O sub-20 daqui é o sub-19 de lá, último degrau antes do time profissional, o momento de serem feitos os últimos ajustes para entrar o mundo dos homens. Nessa etapa, o futebol brasileiro se afasta do alemão como a própria diferença na semifinal da Copa. Com até o dobro de partidas oficiais, os garotos daqui estão expostos a um calendário extenuante que privilegia a quantidade em detrimento da qualidade até de treinos.

Referência no futebol carioca nas categorias de base, o sub-20 do Fluminense disputará em 2014 nada menos do que seis competições oficiais: Copa São Paulo, Carioca, Torneio Octávio Pinto Guimarães, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil e Taça Belo Horizonte. Se for até a fase final de todas, serão simplesmente 89 partidas em uma única temporada.

Longe da realidade tricolor, a equipe sub-19 do Bayern de Munique, um dos símbolos da vitoriosa renovação da Alemanha no esporte, terá apenas duas competições oficiais pela frente: o Campeonato Alemão e a Liga dos Campeões. Serão no máximo 43 partidas.

Com menos jogos e viagens a cumprir, os alemães têm mais tempo para treinar, para aprimorar os fundamentos e o estilo de jogo que os tornaram hegemônicos no Mundial recém-acabado.

Já no Brasil, com tantos compromissos, fica praticamente impossível ter qualidade em todos eles. Pelo contrário, nossos garotos perdem tempo em competições que acabam agregando pouco à sua formação. Os Estaduais e seus adversários são um bom exemplo disso.

— A qualidade dos campos prejudica muito, é difícil para o jogador trabalhar a bola. Isso atrapalha a formação dele. Jogamos no Campeonato Estadual. A qualidade dos campos é bem ruim, às vezes em meio a uma praça, em campo sem vestiário, que não tem nem grama direito. Não tem como trabalhar da maneira adequada, o jogo perde muito em qualidade, fica completamente na base do chutão — lamenta Ney Souto, gerente das divisões de base do Botafogo.

Fisicamente, muitas vezes as promessas brasileiras se apresentam em estágio superior às europeias, justamente pela maior carga de trabalho, o que ajuda a explicar o fato de times brasileiros da base conseguirem vencer os adversários estrangeiros. Depois, no profissional, a lacuna aberta faz falta.

Calendário desigual

Se o problema no sub-20 brasileiro é o excesso de jogos, na categoria abaixo o gargalo é a escassez de competições organizadas pela CBF, num calendário desequilibrado. Com isso, os meninos dessa faixa etária têm dificuldades para serem testados e, assim, serem mais bem trabalhados nos clubes.

— Temos um problema que é a qualidade dos adversários. No sub-15 e no sub-17, enfrentamos muitas vezes adversários fracos. Você não consegue testar mais seu jogador. Ficamos restritos ao nosso mundo regional, temos bons resultados, mas descobrimos que não é nada disso quando enfrentamos outros grandes clubes — disse o gerente da base do Fluminense Fernando Simone.

O desequilíbrio no calendário da base é também alvo de reclamação do ex-zagueiro Mauro Galvão, atualmente diretor do setor no Vasco:

— O desequilíbrio existe. Nos juniores, é uma competição atrás da outra, enquanto abaixo temos um Estadual longo. O calendário pode melhorar. No sub-20, a quantidade de jogos poderia ser enxugada; nos mais novos, ter nacionais maiores.

Carlos Noval, responsável pelas categorias de base do Flamengo, concorda em parte com Mauro Galvão.

— A base no sub-20 tem bons campeonatos, clássicos, jogos de bom nível. Do sub-17 para baixo é que isso muda. Precisamos de mais competições nacionais nessas categorias — afirmou.

Fonte: Extra Online