior nome internacional a jogar no Brasil – quatro vezes campeão da Liga dos Campeões da Europa, além de campeão do mundo de clubes. Surpreendeu ao trocar propostas milionárias da Itália, Inglaterra, China, Catar, Emirados Árabes e Estados Unidos pela do Botafogo. Também milionário, por sinal: são 6 milhões de euros, cerca de R$ 18,3 milhões de reais, por um contrato de dois anos: 250.000 euros ou 758.000 reais mensais – ainda assim, muito inferior aos cerca de R$ 1,5 milhão de reais que receberia no Guangzhou Evergrande, da China, time do argentino Conca.

Um dos 50 jogadores de futebol mais ricos do mundo, segundo pesquisa do site goal.com, com uma fortuna avaliada em 55 milhões de reais, Seedorf pôde optar por uma oferta menor, mas que agradou mais sua família. Para o Botafogo, no entanto, o salário é uma fortuna. O clube foi apontado em maio, por um estudo da Pluri Consultoria, como o mais endividado do país, com uma dívida de 566 milhões de reais. O salário de Seedorf – pago parte pelo clube, parte pela fornecedora de material esportivo, a Puma – representa ainda 25% de uma folha salarial de cerca de 3 milhões de reais. Vale o gasto.

Além de liderar a bela campanha do time no Campeonato Brasileiro, Seedorf impulsionou o número de sócios-torcedores do clube de 4.000 para 12.000 associados só nos três primeiros meses do craque no Brasil. Depois, com o fechamento do Engenhão, houve uma queda. Mas o sucesso do time e a campanha ancorada no holandês fazem com que a expectativa da diretoria seja chegar a 20.000 até o fim deste ano. Sem ele, essa meta seria irreal. Com ele, parece totalmente possível.

ELE NÃO BATE DE FRENTE COM O TREINADOR

Líder, questionador, observador, perfeccionista, rígido. Parece a receita certa para jogador que bate de frente com o treinador, certo? Errado. Seedorf pode até discordar de Oswaldo de Oliveira, e sempre que isso acontece ele fala, de forma direta. No entanto, sabe muito bem que a última palavra é a do técnico. “Ele tem opinião forte. Mas é obediente, disciplinado e observador”, diz Oswaldo, afirmando que aprendeu muito com o holandês. “Aprendi principalmente a lidar com a questão de ter um ponto de vista diferenciado.”

A mudança da posição de volante, na qual jogava no Milan, para a de segundo atacante, como tem atuado no Botafogo, não foi um dos pontos de discórdia. Seedorf abraçou a ideia de Oswaldo assim que a ouviu. “Volante corre mais durante o jogo. Na antiga função, ele percorria espaços maiores. Pelo clima quente do Rio e a idade dele, acredito que poderia ser sacrificante. Pela facilidade que ele tem no drible e pelo chute forte, resolvi que deveria aproximá-lo do ataque. Hoje percorre espaços menores e é muito mais produtivo. A prova que ele deu certo é o número de gols e assistências que ele faz”, afirma o treinador.

ELE É UM CARA DE GRUPO

Nos hotéis e concentrações, Seedorf gosta de resenha. Costuma trocar ideias sobre as partidas e os adversários com jogadores como o também experiente zagueiro Bolívar, 33 anos e duas Libertadores pelo Internacional no currículo. Em seu primeiro dia no Botafogo, em janeiro, durante a pré-temporada da equipe, Bolívar participou de um churrasco com o grupo. Nele, Seedorf comentou com Bolívar que costuma se informar sobre o perfil de cada companheiro. “O seu é o de um cara vencedor”, comentou, antes de dizer que sabia que Bolívar poderia contribuir num papel de liderança.

“Ele disse que sentia falta de mais lideranças para dividir a responsabilidade em 2012, porque o grupo era muito jovem, e com a minha chegada e a de Júlio César, ele, Jefferson e outros não ficariam tão sobrecarregados”, lembra Bolívar.

Seedorf é do tipo que cobra. “Ele gosta das coisas certinhas”, diz o atacante Rafael Marques. Mas também incentiva. O atacante passou por uma má fase no ano passado e virou o principal alvo de insatisfação da torcida. O holandês então se uniu a Jefferson, Andrezinho e Fellype Gabriel para conversar com Rafael no início deste ano. “Foi na véspera da partida contra o Boavista pelo Estadual, em fevereiro. Eles foram me dizer que confiavam em mim e que já era hora de ajudá-los”, lembra.

O Botafogo só empatou aquele jogo em 2 x 2, mas o centroavante participou dos dois gols alvinegros. Cresceu em campo e hoje, no Brasileiro, é o artilheiro do time. No ano, marcou 18, além de ter dado nove passes para gols de companheiros – atrás apenas do próprio Seedorf, que já deu 15 assistências.

ELE CUIDA DA GROTADA

Quando subiu dos juniores para os profissionais, Gabriel, hoje com 21 anos, passou por um momento de incerteza e insegurança. Treinava separado do grupo. Seedorf chegou ao clube e também passou a treinar à parte, enquanto recuperava a forma. Nesse período, os dois se aproximaram e o holandês passou a servir de exemplo para Gabriel. “Outro dia ele me disse: ‘Lembra que eu cheguei e via você trabalhando? Desde o primeiro momento gostei do seu jeito de trabalhar e de se comportar’. Ele é muito observador. Na primeira vez dele na concentração, ficou de papo no refeitório até tarde. Quando foi dormir, todo mundo comentou: ‘O negão é gente boa'”, diz Gabriel.

Seedorf às vezes pega pesado. O atacante Vitinho, por quem era chamado de pai e que joga hoje no CSKA-RU, foi alvo de várias duras. Seedorf chegou a retirá-lo de uma entrevista. O lateral-direito Gilberto, por sua vez, recebeu até um safanão no braço durante uma discussão na vitória do Botafogo por 3 a 1 sobre a Portuguesa, em São Paulo. “O garoto tem que aprender que há momentos que tem que escutar e basta. Não tem tempo para ficar discutindo, porque o juiz, no primeiro tempo, estava para dar cartão e eu queria protegê-lo. Para ele não ficar falando com o juiz. Ele não entendeu. Então, tive que dar uma bronca nele. Rapidinho. Para a gente se concentrar no jogo”, disse Seedorf após a partida.

Uma reportagem do jornal Extra afirmou ainda que Seedorf age quase como um empresário, tentando recrutar jogadores para a Think Ball, empresa que gerencia a sua carreira. O atacante Fellype Gabriel, por exemplo, mudou para a Think Ball e logo depois se transferiu para o Al Sharjah, dos Emirados Árabes. “Ele já conversou comigo para saber se estou contente com meu empresário, mas só isso. O cara tem tanta coisa para fazer que se ainda fosse agir como empresário ia ficar louco”, defende o volante Gabriel.

ELE É GENTE BOA

O Brasil também mudou um pouco o jeito do holandês de ser. “Ele chegou uma visão mais formal, pouco flexível, das nossas coisas. Um exemplo são as refeições. Ele achava que jogador brasileiro comia demais. Hoje em dia está se deliciando nas refeições”, diz Oswaldo.

Relaxou tanto que já até cantou no vestiário, após uma vitória, e para a torcida, em General Severiano, após a conquista do Campeonato Estadual deste ano, exibindo o vozeirão já gravado em disco. Em 2007, gravou duas múcias para o CD Percosi de Vita, para ajudar a reestruturação do departamento de oncologia do Hospital de Melegnano, na Itália: “Sittin’on the Dock of the Bay”, de Otis Redding e “Redemption Song”, de Bob Marley.

Acostumado com o assédio, distribui autógrafos sorrindo quando é abordado na rua. Nas viagens, no entanto, às vezes os jogadores precisam ser protegidos pelos seguranças das manifestações mais empolgadas de amor de multidões que vão receber o time. Nessas horas, tem sempre alguém tentando roubar o boné de Seedorf, que precisa segurá-lo firmemente na cabeça. Nuna ocasião, em Brasília, pediu para Ivan Joaquim de Souza Júnior, segurança do Botafogo há 20 anos, segurar o boné para ele. Na confusão, um fã mais ousado levou o boné e Ivan nem percebeu na hora.

“Quando vi o que tinha acontecido, entrei logo numa loja de material esportivo e comprei um novo para ele. O anterior era branco, com o escudo do Botafogo. Na loja, não tinha branco, levei preto, com o mesmo escudo. Ele reclamou: ‘Mas não é a mesma coisa…’ Acho que ele tinha ganhado da filha. Mas eu falei: ‘Pô, Seedorf, boné é boné!’. Ele riu e usou aquele mesmo. Logo depois, o boné já estava na internet, numa foto dos torcedores que foram receber o time, na cabeça de um garotinho”, lembra Ivan, rindo.

ELE ESTÁ DE OLHO EM TUDO

“Qual a temperatura da água?”, questiona Clarence Seedorf ao fisiologista Altamiro Bottino antes de entrar na banheira quente. “O que tem nesse suplemento?”, indaga o holandês ao nutricionista Rodrigo Vilhena.

Seedorf pergunta tudo o tempo todo. E conhece seu corpo como ninguém. Não come nada sem saber que alimentos serão servidos, não toma remédio sem ter detalhes sobre a composição, não entra na banheira sem saber o porquê. Faz tratamento fisioterápico todo santo dia, porque não acredita que a atividade é para curar lesões, e sim para evitá-las. Não bebe, não fuma. Agora está contaminando o Botafogo com sua ‘perguntação’ obsessiva e seus cuidados constantes. Todos passaram a querer saber o que há nos suplementos, se a água está na temperatura correta e até o que devem comer depois de um jogo para se recuperar mais rapidamente. Nos dias de treino, chegar cedo para fazer a fisioterapia antes de entrar em campo deixou de ser uma exclusividade do craque holandês.

“Ele faz tantas perguntas porque parte do pressuposto de que nem todos são rigorosos como ele. E acho que ele estáacerto, gostaria que todos os jogadores fossem assim, interessados no que fazemos com eles. Sinto isso acontecendo cada vez mais. Os mais jovens, como Dória, Gavriel e Otávio, claramente se espelham nele. Jogadores que não eram muito de questionar começam a ter dúvidas, a se cuidar melhor”, comenta Altamiro Bottino.

ELE DÁ UM JEITO DE AJUDAR O LUGAR DE ONDE VEIO

A preocupação em dar sua contribuição social é outra faceta do holandês, que já visitou hospitais e escolas públicas brasileiras pelo Botafogo. Mais que isso, ele tem uma fundação, a Champions for Children, instituição sem fins lucrativos que desde 2005 desenvolve projetos sociais em países como Suriname, Brasil, Holanda, Camboja e Quênia.

No Brasil, a fundação investiu 130.000 reais na construção de um centro de recreação e esportes no bairro de Alagados, um dos mais pobres de Salvador.O Parque Clarence Seedorf, em Stadenwijk, na Holanda, recebeu um investimento de 200.000 reais. No Surinamente, são dois projetos: a construção de uma unidade neonatal em um hospital público de Paramaribo, capital do país, por 230.000 reais; e o Clarence Seedorf Sport Complex, que já consumiu cerca de 750.000 reais. A unidade neonatal recebeu o nome de seu avô, Frederik Seedorf, filho de escravos. Chegou a ser condecorado como membro do “Champions Legacy”, que ajuda a manter o legado do líder sul-africano Nelson Mandela. É, Gabriel está certo. O cara é gente boa.

Fonte: Placar

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