Para realizar o sonho de se tornar um jogador de futebol, muitos jovens passam por situações inimagináveis para a maioria das pessoas. Com Rickson a história não foi diferente. Morador de Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro, o jogador encava seis horas diárias de transporte público para treinar em Niterói, município da região metropolitana fluminense, em local a quase 70 km de distância. A insistência deu certo. Hoje, aos 19 anos, o volante do Botafogo já conseguiu comprar o carro próprio e inverteu a ordem inicial: agora ajuda companheiros no trajeto para as atividades no Nilton Santos.

Rickson era mais uma criança que jogava na escolinha do Botafogo, em Bangu. Com a bola nos pés, desejava em um dia vestir a camisa como profissional do clube. O sonho começou a sair do papel ainda cedo, com 9 anos. Foi quando seu professor decidiu levá-lo para realizar um teste para o campo do Alvinegro.

Foi aprovado de primeira e passou a treinar em Marechal Hermes, bairro vizinho e a 20 minutos de distância de onde morava. Sua avó, Delma, era responsável por levar o então menino às atividades. Isso se repetiu por alguns anos até que Rickson cresceu e passou a treinar em Caio Martins, em Niterói.

Como o estádio, que já foi a casa do Botafogo há vários anos, não estava em boas condições, o clube transferiu suas categorias de base para o Cefat (Centro de Treinamento de Formação de Atleta do Trops), em Várzea das Moças, ainda mais para dentro de Niterói. O que já estava longe ficou quase insuportável.

“Aí ficou mais difícil. Eu já tinha uns 14 anos e tinha que pegar trem e dois ônibus. Eu ia sozinho já, sem minha avó. Nessa época eu saia de casa 5h da manhã, pegava um trem até Central do Brasil. De lá um ônibus até a Alameda São Boa Ventura para depois pegar mais um ônibus até o local do treino. Longe demais. Eram 3h de transporte para ir e mais 3h para voltar, um sufoco danado”, disse Rickson ao UOL Esporte.

“O Botafogo até entendeu que estava puxado para mim e liberou para eu dormir em Caio Martins, pois tem um alojamento lá. Realmente ficou bem mais perto, mas eu não me adaptei e pedi para voltar para casa mesmo. Quando conseguia uma carona na volta é que era bom. Já me ajudava bastante e diminuía o tempo de ônibus”, completou o volante do Botafogo.

Quando era mais jovem Rickson agradeceu a cada carona que recebeu para voltar para casa. Anos depois o próprio conseguiu comprar o carro próprio e é ele quem ajuda outros companheiros.

“Já estou com meu carrinho agora e de vez em quando dou carona para os amigos, né? Helerson e Johnathan sempre estão comigo. Tem que ajudar os amigos, né? Às vezes eu busco eles no meio da Avenida Brasil, outras na estação de Deodoro. Os moleques são maneiros, algumas vezes dão moral na gasolina, até um lanche [risos]”, brinca Rickson.

Inspiração em meias da seleção

Em seu primeiro ano como profissional, o volante tem recebido elogios do técnico Zé Ricardo. Rickson tem personalidade e diz que apesar de jogar em uma posição que a marcação é fundamental, ele também gosta de chegar ao ataque. Paulinho, Elias e Renato Augusto são suas referências.

“Sou volante e gosto de ajudar na marcação, mas sempre chegando no ataque também. Sou um cara que piso muito na área. Gosto muito do futebol do Elias [Atlético-MG] e do João Paulo, que me ajuda muito no dia a dia. Ele ajuda na marcação, mas joga muito. Renato Augusto e Paulinho são outras referências que tenho também. Wanderson que joga comigo desde pequeno tem características parecidas com a minha. Admiro todos eles”, afirmou.

Jovem, Rickson sabe que terá que esperar pela sua oportunidade. Isso, porém, não impede de sonhar ainda mais alto e até ter que administrar certa ansiedade. “Zé Ricardo conversa muito comigo e diz para manter a pegada nos treinamentos que minha hora vai chegar. Só quero que seja o quanto antes [risos]. Quero jogar no profissional e conquistar meu espaço nesse clube que estou desde criança”, finalizou.

Fonte: UOL