Na saída do jogo entre Botafogo e Corinthians, Bruno Silva foi abordado pelos repórteres e, em fala que misturava respostas sobre o interesse do Cruzeiro e sua atuação no jogo (bem boa, por sinal), foi sincero e enfático:

– Não sou nenhum craque, mas faço valer a pena.

A frase, que é sugestão de tatuagem para todo humilde esforçado, não só no futebol, mas em qualquer setor, profissional ou pessoal (pense em quantas situações diferentes a ideia da frase se aplica), também serve como lema, jargão, frase-resumo, epígrafe e talvez epílogo do time do Botafogo de 2017.

Se o Botafogo fracassou em alguma coisa neste ano foi só na tentativa de ter um craque. Camilo, Montillo e Sassá, talvez candidatos, ficaram pelo caminho e suas saídas viraram argumento de superação do time.

Era Nelson Rodrigues que dizia que Deus está nas coincidências, e seja lá qual for sua religião, há de se concordar na crença que o fato de ter sido o Botafogo que, perdão pela fala fácil, botou fogo no campeonato, não é mero acaso. Se é o Alvinegro que fez valer a pena acompanhar a briga pelo título no Brasileiro (ao vencer o Corinthians e deixar a diferença para o Palmeiras e Santos em seis pontos) é porque, talvez, o Botafogo é o que vale a pena no futebol brasileiro em 2017.

Concordemos, é um ano pobre. O virtual campeão já causa dúvidas, e o maravilhoso primeiro turno corintiano, ainda que seja gordura suficiente para garantir a taça, ficará sendo disputado na memória coletiva com a lembrança da derrocada na segunda metade do campeonato. Elencos caros, que eram só expectativa em janeiro, como Flamengo, Atlético-MG e até o Palmeiras, postulante ao título que trocou de treinador há menos de um mês, decepcionaram. O Santos, outro candidato, viveu, há menos de sete dias, a confusão de demite ou não demite o treinador. No Botafogo, pensar em perder Jair Ventura é só temor para o ano que vem e qualquer crítica não pontual a seu trabalho é tão insana quanto protesto no aeroporto contra esse time que faz omelete sem ovos.

Com exceção do Grêmio, que ainda pode voltar a vencer a Libertadores depois de duas décadas, e do Vasco, que pode se superar e conquistar a vaga no torneio continental no ano que vem, o Botafogo parece não ter concorrentes a melhor história de 2017. Até aqui, mesmo sem ser campeão, ainda que seja uma temporada fraca, a equipe parece ser o time do ano. Justamente por fazer valer a pena torcer.

É a melhor equipe do returno, foi heroico na Libertadores eliminando cinco campeões, chegou à semifinal da Copa do Brasil e só não avançou mais nos torneios eliminatórios por detalhes e um jogo muito ruim contra o Flamengo. Se for à segunda Libertadores consecutiva pela primeira vez na história, o botafoguense se queixar de algo é a tradução literal da expressão “reclamar de barriga cheia”.

Jogos ruins acontecem e é provável que aconteçam novamente em algumas das oito rodadas finais. A surpresa não é essa. Surpreendente é eles acontecerem tão pouco com elenco tão limitado, o 13º orçamento do Brasileiro, que joga em alto nível de competitividade desde o primeiro dia de fevereiro, quando enfrentou o Colo Colo na fase preliminar da Libertadores. A alma deste Botafogo está longe de ser pequena e, justamente por isso, tudo que o envolve vale a pena. O campeonato só tem a agradecer.

Fonte: Thales Machado - O Globo Online