Tentar escrever qualquer coisa sobre Nilton Santos é tolice: nunca conseguiremos resumir em palavras o que esse homem fez em vida. Homenagens são válidas, isso é óbvio, mas jamais chegarão perto dos feitos dele. O objetivo aqui, por ser um blog (do torcedor), é falar das ideias que vieram à minha cabeça nesse dia longo, esquisito e triste. Triste.

Já haviam partido Heleno, Carlito Rocha, Garrincha, João Saldanha, Quarentinha, Didi e Carvalho Leite, entre outros que eram símbolos do Botafogo. Mas, talvez, nenhum deles tenham tido a honra e a capacidade de personificar o Botafogo de maneira tão sublime como Nilton Santos. Nilton partiu ontem com 88 anos e não foi por acaso que alguns disseram que, com ele, ia parte do Botafogo.

Eu, nos meus 25 anos, até ontem só tinha ido a 2 velórios na minha vida. O 1º foi brabo, meu amigo. Em 2000 eu tinha 12 anos e soube pela primeira vez o que era a morte mesmo. Perdi meu avô materno, meu ídolo e exemplo de vida até hoje, com quem tinha estreita ligação; foi horrível. No 2º, em 2010, perdia a minha avó materna, outra guerreira e exemplo de vida. Mas aprendi, naquele dia, que a morte pode ser libertadora. Minha avó passou os últimos anos de vida bem doente, triste e sem mobilidade: muito diferente daquela mulher que, filha de imigrantes que vieram para o Brasil com pouco na mão ou no bolso, conseguiu se formar médica e trabalhar (em uma época/sociedade ainda mais patriarcal e machista). Independente por toda a vida, aquela mulher nunca aceitou depender dos outros para comer, ver uma televisão ou tomar um “banho”. No seu fim de “vida”, a morte era vista por ela como uma libertação daquela vida.

E eu parti com esse espírito para General Severiano na noite de ontem. Nilton estava bem doente e abatido nos últimos anos. Pensava que a morte dele não deveria ser encarada apenas com o “egoísmo” dos que ficam: por que não pensar que pode ser bom parar de sofrer?

Mas enquanto eu esperava lá fora pelo Thiago e pelo Fernando, amigos que também foram ao velório, eu reencontrava um pouco da tristeza, aquele sentimento do “meu” 1º velório.

Começava a sentir mesmo a perda. E a existência de vagas em frente à sede de General Severiano alertava sobre uma tristeza maior que viria.

Eles chegaram; nós entramos.

Já eram 10 da noite, mas reparamos e comentamos sobre o número reduzido de pessoas lá dentro. Aquilo sim dava tristeza. Profunda, eu diria.

E então eu descobri uma nova faceta da morte, além da tristeza e da libertação, que eu já havia conhecido. A morte pode ser reveladora.

Sem entrar na discussão (que não tem fim) do que acontece com quem morre, a morte de alguém pode revelar muita coisa para quem fica. Histórias, sentimentos e caminhos: muita coisa pode ser descoberta após um acontecimento tão marcante que é a morte.

Quis acreditar que o fato de ser de noite atrapalhou o deslocamento das pessoas para Botafogo. Mais que isso: com a decisão da Copa do Brasil no Maracanã, o nó no trânsito era sentido desde cedo em qualquer parte da cidade.

Mas mesmo com a notícia da morte de Nilton dividindo espaço na mídia desde cedo com a decisão da Copa do Brasil e com a queda do guindaste em Itaquera, era para ter mais gente.

Aquele clima estranho no velório e aquelas poucas pessoas presentes revelavam e escancaravam (mais uma vez) a crise de identidade vivida pelo botafoguense.

Nilson só vestiu a amarela da seleção e a nossa camisa. Aliás, foi o que mais vezes vestiu a nossa camisa. Revolucionou o futebol, esteve no time do século da FIFA, foi um dos grandes responsáveis pela contratação de Garrincha… Foi gênio, foi lenda. E gênios e lendas não morrem; viram Estrela.

Não podemos deixar que o Botafogo (ou parte dele) se vá com o corpo de Nilton. E comentávamos, no velório, como era triste e estranho ver aquelas poucas pessoas. E a existência das vagas ali na frente de General Severiano já antecipava essa triste constatação.

Esse fato triste que é a partida (do corpo) de Nilton, eu acho, pode e deve servir como ponto de inflexão para a instituição Botafogo de Futebol e Regatas.

Precisamos cuidar do que é nosso; viver o Botafogo.

Ir ao velório/enterro de Nilton é um “dever moral e cívico” de todo botafoguense. E aquele lindo salão nobre do Botafogo pouco cheio martelava a minha cabeça.

É hora de mudar, de se aproximar.

Não temos a maior torcida do Brasil, mas estamos longe de ter a menor. Precisamos fazer mais que os outros. Ser mais produtivos, mais fanáticos, cantar mais alto, se importar mais, consumir mais, viver mais. É o espírito do espartano que vai combater o persa.

Costumo dizer que o Botafogo é refém de um passado Glorioso. E infelizmente tem quem se acomode e se sustente com isso. Precisamos cultuar e respeitar o passado porque é por causa dele que somos Botafogo, mas sempre olhando para frente: precisamos voltar a crescer.

Cultue o passado. Se você morar no Rio e puder, não deixe de ir ao velório ou ao enterro de Nilton. O corpo dele continuará a ser velado hoje (28/11) em General Severiano a partir das 7h, onde deve ficar até o início da tarde (oficialmente até às 15h, mas eu tentaria chegar antes). De lá, o corpo seguirá para o Cemitério São João Batista, ali mesmo em Botafogo, onde o enterro acontecerá às 16h.

Ajude a (re)construir o Botafogo do futuro. Nós somos o Botafogo, e não podemos simplesmente esperar que façam ou que mudem o Botafogo por nós. É comparecendo na arquibancada, comprando produtos oficiais, se associando, consumindo e vivendo mais o Botafogo – é assim que se ajuda de forma efetiva (morando no Rio ou longe dele).

É claro que não está tudo nas mãos do torcedor. Por maior que seja o papel dele, o Botafogo (isso é: quem tem poder lá dentro) precisa sempre fazer e crescer mais.

É claro também quem qualquer coisa que acontecer em campo nos próximos dias não vai apagar a dor da perda de Nilton.

Vi muita gente falando que ir a Libertadores pode ser uma homenagem a Nilton. Discordo. Voltar a Libertadores, para mim, é apenas um (grande) passo para fazer esse clube crescer de novo. E o crescimento desse clube, penso, é que seria uma homenagem ao gigante Nilton Santos.

Aliás, pouco antes de sair do velório, finalmente fui olhar de perto o corpo de Nilton. Pedi, de onde é que ele estivesse, que (nos) ajudasse (de novo) a colocar o Botafogo no alto do futebol mundial. Com o trabalho em General Severiano, com a nossa torcida e participação, além da força dele, de Mané e de tantos outros lá de cima, não tem como dar errado.

Parabéns a quem foi e quem irá prestar essa última homenagem ao corpo de Nilton. Parabéns, aliás, a quem o cultuou em vida e a quem o ajudou.

Acho que o presidente deveria ter adiado o compromisso (ou faltado) que tem na Suíça (com a FIFA) – não quero criar polêmica, pois confesso não saber da urgência da viagem ou do compromisso, mas penso que o presidente do BFR deveria estar presente nesse momento tão importante (e triste) da nossa história. Mas há informações que Maurício já tinha feito ou estava fazendo check-in.

Foi legal ver e saber, no entanto, que estiveram presentes dirigentes e conselheiros como Sérgio Landau, Chico Fonseca, Thiago Cesário Alvim, Paulo Mendes, Caio Calumby, André Silva, João Moreira Salles (que ajudou e visitou muito o Nilton), entre outros. Legal ver também funcionários do clube presentes e prestando homenagens.

E nada pode se falar de algum descaso por parte do Botafogo (ou dessa diretoria) em relação ao fim da vida de Nilton. Nosso gênio da lateral esquerda teve um fim de vida bem digno, com o Botafogo (e muitos botafoguenses, diga-se de passagem) pagando seus tratamentos e confortos. Nilton, aliás, foi bem homenageado em vida.

Por fim, é certo que acontecerão homenagens e ações relembrando os feitos de Nilton Santos nos próximos dias e, é claro, no último jogo do Brasileiro no Maracanã (contra o Criciúma – e precisamos ir ao estádio). Seria legal alguma festa diferente na arquibancada, uma ação envolvendo a camisa de Nilton Santos (que tal, quem tiver, ir com a camisa dele?) ou ativações partindo do clube (colocar o ingresso a R$ 6 pode ser legal)… Assim que souber, postarei aqui. As torcidas organizadas também devem combinar alguma ação, e podem contar comigo para organizar e divulgar. E temos que batalhar para tirar o nome de João Havelange do Engenhão – Nilton merece 6 milhões de vezes mais.

Descanse, Nilton. “Obrigado” é pouco por tudo que você fez por nós e por esse Botafogo. Sua história se confunde com a do clube, aliás; você sabe.

Que a morte, naquela faceta da revelação, nos ajude a mostrar (novos) caminhos para o Botafogo. E Nilton sabia muito bem como fazer coisas pelo Botafogo.

Nilton Santos, o grande Nilton Santos, esse não morreu nem morrerá nunca; só o seu corpo que se foi. Gênios e lendas não morrem. E é por isso que tenho fé e esperança que essa última partida dele seja um ponto de mudança na história centenária desse clube. O Botafogo também não morre. O Botafogo não pode morrer.

Obrigado, Enciclopédia.

Fonte: Blog Bate-Bola Alvinegro - Globoesporte.com