O Botafogo é especialista em frear a empolgação de seus torcedores.

Neste domingo, o Alvinegro completa 114 anos de futebol. Desde a meia noite, uma enxurrada de mensagens lindas nas redes sociais. Declarações de amor, pensamentos otimistas e a vontade de embalar hoje para chegar com força e estádio lotado na quinta-feira. Tudo destruído aos 51 minutos do 2º tempo.

O jogo começou brigado e tenso. O Paraná, totalmente acima do tom – talvez pelo já iminente rebaixamento – entrava com truculência e rispidez nas divididas. Aos 29 minutos, Silvinho chutou Matheus Fernandes – que, infantilmente, tentou revidar. Maicosuel viu e o empurrou, iniciando uma grande confusão.

Depois de acalmar os ânimos, porém, só Matheus foi expulso – junto com o zagueiro Cléber, que agrediu adversários no meio da confusão. Silvinho e Maicosuel, no entanto, passaram ilesos. Assim prosseguiu a partida até o fim do primeiro tempo: muitas faltas e nenhuma qualidade técnica. Foi de doer os olhos.

O esporro no intervalo deve ter sido grande e o Botafogo voltou com outra postura para o segundo tempo. Pareceu lembrar que encarava o pior time do campeonato e colocou a bola no chão, rondando a área adversária e criando chances – todas desperdiçadas. Aí entra o dedo do técnico: sacando Leo Valencia e colocando Renatinho, Zé Ricardo mudou o jogo.

Em seus primeiros toques na bola, o meia mostrou muita eficiência e fez linda enfiada de bola para Luiz Fernando sofrer pênalti. Lindoso converteu, a torcida fez a festa e nós já projetávamos a classificação com essa importante vitória. A partir daí, a vaca começou a ir pro brejo: o time cansou, relaxou e recuou.

Aguirre, exausto, não conseguia segurar a posse de bola na frente. O auxiliar levanta a placa com inexplicáveis seis minutos de acréscimo. Ninguém respeita mais o Glorioso. Jean, que entrou para fechar espaços, mostrava estar fora de forma. Eis que, aos 51 minutos do segundo tempo, veio a porrada que todos, no fundo, já esperávamos.

Jean deu espaço, o volante deles – que bateu o jogo todo – avançou com a bola e, num último suspiro de desespero, chutou. A bola resvalou em Igor Rabello, matou o goleiro Saulo e morreu no fundo das redes. Aliás, morreu e matou toda a nossa empolgação nesse dia dos pais pré-decisão na Sul Americana. Em nosso aniversário, o Paraná chegou atrasado e ainda enfiou o dedo no bolo.

Não adianta terceirizar o problema. Pode reclamar do juiz que deu um tempo extra surreal, pode culpar o azar pela bola desviada; a verdade é que não se pode deixar chutar a última bola do jogo. Isso é básico até em pelada de casados e solteiros. Ao recuar, o Botafogo abdicou dos últimos minutos e foi castigado por isso.

Enterrou não só a nossa vitória, mas o ótimo clima no aniversário do clube e, principalmente, a empolgação – completamente sem motivo, diga-se de passagem – da torcida para o jogo contra o Nacional. Depois ninguém entende o afastamento da torcida nos últimos anos. Os erros se repetem e, claro, as consequências também. Você não pode esperar um final diferente se repete anualmente o início.

Em seu aniversário, Botafogo, eu desejo mudanças. Mudanças técnicas, táticas e, principalmente, administrativas. Um clube glorioso, vencedor e centenário não pode continuar sendo comandado por amadores depois de 114 anos. Os tempos são outros e a modernização é urgente.

Notas

Saulo: 6
Apenas assistiu o jogo, fazendo uma única defesa. Nenhuma culpa no gol.

Marcinho: 5,5
Errou na maioria das tomadas de decisão. No entanto, foi bem nos cruzamentos.

Joel Carli: 6,5
Líder nato, comandou a defesa sem maiores sustos e agiu como deveria no meio da confusão.

Igor Rabello: 6
Foi bem na marcação e ajudou na saída de bola. Deu muito azar ao desviar a bola no lance do gol, não teve culpa.

Moisés: 6
Ainda não é aquele lateral que nos acostumamos a ver no Carioca, mas foi uma boa válvula de escape na saída de bola.

Rodrigo Lindoso: 5,5
Displicente, preguiçoso e burocrático mais uma vez. Não pode mais ser titular incontestável. No pênalti, fez boa cobrança.

Matheus Fernandes: 3
Não teve muito tempo para mostrar futebol no período em que esteve em campo. Foi agredido, mas não pode revidar da maneira que fez – ainda que não tenha acertado em cheio. É muito jovem e vai aprender com esse episódio.

Rodrigo Pimpão: 5
Tecnicamente muito mal, matou bons ataques – principalmente no primeiro tempo.

Leo Valencia: 3,5
Uma de suas piores atuações pelo Botafogo. Errou tudo o que tentou e irritou com erros em passes simples, tropeço na bola em cobrança de falta, furada em domínio e viradas de jogo ridículas. Sua titularidade absoluta já passou do limite e gera até questionamentos.

Luiz Fernando: 4,5
Não foi bem nas jogadas individuais, como vinha fazendo nos últimos jogos. Perdeu dois gols de maneira ridícula; no primeiro, estava impedido. No segundo, cara a cara, chutou por cima. A bola pune.

Rodrigo Aguirre: 7,5
Sua melhor atuação até aqui. Bons passes, ótimas enfiadas de bola e bom aproveitamento nas disputas pelo alto, mesmo quando sozinho. Precisa de sequência.

João Pedro: 5
Sua presença sequer foi notada em campo. Contratação totalmente injustificada até aqui.

Renatinho: 8
Sua entrada mudou o time. Ótimos passes verticais e boa visão de jogo. Enfiada de bola precisa no lance do pênalti. Recuava para buscar a bola e articular o jogo a partir do meio-campo. Isso, sim, é um armador. Precisa ser titular e ter, no mínimo, a mesma sequência que deram ao chileno.

Jean: 3
Entrou para fechar espaços e fez o contrário. Aparentando estar pesado e muito mal fisicamente, chegou atrasado em todas as jogadas. Recebeu um amarelo desnecessário, errou passes, deu um chute bisonho e abriu para o adversário chutar a última bola do jogo. Atuação patética.

Zé Ricardo: 6
Pouquíssimo tempo para trabalhar, mas a boa postura em boa parte do segundo tempo tem dedo seu. Preferiu não mudar muito a estrutura do time, mas tenho certeza que fará isso aos poucos. Mandou bem ao colocar Renatinho e a ideia com o Jean foi boa. Apenas a entrada do João Pedro não foi uma escolha positiva. De resto, precisa de apoio e tempo para treinar o time.

Fonte: Blog do Pedro Chilingue - Preto no Branco - ESPN