Ex-volante alvinegro e atual credor, Túlio critica diretoria: ‘O Botafogo brincou muito’

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A quinta-feira será decisiva para o Botafogo. Nesta data, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio (TRT-RJ) vai julgar a proposta de um novo acordo de 10 anos para o clube pagar suas dívidas trabalhistas. Na prática, é a possibilidade do clube ter suas receitas desbloqueadas pela Justiça. Para Túlio, volante com duas passagens pelo clube entre 2003 e 2008 e atual credor do clube, a aprovação de um novo ato será a possibilidade de mais uma vez empurrar as dívidas para as próximas gestões: “Pelo bem do Botafogo, o ato não tem que sair”.

Atual diretor de futebol do Sobradinho-DF, onde encerrou a carreira no ano passado, o ex-jogador de 38 anos conta ao GLOBO que tentou fazer um acordo para que sua dívida com o Botafogo fosse diminuída e que, sem responder, o clube viu a conta ficar três vezes maior na Justiça. Túlio acredita que a solução é a mudança de mentalidade dos dirigentes: “Um título nessa situação vale muito menos do que diminuir dívidas.”

Como ex-jogador do Botafogo e atual credor do clube, como vê o atual momento financeiro?

TÚLIO: Era previsível que chegaria em um situação dessa. Saí do Botafogo com o clube me devendo, fiz de tudo para ter um acordo e não precisar ir para Justiça, minha relação era muito boa tanto com a diretoria passada como com o pessoal que entrou depois, como o Maurício (Assumpção, presidente do clube), mas com relação à dívida não tem o que fazer. Foi uma irresponsabilidade deixar acumular tanto. Era previsível que uma hora iria estourar porque foi empurrando com a barriga. Agora, estão pleiteando prorrogar novamente o Ato Trabalhista para estourar mais lá na frente.

O Ato Trabalhista não é uma esperança de pagamento para os credores?

T: Tem uma fila muito grande (para receber) e vai piorar ainda mais se sair o novo Ato Trabalhista. O clube vai ganhar 10 anos para ir pagando uma mixaria para dívida e não vai quitar nunca. Pelo contrário, vai aumentar mais. Pelo bem do Botafogo, o ato não tem que sair. Que se arranje uma maneira de fazer um time com folha salarial menor. Vai ter cobrança mais o torcedor consciente vai saber o que é melhor para o clube.

Tem expectativa de que sua parcela da dívida seja paga em breve?

T: É tanta dívida e tão alta que o tribunal faz o que pode dentro da lei. A expectativa para quem tem dívida é que o dinheiro saia muito lá na frente. Não tenho esperança nenhuma de sair agora e nem posso contar com esse dinheiro. Eu lamento porque fiz tudo para não chegar nessa situação. Tenho e-mail de correspondência para acordar um valor que era um terço do total da dívida, parcelado em não sei quantas vezes. Mesmo assim, ficou só na promessa, ia passar dois anos da dívida e entrei na Justiça.

Qual é o valor da sua dívida?

T: Na proposta que fiz, me pagariam R$ 300 mil em dez vezes. Não responderam nada, nunca me enviaram um e-mail de volta. Agora, ainda vão sair os cálculos, mas com certeza o clube vai ter que me pagar mais de R$ 1 milhão.

De quem é a culpa pelo clube estar nessa situação?

T: Hoje, um presidente se preocupa mais com legado nos títulos do que qualquer outra coisa que faça pela torcida. É melhor deixar um título do que salvar o clube para se tornar ainda maior no futuro. Um título nessa situação vale muito menos do que diminuir dívidas depois de seis anos.

O presidente Maurício Assumpção chegou a chorar na reunião em que disse à presidente Dilma Rousseff que pensava em tirar o Botafogo da Série A.

T: É lamentável isso. O Botafogo está nessa situação porque cultivou isso. No ano passado, estava pagando salários astronômicos. Tem que ter consciência que não tem dinheiro para grandes salários. Tem que ser modesto até chegar em um momento que tenha credibilidade para isso. Hoje, é mais difícil alguém botar dinheiro no Botafogo.

Você falou sobre os salários astronômicos no ano passado, quando Seedorf estava no clube.

T: Como credor, fico indignado porque sei que foi uma ilusão. Montaram um time que não tinham condições de pagar. Como torcedor do Botafogo, me sinto enganado. O presidente e toda a diretoria sabiam da situação financeira e cometeram uma irresponsabilidade muito clara que, mais na frente, estoura. O que adianta ir para a Libertadores se não disputa com um time à altura do que conquistou a vaga? De nada vale. E daí que estava há não sei quantos anos sem jogar a Libertadores? Se pagasse 50% da dívida, esse daí seria um bom presidente.

O que falar para os jogadores do Botafogo que estão sem receber?

T: É difícil escutar desculpas, são sempre as mesmas. Pelo bem do Botafogo, o presidente deveria negociar jogadores porque os atletas vão para a Justiça e vai ser pior. Não tem paixão que sustente quem tem dívida para pagar. O Botafogo brincou muito.

Como viu os protestos dos atletas, quando levaram uma faixa para o campo contra o Flamengo?

T: Não tenho como saber, mas acho que não partiu dos jogadores. Tudo indica que partiu da diretoria na tentativa de sensibilizar e ser prorrogada a dívida com o ato trabalhista. Os jogadores defendem os interesses deles, mas é uma atitude desesperada.

Você hoje é diretor de futebol do Sobradinho-DF. O clube está com salários atrasados?

T: Aqui não tem atraso. A primeira exigência quando aceitei o cargo foi saber se o orçamento dava para pagar todos. Conseguimos um bom parceiro, uma universidade de Brasília, e não fazemos loucuras.

Fonte: O Globo Online

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