Campeão da Conmebol 1993 assassinado: a tragédia de Clei

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A madrugada de 6 de dezembro de 1996 foi a hora errada para Clei. A altura do número 188 da travessa Dona Maria, em Nilópolis, foi o lugar errado. Na hora errada, no lugar errado, o jovem lateral-esquerdo do Botafogo, aos 22 anos, foi assassinado com um tiro na cabeça. Três temporadas antes, ele havia conquistado a Taça Conmebol com a camisa alvinegra, título que completa duas décadas nesta segunda-feira – esta reportagem abre uma série especial de textos sobre a conquista.

O jogador foi vítima de uma pólvora que não lhe pertencia. Junto com ele, morreu seu primo Wander, o verdadeiro alvo dos bandidos. Executado no banco dianteiro de seu automóvel, o atleta deixou noiva, pais e dois irmãos. E uma carreira promissora.

 Clei, ex-jogador do Botafogo (Foto: Arquivo Pessoal)
Clei nos tempos de Botafogo: foram três anos como profissional (Foto: Arquivo Pessoal)

Clei Alves Pinto, nascido em 21 de abril de 1974, disputou 45 partidas pelo Botafogo, cinco delas no título da Conmebol. Marcou um gol pelo clube. Também defendeu Ituano e Madureira. Era alto e forte – mas também leve. Tinha cabelo escuro, por vezes com cachinhos nas pontas, e um bigode que gerava provocações dos colegas, que insistiam em cortá-lo. “É para impor respeito”, dizia ele aos jogadores.

A carreira de Clei não estava em seu melhor momento na época em que ele foi assassinado. O lateral havia sido emprestado duas vezes pelo Botafogo. Era reserva. Mas a desesperança foi interrompida em 5 de dezembro de 1996 por uma notícia que poderia mudar sua história no clube alvinegro. Ele estava radiante naquele dia. Menos de 24 horas depois, porém, sua vida estaria encerrada, em um caso que o GLOBOESPORTE.COM reconstitui abaixo.

O melhor dia também foi o último

 Clei, ex-jogador do Botafogo (Foto: Arquivo Pessoal)
Clei sonhava com dias melhores no Botafogo quando foi assassinado (Foto: Arquivo Pessoal)

A Travessa Dona Maria é uma via simples, de casas modestas e comércio básico, na divisa dos bairros Olinda e Cabral, em Nilópolis. É o típico cenário da periferia de grandes cidades, onde todo mundo se conhece, cães ladram atrás de portões de ferro e crianças correm por ruas onde os carros não chegam a ser abundantes. Naquele lugar, em uma casa hoje pintada de cor abacate, Clei escutou no rádio que Joel Santana seria o novo técnico do Botafogo.

Era um presente do destino. Joel, justamente Joel, justamente o primo de seu Irineu, pai de Clei, seria o novo treinador alvinegro. Estava na cara: era a chance de uma valorização maior, de uma renovação de contrato. O jogador olhou para dona Wilma e disse para ela: “Mãe, acabaram os problemas. Daqui para a frente, tudo vai melhorar.”

– Era o dia em que ele estava mais contente – recorda a senhora de 66 anos, de fala mansa, simpática, mas que carrega no olhar aquela tristeza que parece exclusiva a quem já perdeu um filho.

Clei, eufórico, passou o dia na praia. Mais tarde, foi à casa da noiva, Soraia. Ficou a seu lado até cerca de 3h, quando despediu-se dela. Para sempre.

A casa de Soraia era próxima à casa de Clei. Questão de metros. No meio do caminho entre elas, ficava o Beto’s Bar, de propriedade da família do jogador – local de esquina onde as pessoas do bairro ainda se reúnem para tomar cerveja em cadeiras vermelhas na calçada e jogar conversa fora, observados por um pássaro preso em uma gaiola fixada na parede.

Clei parou ali. Comeu um misto quente e tomou refrigerante. Foi aí que Wander, seu primo, pediu carona para casa.

Eles moravam praticamente juntos, em um espaço dividido dentro de um mesmo terreno: Wander à direita de quem olha da rua, Clei, seus pais e seus irmãos à esquerda. O primo fazia segurança em bailes funk. Por vezes, era violento. Tinha inimigos.

Wander não ia para casa de carro. Deixava seu veículo estacionado perto do bar. Foi por isso que pediu carona para Clei. Vitor, outro primo, se ofereceu para levá-lo. Clei disse que não precisava, que ele mesmo esperaria. E foi para seu automóvel, modelo Monza, cor vinho, placa LKB 8619. Lá de dentro, viu Wander ser alvejado por dois homens. E foi, ele próprio, baleado.

O automóvel do lateral estava com problemas no arranque. O grito de “Volta, Clei!”, o último da vida de Wander, não surtiu efeito. Foram três tiros na direção do jogador, um deles certeiro, na cabeça. O relógio, por causa de um gesto automático de proteção, foi quebrado por uma bala. O atleta ainda foi socorrido. Em vão.

Clei foi assassinado porque estava no lugar errado e na hora errada – e com a companhia errada. Foi quem melhor viu os executores de seu primo e, por isso, acabou executado também. Um dia que começara tão bem, com esperança de um futuro melhor no Botafogo, terminava em tragédia.

Passados 17 anos do crime, a reportagem do GLOBOESPORTE.COM foi à travessa Dona Maria. O assunto ainda é de conhecimento de todos por ali. É curioso que, mesmo tanto tempo depois, as pessoas ainda se sintam receosas de esmiuçar a história. Dizem que um dos assassinos foi executado pouco tempo depois, como vingança inclusive pela morte de Clei. Garantem, todos, que o jogador foi uma vítima absolutamente inocente. O mesmo atestam os jogadores campeões da Conmebol de 93 com ele.

O atleta

 Clei, ex-jogador do Botafogo (Foto: Arquivo Pessoal)
Clei (D) nos tempos de futebol de salão no Vasco (Foto: Arquivo Pessoal)

Com dez anos, Clei começou a jogar futebol de salão no Ideal Esporte Clube, perto de casa, em Nilópolis. Dali, rumou para o Vasco, clube de seu coração. Na passagem para o campo, preferiu o Botafogo. Era mais perto de seu bairro.

A ascensão foi rápida. E foi facilitada pela enorme dificuldade financeira do Botafogo. Em crise, o clube teve que recorrer aos jovens formados na base e a atletas baratos para formar a equipe que disputaria a Conmebol – fruto da vaga conquistada pelo vice no Brasileirão de 1992.

A estreia de Clei foi ainda em 92. Com 18 anos, ele participou da derrota de 1 a 0 para o Madureira, pelo Campeonato Carioca, em 24 de setembro. Mas foi na temporada seguinte que se firmou mais no time. E especialmente com Carlos Alberto Torres, um especialista da função, como treinador.

O Botafogo apostou no capitão do tricampeonato mundial para comandar o time na Conmebol. Carlos Alberto logo viu potencial no jovem Clei.

– Ele era uma grande promessa da posição de lateral. Era bastante técnico, com disposição para o ataque. Dava passes, servia de desafogo para o time. E foi muito importante a presença dele na Conmebol. O Clei teve muita regularidade. Era um cara muito disciplinado. Era realmente um jogador com um grande futuro – comentou o comandante do título de 20 anos atrás.

 Clei, ex-jogador do Botafogo (Foto: Arquivo Pessoal) Pelo Botafogo, Clei disputou 45 partidas e marcou um gol (Foto: Arquivo Pessoal)

Clei disputou cinco jogos na campanha do título da Conmebol. Entrou no decorrer da vitória de 3 a 0 sobre o Caracas e da derrota de 3 a 1 para o Atlético-MG. E foi titular na vitória de 3 a 0 sobre o Galo e nos dois jogos da final, os empates por 1 a 1 e 2 a 2 com o Peñarol. Na finalíssima, porém, saiu lesionado com dez minutos de jogo.

Os colegas daqueles tempos lembram de Clei como jogador mais propenso ao ataque, de bom cruzamento e bastante técnico. São unânimes em dizer que havia um futuro de sucesso para o garoto.

– Ele era muito técnico. Muito mesmo. E muito ofensivo. Hoje, não tem um jogador como era o Clei. Ele vinha do futebol de salão. A bola ficava presa no pé dele – recorda o também lateral Eliomar, que entrou na final justamente no lugar de Clei.

 Clei, ex-jogador do Botafogo (Foto: Arquivo Pessoal)
Clei (E) com a taça da Conmebol de 1993 (Foto: Arquivo Pessoal)

O ex-zagueiro André Santos tem opinião parecida. Para ele, Clei poderia ter chegado à Seleção.

– Acho que o Clei já era um jogador acima do tempo dele. Hoje, se exige um lateral que vá ao fundo, que cruze, que marque nos 90 minutos. Ele já tinha todas essas características. Hoje, seria jogador de seleção brasileira. Tinha muita força e muita técnica.

Com os companheiros, Clei era um sujeito tímido, amistoso. Falava pouco. Era atleta de Cristo.

– Era um menino quieto, caladão. Ele falava que aquele bigodinho que ele usava era para impor respeito. E a gente brincava que era para ele raspar o bigode. A gente falava assim: “Como impor respeito, se não fala?”. Ele era tranquilaço. Era um menino maravilhoso – lembra o ex-meia China, outro campeão da Conmebol.

Depois do título continental, pouco a pouco, Clei começou a perder espaço, consequência do maior investimento do Botafogo em atletas experientes. Alguns deles seriam campeões brasileiros em 1995, quando o jovem lateral não estava mais no clube. Seu último jogo com a camisa alvinegra foi em 29 de outubro de 1994, a derrota de 5 a 2 para o Sport pelo Campeonato Brasileiro. Em 95, ele foi emprestado ao Ituano; em 96, foi para o Madureira. E aí retornou ao Botafogo, onde não jogou mais. Em sua passagem pelo clube, fez um gol, em 31 de julho de 1994, em vitória de 1 a 0 sobre o Barra da Tijuca pelo Torneio Internacional Eduardo Paes.

 Clei, ex-jogador do Botafogo (Foto: Arquivo Pessoal)
Clei (primeiro à direita) com os colegas de Botafogo no ônibus (Foto: Arquivo Pessoal)

O jogador chegou a ensaiar uma transferência para o Vasco, jamais concretizada. Quando morreu, não sabia se ficaria no clube. Queria uma renovação contratual, com um salário melhor, e foi por isso que comemorou tanto a iminência da chegada de Joel Santana como técnico – ele poderia influenciar no processo.

– Ele dizia que ia pedir duas casas ao Botafogo na renovação, uma para ele e outra para mim. Mas não teve tempo. Foi tudo muito triste. É muito duro conviver com essa dor – afirmou dona Wilma.

A mãe de Clei diz que o Botafogo deu um pequeno auxílio financeiro à família na época de Clei, mas depois cortou laços. Ela segue morando na casa onde viveu com o filho até o dia de sua morte. Nas paredes, há imagens do jogador. Na quinta-feira, quando a reportagem esteve lá, Wilma estava preocupada com Irineu, o pai de Clei, em recuperação por causa de um enfarte.

– Ele adora conversar sobre o Clei. Era o orgulho da vida dele – contou ela, com uma foto sua e do filho nas mãos.

mãe de  Clei, ex-jogador do Botafogo (Foto: Alexandre Alliatti)
Dona Wilma segura imagem do filho: dor persiste após quase 20 anos (Foto: Alexandre Alliatti)


Fonte: Globoesporte.com
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