Conmebol: ‘Capita’ comprou bolas e em treino ‘dispensou’ time

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Carlos Alberto Torres foi um dos maiores laterais-direitos da história. Capitão de uma das melhores equipes da história. Descrever o currículo do ‘Capita’ é desnecessário para qualquer entendedor do futebol. E o elenco do Botafogo campeão da Copa Conmebol de 1993 tinha noção do que o treinador representava. Com tamanha experiência, Carlos Alberto foi essencial naquele título. Só pela técnica, seria difícil.

O ‘Capita’ ajudou com o possível e o impossível. Comprou bolas, deu apoio financeiro a alguns jogadores, administrou as dificuldades do dia a dia como pôde. Ajudou até ao dispensar o time no meio do treino por ver que a equipe não rendia. Fez um grupo que simplesmente não marcava gols no Campeonato Brasileiro ser campeão continental.

Carlos Alberto e William Bacana Botafogo Conmebol 1993 (Foto: Julio Cesar Guimarães / O Globo)
Carlos Alberto Torres comemora o título com Willian Bacana (Foto: Julio Cesar Guimarães / O Globo)

– Uma das questões que fez com que chegássemos até a final foi o Carlos Alberto, que tinha ganhado tudo da vida. Ele sempre dizia que era para passar “por cima deles”, que acreditava no grupo. Nem sei se era verdade, se ele acreditava mesmo… Quando perdemos para o Atlético-MG, depois do jogo, dentro do vestiário, criamos aquele propósito de que íamos para cima dos caras – lembrou o zagueiro André, relatando o momento de união da equipe.

Carlos Alberto Torres lembra com alegria daquela campanha. Os detalhes que conta revelam que a conquista da Conmebol de 1993 tem um espaço nobre em seu vasto currículo de campeão. Em uma conversa com o GLOBOESPORTE.COM, o comandante do único título internacional oficial do Botafogo revelou um pouco sobre os segredos que levaram aquele desacreditado time à conquista.

O que pode dizer daquele time?

O time era muito modesto. Todo mundo sabia das nossas possibilidades, que eram poucas. Não era tecnicamente excelente, foi formado, em sua maioria, devido à situação financeira do time. Depois da saída do Emil (Pinheiro, presidente em 1992), ele deixou de botar dinheiro. Não tinha dinheiro para montar o time. Trouxemos alguns jogadores emprestados, o Sinval, Eliel, Suélio. E tudo foi arranjado na base da amizade dos nossos diretores. O restante saiu da base, caso do Clei, Eliomar, Rogério, André, Marcelo, Willian.

E as dificuldades extracampo, como o senhor administrou para não atingir o grupo?

A nossa relação era de vamos um por todos e todos por um. As condições financeiras eram muito difíceis. Não tinha grana, então vamos lá, vamos ver o que dá para fazer. Sempre pedíamos à diretoria para dar compensação, por menor que fosse. Os jogadores sempre entenderam o momento, e assim seguíamos. Não tinha nem concentração, não dava para pagar. Mas todo mundo entendia a situação e levava a sério. A gente dava total liberdade para os jogadores.

Botafogo homenagem título 1993 (Foto: Nina Lima / Agência O Globo)
O ‘Capita’ também esteve na homenagem do Botafogo aos 20 anos do título (Foto: Nina Lima / Agência O Globo)

Alguns jogadores relataram que o senhor chegou a comprar bolas para os treinos…

É, teve alguma ajuda, sim. O clube estava em uma fase muito difícil. Depois que o Emil saiu, de repente o clube ficou em situação complicada. O Botafogo me chamou, eu aceitei e sabia que o clube passava por aquele momento. De qualquer maneira, aceitei e queria colaborar. Eu tinha situação melhor que todo mundo e não me recusava a ajudar um ou outro jogador, que sempre chegava dizendo: ‘Ô, professor, tô precisando de tal coisa, minha situação não está bem lá em casa’. Mas foram poucos. Também teve essa situação da bola. O clube não tinha bola, eu mandei comprar bolas, senão a gente não treinava.

Teve até a excursão para o Caribe, organizada pelo senhor. Como foi essa história?

Quando cheguei ao Botafogo, eu já tinha um convite de um empresário amigo meu para levar um clube para realizar dois amistosos em uma ilha francesa, Martinica, no Caribe. Eu nem cheguei a falar com nenhum clube, o Botafogo coincidentemente me contratou na época. Falei com a diretoria que gostaria de levar o Botafogo para esses dois jogos, que a situação já estava certa com os amigos meus. O Botafogo nem precisou me pagar. Eu me paguei. Levei o Botafogo e tirei uma parte da cota para mim e distribuí a outra parte para todos os jogadores.

Carlos alberto torres capitão do tricampeonato (Foto: Janir Júnior)
Carlos Alberto Torres: ‘Tem que dar exemplos, e eu tenho mil exemplos na vida’ (Foto: Janir Júnior)

O Sinval disse que certa vez o senhor parou um treinamento, de tão ruim que o time estava. Teve isso?

É, realmente. Não foi só uma vez. A produtividade estava ruim, o resultado não ia ser o esperado, então falei para irem embora. Depois volta e tenta fazer bem. Mas é claro que não era toda hora, foram umas duas vezes só. Temos que usar desses artifícios, os jogadores obedeciam muito. É a atitude de boleiro, e o jogador entende. Entende o lado do treinador, que é bacana, que está junto com o time. Eles entenderam aquilo como se fosse uma coisa como tentativa do treinador de ver seu time melhor.

E como funcionava esse jogo psicológico? Como o senhor fez aquele time acreditar que era possível?

Agindo com honestidade, conversando com eles, usando experiência, dando conselhos, dando exemplos. Tem que dar exemplos, e eu tenho mil exemplos na minha vida. Os jogadores acreditam naquilo que estava passando. Sem dúvida nenhuma, confiavam muito em mim, acreditavam na minha mensagem. Isso era uma situação confortável que eu tinha no comando. Conseguimos tudo na base do entusiasmo, e eles sempre mostraram muita dedicação, determinação. Tecnicamente, diríamos que éramos muito inferiores a todos os times, mas, por exemplo, revertemos um placar de diferença de 3 a 1 para o Atlético-MG. Aí entrou o nosso 4-2-4. Não adianta nada se preocupar com defesa, tínhamos que fazer gol. Eu fiz todo mundo entender que aquilo era necessário. Os jogadores seguiram aquilo que foi combinado e conseguimos o que muita gente achava que era impossível.

Fale um pouco mais sobre esse duelo com o Atlético-MG. Foi o momento mais difícil?

Com certeza. A desvantagem era grande. Acreditamos muito, nos unimos mesmo. Naquele dia, fizemos reunião antes do jogo, e falei com eles: “Hoje é calça de veludo ou bunda de fora.” Fomos no 4-2-4, tinha que ter quatro jogadores no ataque e só dois no meio. Quando estiverem sem a bola, não tem número. Não tem esquema. Não conheço time que quando está sendo atacado tem número. E todo mundo fez isso. O Atlético teve chances nos contra-ataques, mas todo mundo voltava na base do entusiasmo, e complicamos as ações deles. Todo mundo pegando firme, chegando firme, e a torcida ajudou.

Aquele 4-2-4 funcionaria hoje?

Depende da conscientização dos jogadores. Na minha opinião, essa coisa de número, quando o time está sendo atacado… nunca vi esses números. Seis, sete, em qualquer esquema de jogo, 4-2-4, 3-5-2, é relativo… mas eu não me ligava para número. Eu falava para os jogadores que o importante é quando tem a posse de bola. Vamos sair organizadamente para o ataque, vamos sair sem medo. Eles que têm que ter medo, porque a posse é nossa. Quando perdermos a bola, e eles estiverem vindo para cima, aí tem que esquecer. Tem que voltar todo mundo. Foi isso que fizemos, jogar sem medo. Sabíamos que nossa possibilidade era pequena.

Nos dois jogos da final, o senhor usou o 4-2-4 novamente. Valia todo o risco?

Se eu disser que éramos favoritos, vou falar uma mentira. Não tínhamos time para ganhar. Tínhamos jogadores de bom nível, mas muito, muito inexperientes. Pouca gente acreditava que a gente podia. O Peñarol entrou e só se defendeu, não tínhamos chance nenhuma de ganhar, mas fiz disso a nossa grande arma. E todo mundo seguiu o que foi planejado. No segundo jogo tomamos gol do Penãrol no fim. O nosso time era jovem, se fosse mais experiente talvez tivesse essa preocupação maior de se defender e segurar o resultado. Eu ficava gritando do lado de fora: ‘Segura!’, mas tinha jogadores de defesa que começaram a ir para frente. Estávamos com o jogo nas mãos, mas valeu. Fomos para os pênaltis e o Willian (Bacana) salvou a pátria.

O senhor sente que esse título é desvalorizado?

Eu acho que a valorização está no nosso sentimento, até mesmo pela condição do time, que entrou em uma competição que tenho certeza que a cada 10 pessoas que eram perguntadas sobre a capacidade daquela equipe, nove acreditavam que não sairia vencedora. Mas os jogadores mostraram muita dignidade, conseguimos um título que está na história do Botafogo. É o único título internacional até hoje. O Botafogo já teve grandes times, ganhou vários torneios, até internacionais, mas amistosos, nada oficial. A gente valorizou intimamente, porque, se não fosse dessa forma, ninguém ia valorizar.

Se fosse um título conquistado por grandes ídolos do Botafogo, como Garrincha, Didi, Nilton Santos, Zagallo, seria diferente?

Penso que sim. O próprio peso dos jogadores faz com que a história seja diferente. Mas quando se conquista um campeonato de peso internacional, deveria haver uma consideração maior.

E para o senhor, que foi capitão de um dos melhores times da história, com todo o prestígio que tem, qual o peso desse título na sua carreira?

É muito importante. Sempre vai para o currículo um título internacional, principalmente pelo fato de ter sido inédito. Já faz um tempo que não trabalho como treinador, e mesmo assim ainda me encontro com jogadores, treinadores, torcedores nos jogos, e até hoje muitos vêm e me agradecem o fato de eu ter sido o técnico daquele conquista. Para mim, vale muito.



Fonte: Globoesporte.com
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