Ausente na festa, Willian Bacana revela mágoa com o Botafogo

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No último sábado, antes da partida contra a Ponte Preta, o Botafogo homenageou os campeões da Copa Conmebol de 1993 pelo clube no gramado do Maracanã, palco daquela decisão. Cada um deles recebeu uma placa em alusão aos 20 anos da conquista. Estiveram presentes personagens importantes como Carlos Alberto Torres, Sinval, Marcelo, China e Rogério Pinheiro. Porém, uma das figuras mais lembradas do único título internacional do clube foi a ausência mais sentida pelos torcedores. Willian Bacana, que pegou dois pênaltis na decisão contra o Peñarol, não estava lá. Por mágoa com o clube, prefere não falar muito sobre o Glorioso. Foi por causa do time de coração que ele desistiu do maior sonho de sua vida. Hoje, o ex-goleiro se sente triste. Prefere não se estender, mas revela uma sequência de frustrações que o levaram ao atual momento, a ponto de não participar da comemoração de um dos títulos mais importantes de sua carreira.

Parte integrante do elenco de 1993, Willian é torcedor do Botafogo. Sempre foi, desde garoto. E viveu uma enorme felicidade por ter se tornado profissional em 1988 justamente no seu clube de coração. Conquistou os Cariocas de 1989 e 1990, foi vice-campeão brasileiro de 92 e, como titular, foi herói da Copa Conmebol de 1993. Ainda assim, prefere dizer que não fez nada demais pelo clube, apenas seu trabalho dentro de um grupo com outros tantos atletas. A mágoa, no entanto, veio muito tempo depois. Ele afirma ter passado por um grande constrangimento na porta do clube há cerca de três anos, quando foi levar seu filho, então com nove anos, para conhecer a sede de General Severiano e um pouco da história do próprio pai. Mas foi impossível.

– Eu me identifiquei como ex-atleta e me impediram de entrar no clube. Isso me trouxe um sentimento muito forte. Se eu não fosse botafoguense, talvez não doesse tanto. Mas como eu fui criado lá, dói muito. Me magoou demais. Eu acho que o Botafogo ficou no meu passado e nem gosto de falar. Só de lembrar isso, eu sinto a sensação de vergonha daquele momento. Eu estava com meu filho. Por ele ainda ser pequeno, talvez não tenha entendido o que aconteceu – afirmou.

William Bacana Carlos Alberto Botafogo (Foto: Reprodução / Facebook)Willian Bacana treinou goleiras da Seleção no Pan-Americano de 2011 (Foto: Reprodução / Facebook)

O fato narrado por Willian Bacana foi apenas o estopim de uma série de mágoas que já guardava, mas aguentava, por parte do Botafogo. O ex-goleiro afirma que dois meses após o título da Conmebol de 1993, quando vivia seu melhor momento no clube, viu seu contrato acabar e não ser renovado na época. Depois disso, ficou ainda oito meses no Botafogo sem vínculo, precisou juntar dinheiro para comprar o próprio passe e poder se desvincular do Alvinegro.

Depois de encerrar a carreira de jogador, Willian Bacana iniciou as atividades como preparador de goleiros nas divisões de base do Botafogo. Em seguida, passou por Angola, Noruega, Arábia Saudita e Cabofriense até chegar à seleção brasileira feminina, onde foi treinador das goleiras no Pan-Americano de 2011. Porém, faltava motivação. Seu sonho era mesmo voltar ao Alvinegro, sua casa.

– Durante minha vida, fui treinador de goleiros, e quase todos os anos eu ofereço meu currículo pra trabalhar na base do Botafogo. Eu sei que não é o fato de eu ter sido jogador do clube que me credencia a ser funcionário. Mas eu sou Botafogo, tenho uma história lá, e nunca tive uma resposta. Por muito anos, procurei o clube e nunca fui recebido. Eu não consigo trabalhar no mirim do Botafogo. No meu coração, isso dói bastante. Isso não tem nada a ver com a torcida, mas sim com o clube – lamentou.

Botafogo homenagem título 1993 (Foto: Nina Lima / Agência O Globo)Willian não apareceu na homenagem feita pelo clube, no sábado (Foto: Nina Lima / Agência O Globo)

Por sinal, o ex-goleiro continua ativamente ligado ao Glorioso. Ainda frequenta as arquibancadas para torcer pelo time de coração. Por sua timidez, agradece por dificilmente ser reconhecido, graças principalmente à sua queda de cabelo, que lhe deu um visual bem diferente de quando era atleta. Admite que quando olha para o gramado do Maracanã, sente uma sensação de dever cumprido e, volta e meia, lembra com carinho do grupo e da conquista da Copa Conmebol em 1993, apesar de evitar falar no assunto.

– Acho uma agressão falar que aquele foi o pior time do Botafogo. É uma maldade. Não teria condições de ganhar um título se fosse assim. Eu acho que esse título devia ser ainda mais valorizado por todas as dificuldades. Foi uma conquista na marra, e está gravado na minha memória, isso que me importa. Mas se você me perguntar qual foi a coisa mais importante, eu te digo que foi o Carioca de 89. Ganhar em cima do Flamengo foi a melhor coisa que experimentei na vida – lembrou, com orgulho.

Willian, porém, é evasivo sobre o que tem feito atualmente. Prefere não comentar, mas diz que faz algo do qual não tem prazer e trabalha cerca de 13 horas por dias para poder sustentar sua família. O futebol, preferiu deixar para trás, já que não encontra mais motivação.

– Quando a gente deixa de sonhar, é complicado. Meu sonho era voltar a ser campeão dentro do Botafogo. Meu sonho sempre foi voltar. Quando eu vi que eu não consigo trabalhar nem na base do meu clube… é complicado. Te espeta. Te incomoda. Hoje eu trabalho em uma coisa de que eu não gosto. É uma tristeza que eu carrego.



Fonte: Globoesporte.com
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