Altitude de 2.850 metros, tensão por um jogo decisivo de 180 minutos apenas 23 dias depois do fim das férias e só uma partida disputada com os titulares pelo Estadual.

Motivos mais que suficientes para relativizar qualquer análise sobre a derrota por 1 a 0 para o Deportivo Quito na volta do Botafogo à Libertadores após quase 18 anos.

Mas já é possível fazer algumas observações sobre a equipe reinventada pelo novo técnico Eduardo Húngaro em sua primeira experiência comandando profissionais.

A começar pelo desenho tático. O 4-3-2-1, ou “Árvore de Natal”, teve problemas em sua execução. Primeiro por conta da ausência de Bolatti. Não que o argentino seja um Pirlo, ou o “regista” que arma o time de trás e é o “camisa cinco craque do time” que Húngaro apontou como necessidade para qualquer equipe moderna.

Mas é o volante que tem o passe mais vertical e qualificado do elenco. Sem ele, lesionado, Marcelo Mattos e Rodrigo Souto não conseguiram fazer a bola sair com precisão e rapidez.

Lentidão foi o maior pecado do Botafogo no primeiro tempo do Estádio Olímpico Atahualpa.No esquema proposto, alguém do trio ofensivo precisa dar profundidade às ações ofensivas. Jorge Wágner nunca foi um velocista e Lodeiro, embora rápido, não pode ser a referência para lançamentos seguidos em uma estratégia de jogar em contragolpes.

Pior ainda foi promover a estreia de Ferreyra. Desentrosado, fora de sintonia e ainda mais lento, não conseguiu reter a bola na frente. Muito menos fazer o trabalho de pivô. O “Tanque” argentino precisa de jogadas pelos flancos e decidir no último toque. Quando teve a chance, logo aos dois minutos, se atrapalhou à frente do goleiro Ramirez.

O time equatoriano desmontou o sistema com três zagueiros e, numa linha de quatro atrás com Chinga como lateral e adiantando Feraud pela direita em algo próximo de um 4-3-3, avançou a marcação e seguiu pressionando mesmo após o gol de Estupiñán. Com bolas levantadas na área e chutes de fora da área que deram trabalho a Jefferson. Ao contrário do Botafogo, o Deportivo tinha em Vega o volante organizador, que fazia o time jogar.

Olho Tático

O 4-3-2-1 do Botafogo no primeiro tempo teve problemas para municiar Ferreyra e conter a pressão do Deportivo Quito no 4-3-3.
O 4-3-2-1 do Botafogo no primeiro tempo teve problemas para municiar Ferreyra e conter a pressão do Deportivo Quito no 4-3-3.

Edilson e Julio César ficaram presos atrás pelos ponteiros e mataram a transição ofensiva alvinegra, que depende também do apoio dos laterais. Antes de promover a estreia de Wallyson, Húngaro tentou avançar Gabriel como um terceiro meia à direita. Depois fez o óbvio, trocando Ferreyra por Elias, mais móvel. Ou menos vagaroso.

No 4-2-3-1, o Bota seguiu vivendo das bolas paradas de Jorge Wágner, que deu lugar a Renato nos últimos minutos. O técnico Juan Carlos Garay mandou a campo Hansen na vaga de Estupiñán e o veterano Lara, que foi ocupar o lugar de Bravo pela esquerda do meio-campo e tentou reter mais a bola. O Botafogo teve 52% de posse, mas finalizou apenas três vezes contra oito do time equatoriano. Nenhuma na direção da meta de Ramirez.

Olho Tático

No 2ºtempo, o Bota ganhou agilidade no 4-2-3-1, mas dependeu das bolas paradas de J. Wágner para ameaçar o Deportivo, que teve Lara pela esquerda.
No 2ºtempo, o Bota ganhou agilidade no 4-2-3-1, mas dependeu das bolas paradas de J. Wágner para ameaçar o Deportivo, que teve Lara pela esquerda.

Pouco. Quase nada na disputa de baixíssimo nível técnico. Mas previsível e nada preocupante para a volta no Maracanã. Reverter o resultado é perfeitamente possível. Até provável. Precisando atacar, o Botafogo deve avançar os laterais e municiar Ferreyra. Se Bolatti voltar, a saída de trás tende a melhorar. No “abafa”, os chutes e cruzamentos de Jorge Wágner podem ser decisivos.

Esta é a boa notícia. A má é que o time do futebol vistoso, de Seedorf, Rafael Marques e Oswaldo de Oliveira não existe mais. O caminho de reconstrução é longo, mas pode acontecer com o Botafogo na fase de grupos da Libertadores.

Fonte: Blog Olho Tático - ESPN.com.br