Fogãonet no Equador

Carlos Eduardo Sangenetto
Enviado especial a Guayaquil (EQU)

O futebol reúne tanta coisa bacana, mas também seu lado ruim, todos sabemos. E viajar para fora do Brasil para acompanhar um jogo de Libertadores te coloca em contato cara a cara com tudo isso. É preciso saber lidar com as emoções, sejam elas com sorriso largo ou com cara fechada. Barcelona de Guayaquil 1 x 1 Botafogo nesta quinta-feira, no Equador, reuniu dentes “cerrados” de raiva, lágrimas tristeza e alegria.

Torcida do Botafogo precisa ser esconder em Guayaquil

Tudo começou com a ida para o Estádio Monumental. Um ônibus com mais de 30 torcedores do Botafogo acompanhava o delegação no comboio rumo à partida. No caminho, os alvinegros foram orientados pelo motorista a viajar com as cortinas fechadas, porém nada adiantou. Diversas vezes gestos obscenos eram dados em direção ao transporte, inclusive para uma garotinha botafoguense que acompanhava a família. A hostilidade, que estava até então no campo visual, evoluiu para tapas na lateral do ônibus quando o trânsito parava.

Torcedores do Botafogo no MonumentalTorcedores do Botafogo ficaram apertados na arquibancada do Monumental
(Foto: Carlos Eduardo Sangenetto/FOGÃONET)

Proibição de cerveja e as mãos de um menino solidário

Chegando finalmente ao estádio, veio a forte revista da polícia militar. Cintos, por exemplo, não eram permitidos e precisaram ficar para trás. Mas o que irritou mesmo os botafoguenses, já na arquibancada, foi a proibição de venda de cervejas dada pelo oficial da guarnição. Mas o jeitinho brasileiro, no ouvido da senhora ambulante, tratou logo de contornar a situação. Não teve bico seco, aquela atmosfera pedia uma gelada. O Monumental estava abarrotado e os botafoguenses, espremidos, não chegavam a 50.

Lata de cerveja Pilsener no Estádio MonumentalCerveja Pilsener patrocina o Barcelona de Guayaquil
(Foto: Guilherme Bernardes/FOGÃONET)

O relato de bastidores já subiu as arquibancadas e engoliu alguns latões de Pilsener, mas um episódio, segundos antes de entrar dos brasileiros chegarem ao setor visitante não poderia passar batido. Um menininho, com a camisa do Barcelona e a maior calma do mundo, furou a barreira policial apenas para olhar nos olhos de quem vos escreve para dizer: “Suerte para Botafogo”. Aquilo me desmontou e me fez subir os degraus com a vista marejada. O futebol vive e esperança de uma boa noite também.

Sassá é alvo de racismo e botafoguenses desviam de objetos atirados pela torcida do Barcelona

O futebol pode até viver, mas ainda convive com o racismo. Vi um companheiro chorar e precisar ser acolhido depois de insultos vindos de barcelonistas. O episódio ainda ganhou um capítulo mais lamentável quando um torcedor negro tentou tomar as dores do brasileiro e foi ofendido pelo próprio grupo. Isso sem contar com os segundos antes de Sassá caminhar para cobrar o pênalti: grande parte do estádio fez sons de macaco para destabilizar o atacante. Não teve jeito, o racismo foi sarrado para o alto, assim como alguns objetos começaram a voar em direção aos botafoguenses – garrafa de refrigerante cheia, saco d’água e até limão. Nos salvamos, ainda bem.

Apesar de viver momentos dignos de Neo em Matrix, desviando de cada coisa sobrevova nossas cabeças, estávamos protegidos pela polícia, que cumpriu muito bem seu papel. Um soldado, inclusive, não escondeu a alegria com o empate do Fogão. Seu sorriso de satisfação era evidente e resultou no seguinte diálogo com um dos alvinegros:

– Você não é Barcelona, né? Torce para quem aqui? Emelec ou LDU?
– Liga de Quito.
És tudo nuestro!

Carona na picape e muita cerveja para comemorar

A festa não tinha hora para acabar. Muitos botafoguenses se espalharam por Guayaquil, mais precisamente pelo Cerro Santa Ana e Urdesa. Urdesa foi o meu destino, com mais cinco amigos. Quando procurávamos ainda o que fazer, fomos abordados por duas torcedores do Barcelona, que, muito hospitaleiras e simpáticas, nos ofereceram carona em uma picape para um bar temático do clube.

– Querem carona?
– É sério?
– Subam aí, meninos!
– Não é perigoso?
– Tranquilo, “no pasa nada”

E não é que nada se pasó? Com a cabeça mais fria, fomos muito bem recebidos por barcelonistas, que lembraram de Garrincha, e nos regaram com muita cerveja até 3h da manhã (5h no Brasil). Tá bom ou tá chato?

A esperança de uma boa noite se confirmou.
Isso é Libertadores, amigos! Tudo pode acontecer.

Saudações alvinegras!

Torcedores do Botafogo comemoram empate junto com torcedores do Barcelona de GuayaquilTorcedores de Botafogo e Barcelona confraternizaram juntos após empate no Monumental