Fernando Camilo Farias, mais conhecido como Camilo. 30 anos, natural do Rio de Janeiro e atualmente camisa 10 do Botafogo. Embora seja filho de nordestinos, Camilo foi criado na Cidade de Deus, uma das maiores favelas da cidade carioca. Lá, o pai do jogador tinha um bar, onde o menino sonhador teve que trabalhar para ajudar a família. Por falar em parentes, o meia é o primogênito entre os cinco irmãos.

Quem o acompanha, não imagina os obstáculos que teve que superar para chegar onde está. Com dificuldades financeiras, Camilo, em suas férias, chegou a trabalhar com vans, em alguns momentos catou latinhas na praia, local onde recorria para manter a forma física. Nos anos 2000, jogador do América, ainda na categoria júnior, Camilo foi rejeitado por Flamengo e Vasco. Sem espaço nos times cariocas, Camilo foi tentar a sorte em São Paulo, onde se tornou jogador profissional no Marília.

Após 54 jogos e sete gols na equipe paulista, Camilo se transferiu para o Cruzeiro, e depois rodou por diversos clubes brasileiros, uma rápida passagem pelo Shanghai Shenxin, da China, e chegou à Chapecoense. Foi lá, em Chapecó, em 2015, que Camilo teve o seu melhor momento na carreira. Chamou a atenção dos árabes e foi jogar no Al-Shabab. Depois de 10 partidas na Arábia Saudita, Botafogo foi atrás do meia para repatriá-lo. E, finalmente, chegou o tão esperado sonho: atuar em um grande time no Rio de Janeiro.

Bem-humorado e feliz com o momento que vive no Rio de Janeiro, Camilo concedeu uma entrevista emocionante ao portal do Esporte Interativo. O jogador falou um pouco sobre a sua trajetória, revelou detalhes da sua ajuda para recuperar o pai, que se envolveu com drogas, e comemorou o ótimo começo no Botafogo.

Rejeitado no Flamengo e no Vasco. Início no América. Um dia imaginou fazer sucesso no Botafogo?

“Sempre sonhei em vestir uma grande camisa aqui no Rio. A situação que aconteceu no Vasco e no Flamengo era época de júnior. Eu tinha contrato com a empresa do Carpegiani (atual técnico do Coritiba) e a gente tentou fazer um acordo com ambas as equipes, mas não teve sucesso. Independentemente disso, eu, quando era do América, sempre pensava em jogar em time grande  aqui do Rio de Janeiro. E foi acontecer só agora, com 30 anos. Por isso estou dando tudo de mim. Vou fazer de tudo para ser reconhecido aqui no Botafogo. É gratificante”.

Talvez seja difícil falar sobre o assunto. Mas como foi ajudar o seu pai, que era alcoólatra?

“O futebol te deixa muito calejado e maduro. Quando eu era mais novo, não tinha um relacionamento muito afetivo com o meu pai. Apesar de estar presente. Eu vi a oportunidade mudar a história. Ele não tinha mais saída. E eu, como filho, não podia virar as costas para aquela situação. Eu estava no Chapecoense, né. E eles (os funcionários e o clube de Chapecó) também abraçaram a causa para ajudá-lo (o pai). Graças a Deus deu tudo certo. Hoje ele está super feliz e totalmente liberto deste vício. Ele adora acompanhar o Botafogo, me manda mensagem antes dos jogos do Botafogo. Hoje temos uma relação muito boa. Uma relação de pai e filho. Espero continuar dando alegria para ele”.

Por ser o irmão mais velho dentro os cinco filhos, você, muitas vezes, exercia o papel de pai em casa. Como foi essa experiência?

“As dificuldades eram muito grandes , né. Tenho quatro irmãos e eu sou o mais velho. Quando tinha a oportunidade de ajudar em casa, eu ajudava. Eu tentava ajudar todos com dever de casa. Lá na Cidade de Deus (favela do Rio de Janeiro), meu pai tinha um bar, onde eu ficava muitas vezes ajudando o meu pai. Quando estava nas minhas férias eu trabalhava com van, sendo o cobrador. Tive a oportunidade de catar latinhas. Eu ia para a praia fazer exercícios físicos para manter a forma e aproveitava para catar latinhas e fazer um dinheiro para ajudar em casa. Então…eu carrego isso como motivação. Isso deixa a gente calejado. Hoje eu chego aqui e dou o meu melhor. Batalhei muito para conquistar isso e por isso tento ser o melhor o tempo todo”.

Por ter passado por essas dificuldades, você disputa cada bola como se valesse um prato de comida?

“Claro. Quando eu estou em campo vou dar o meu máximo. Briguei muito para estar onde estou. Quando não estou bem em um dia tecnicamente bom, vou querer mostrar vontade. O fato de eu ser meia ofensivo, creio que eu tenha que brigar em campo por todas as bolas e, assim, poder motivar o restante dos jogadores”.

Seu pai torce para o Botafogo. Esse fato pesou na sua vinda para o clube carioca?

Sim, claro. Mas o fator de jogar no Rio de Janeiro, cidade onde estava longe há 12 anos, pesou bastante também. Vestir uma grande camisa na minha cidade, né. Eu estou feliz, o meu pai está feliz. Ele é botafoguense e o meu irmão também. Por isso, a família toda está feliz (risos)”.

Ele te fez uma surpresa e compareceu no último jogo do Botafogo, contra o Sport, em Juiz de Fora. Ficou feliz por essa atitude dele?

“Estava na concentração e de repente recebi uma mensagem dele me avisando que estaria presente no estádio. Eu não acreditava, porque o jogo era tarde, né (às 21h). E depois para ele voltar ao Rio de Janeiro seria difícil, né. Ele não me respondeu mais, mas ao fim do jogo ele foi falar comigo e foi uma emoção vê-lo lá.Eu fiz um gol e nem sabia que ele estava lá. É legal isso. Eu até brinco com ele dizendo que ele é o amuleto. Todos os jogos que ele foi a gente não perdeu. Ele está dando sorte. Espero que ele continue dando sorte para o Botafogo”.

Por que o casamento Camilo e Botafogo deu tão certo?

Acho que o trabalho. Fui muito bem acolhido no grupo. Todos os profissionais me deram todas as condições para trabalhar e fazer o melhor possível. E tem a minha dedicação também. Sempre sonhei com essa oportunidade e não quero fazer mais ou menos. Como eu disse, vou buscar fazer o melhor em todos os jogos. Vou fazer de tudo para ajudar o Botafogo atingir os objetivos”.

Na semana que você chegou encontrou um clima pesado no clube. Inclusive, a torcida invadiu o treino para cobrar os jogadores. Feliz em ajudar o clube a sair dessa tensão?

“Bem melhor. Às vezes dá um choque, né. Eu cheguei e encontrei um clima muito pesado. Torcedor invadindo treinamento…e a gente pegou isso como um desafio para ajudar os companheiros e as coisas acontecerem. Até agora estamos conseguindo isso, né. Embora estivéssemos na zona de rebaixamento há pouco tempo. Mas espero que o time ainda vá crescer na temporada”.

A principal virtude do Camilo?

“Batalhador. Um cara batalhador. Uma pessoa que jamais desiste dos seus objetivos. Esse sou eu”.

Por que não cortar o cabelo?

“É uma marca, né (risos). Minha filha quer que eu corte. Ela tem fotos minhas de cabelo curto e me acha mais bonito de cabelo cortado. Mas não quero cortar. É a minha marca, po. (risos). Sou reconhecido pela cabeleira. Vou manter esse estilo por um bom tempo. (risos)”.

Qual é o objetivo do Botafogo no Campeonato Brasileiro?

“Eu cito que a gente tem que ser realistas. Estamos perto da zona ainda. Temos um jogo super difícil agora fora de casa. Temos que manter a regularidade no campeonato para depois pensar em algo. Acho que é muito cedo para falar sobre isso. A gente está trabalhando forte. Tivemos uma longa semana de trabalhos e podemos ajustar os últimos detalhes. Um passo de cada vez, né (risos)”.

Fonte: Esporte Interativo