Por Fabiano Bandeira*

O “fator casa”

Nas últimas três rodadas do Campeonato Brasileiro, o Botafogo passou por situações semelhantes, pois jogou em estádios que costumam fazer a diferença para os mandantes. O Alvinegro foi derrotado por 2×1 em Chapecó, venceu o Palmeiras por 3×1, no Rio, e perdeu de 2×0 para a Ponte Preta, em Campinas. Antes de desenvolver o que aconteceu tatica e tecnicamente na partida do Moisés Lucarelli, é preciso pontuar importantes aspectos do “fator casa”.

Em Chapecó, houve desatenção nos dois gols que a equipe sofreu, sendo que o segundo ocorreu logo após o empate do Fogão. Fosse o jogo na casa alvinegra, provavelmente a Chapecoense não teria tais possibilidades, tanto pela característica do campo quanto pela pressão da torcida que não deixa o Botafogo relaxar. Contra o Palmeiras, o Bota abriu dois gols, mas, ao tomar um, a torcida incentivou, pediu atenção e assim o Glorioso fez o terceiro. Porém, contra a Macaca, o time parece não ter se encontrado e tomou dois gols quando o jogo estava morno. Isto dificilmente ocorreria na Ilha.

O jogo

Apesar de Rodrigo Lindoso estar machucado e não ter podido jogar, Ricardo Gomes não alterou o esquema que mais gosta de armar no Botafogo. A linha de defesa “protegida” por três volantes, um meia e dois homens de frente; Neilton pela ponta e Canales centralizado. Naturalmente, a grande pegadinha é a armação dos volantes. Geralmente um deles sai por um dos lados, auxiliando Camilo na armação e a subida do lateral próximo.

A questão é que isso só é bem executado com a trinca Bruno Silva – Airton – Lindoso. Se uma dessas peças não jogar, outra parecida deve entrar. Mas, no elenco atual, apenas Dudu Cearense talvez seja capaz de fazer função parecida com um dos três. A parte triste é que nem Lindoso nem Bruno Silva são craques. Airton, embora não seja um gênio, é excelente jogador de futebol.

Como o treinador alvinegro escalou Fernandes no lugar de Lindoso, o Botafogo sofreu pela má partida que fez o jogador oriundo da base e pela falta de entrosamento. Airton esteve centralizado e um pouco mais recuado, enquanto Bruno e Fernandes não conseguiam dar suporte ao isolado Camilo. Neilton permanecia nulo na frente, sem receber a bola.

Canales teve um problema no ombro e, quando havia se recuperado e tentava voltar, percebeu que já tinha sido substituído por Vinícius Tanque. Tudo por conta da patética falta de comunicação no próprio Botafogo. Isso dá pano pra manga e roupa suja se lava em casa, mas não no Tanque alvinegro, pois este parece ter parado de funcionar justamente quando teve sua maior oportunidade.

A Ponte Preta anulou o poder ofensivo do Botafogo com facilidade. Isso ficou nítido desde o início do primeiro tempo. William Pottker pela esquerda, Roger centralizado e Rhayner pela direita se posicionavam na linha que divide o campo, de forma que não havia espaço para a transição de bola.

O Botafogo, pouco inspirado, quase não conseguia quebrar a primeira linha de marcação e, por isso, abusava dos lançamentos – quase sempre errados – de Emerson e Renan Fonseca. Nas poucas vezes em que o Glorioso encontrava espaço após o bloqueio dos atacantes adversários, um comboio pontepretano se posicionava em frente à área. Camilo era imediatamente atacado e a pelota não chegava aos jogadores de frente.

O lado esquerdo era o mais razoável para o Botafogo desenvolver algo positivo, mas Diogo Barbosa oscila muito e desperdiça algumas boas jogadas. Luis Ricardo não conseguia apoiar com facilidade na direita e ainda ficou sem saber como marcar no primeiro gol da Ponte.O tento saiu pelo lado direito da defesa alvinegra, mas a falha foi de todo o sistema.

William Pottker recebeu onde havia mais jogadores do Botafogo, porém não faltou espaço para o atacante dominar e chutar. Neilton não acompanhou o jogador que passou a bola para Pottker, e então Luis Ricardo ficou dividido entre a lateral e o autor do gol. O lateral alvinegro chegou atrasado, assim como Airton, que voltava da deserta e inabitada intermediária.

Rodrigo Villalba/Photopress/Gazeta Press

Rodrigo Villalba/Photopress/Gazeta Press
Gol de Potkker aconteceu em falha coletiva do sistema defensivo

Talvez não seja o papel do Neilton – que não é um meia na linha de quatro – acompanhar até o fim do campo. E, se ele não errou, o sistema estava mal armado, com Airton posicionado de forma equivocada. Resta saber se o técnico trabalha o balanço na troca de posição ou pede para os jogadores marcarem individualmente. Para piorar a situação, o goleiro Sidão, que chegara festejado ao clube, não conseguiu pegar o chute claramente defensável. Jefferson faz muita falta.

O Botafogo só mostrou sinais de recuperação no fim do primeiro tempo, mas pouco incomodou. No intervalo, Ricardo Gomes trocou Fernandes por Leandrinho e o Glorioso passou a ter dois meias. Assim, a Ponte recuou, mas não se entregou. O time de Campinas se fechou de maneira organizada, com as linhas bem definidas.

Como a Ponte Preta não é um exemplo de equipe talentosa, os jogadores roubavam a bola e devolviam ao Botafogo. Contudo, o Fogão não aproveitava. Foi então que Eduardo Baptista tirou um volante e colocou o meia Thiago Galhardo – e a Ponte passou a conseguir avançar alguns metros no gramado. Ricardo Gomes trocou Airton, cansado, por Dudu Cearense; Baptista colocou mais um volante, tirando um meia.

Era perceptível a balbúrdia tática no time carioca, principalmente por ter feito uma substituição com nove minutos de partida. A troca não surtiu efeito, pois além de o time não ter conseguido criar, Vinícius Tanque não ajudava quando tinha a bola nos pés. A última troca de Eduardo Baptista foi de um atacante por outro e isso é apenas uma informação, já que o técnico alvinegro não obteria êxito em suas variações, mesmo que o jogo fosse até o fim das Olimpíadas. A limitada Ponte Preta enroscou o time que tirou o Palmeiras da liderança.

A grande chance do Botafogo empatar saiu dos pés de Camilo numa cobrança de falta. Ele bateu bem perto da trave, mas a bola foi pra fora. O camisa 10, mesmo quando não faz excelente partida, aparece como um dos mais lúcidos em campo. Vida longa ao cabeludo na meia cancha alvinegra! Como ele não pôde fazer a diferença, a Ponte prosseguiu ganhando espaço e, numa troca de passes entre Reinaldo e Roger, o lateral esquerdo acertou um belo chute no ângulo.

Mais uma vez a falha de marcação foi notória. Havia muito mais jogadores botafoguenses perto da bola, porém uma simples troca de passes e a locomoção de Reinaldo foi suficiente para o atleta sair de frente pra área e finalizar contra a meta de Sidão. Dessa vez parece não ter sido culpa do contestado substituto de Jefferson.

Daí pra frente Leandrinho apareceu um pouco mais, tentando bons passes para infiltrações dos atacantes e laterais, mas já era tarde e o Botafogo perdia mais uma fora de seus domínios. Está difícil ganhar longe do Rio e, além disso, emplacar duas vitórias consecutivas.

A expectativa

A torcida espera que todos tomem esse duelo como exemplo, não repitam as falhas e intensifiquem as virtudes, se é que elas existiram.

Num campeonato tão intenso, é inadmissível uma substituição por falha de comunicação – assim como é estranho ter como melhor chance de gol uma bola lançada por Renan Fonseca. Ricardo Gomes e comissão técnica, preparação física, fisiologia, departamento médico e jogadores têm que estar totalmente integrados.

Agora vem a folga forçada. É necessário que o Botafogo treine muito, pois a torcida estará fazendo a parte que lhe cabe nesse momento; secar adversários diretos. Então que os jogadores se preparem, pois dentro e fora do Rio de Janeiro, há milhões de apaixonados torcendo – e se quem veste a gloriosa camisa conseguir entender isso, o São Paulo será derrotado no dia 14 de agosto, no Morumbi. É o que todos esperam!

Saudações Alvinegras!

Notas 

Sidão: 4
Vem tomando gols defensáveis em alguns jogos.

Luis Ricardo: 5
Um dos mais regulares do time e mesmo assim tem seus momentos de displicência.

Renan Fonseca: 4
Limitado e abusou dos lançamentos errados. – 4.

Emerson: 5
Tem potencial pra ser um grande zagueiro. Paga por ser inexperiente num time que precisa de resultado imediato.

Diogo Barbosa: 4
Oscila muito. Foi mal em Campinas.

Bruno Silva: 4
Não vem bem há algum tempo.

Airton: 6,5
Um dos melhores volantes do campeonato. Fez uma partida digna.

Dudu Cearense: 4,5
Entrou no lugar de Airton e não manteve o mesmo nível. – 4,5.

Fernandes: 3
É revelação da base, mas infelizmente esteve abaixo da crítica.

Leandrinho: 5
Retornou de lesão pra jogar um tempo.

Camilo: 5,5
Um pouco de água no deserto.

Neilton: 3,5
Com as atuações do jogo contra o Palmeiras e contra a Ponte, fez jus ao termo “oito ou oitenta”. Não apareceu.

Canales: sem nota
Jogou poucos minutos.

Tanque: 3,5
Jogou praticamente 80 minutos e só deu um bom passe para cruzamento.

Ricardo Gomes: 4
O treinador não soube fazer o time sair da marcação adversária. O Botafogo tomou dois gols por falhas em setores que deveriam ser dominados pela sistema defensivo. E as substituições não surtiram efeito.

Fabiano Bandeira é um grande amigo alvinegro. Como não pude ver o jogo de forma satisfatória para uma análise, foi a primeira pessoa em quem pensei para me representar aqui no blog. Quem quiser, pode acompanhá-lo no CJC Esportes toda quinta às 14h30 ou em colunas esporádicas no Fala Glorioso.

Fonte: Blog Preto no Branco - Pedro Chilingue - ESPN FC