Num tempo de tantas tristezas na vida nacional, uma das poucas alegrias capazes de fazer esquecer Brasília e a Guanabara (o palácio) é torcer pelo Botafogo. Digo isso de boca cheia depois de duas derrotas consecutivas. E não só pelas ótimas campanhas que, apesar de tudo, o time vem fazendo em três competições. Digo pelo puro prazer de ser. Botafogo.

O locutor Édson Mauro, da velha e da nova Rádio Globo, meu ídolo maior da narração, criador inesgotável de bordões em tempo real (como a “jogada twitter”, o “lançamento de drones na área”, o “bolinho” e o “bingo”), definiu com perfeição o que move o imenso deleite de ser alvinegro: na atual temporada, ele vem dizendo, com a doce ironia de sempre, que o Botafogo é o time da “força do querer”, pegando emprestado a expressão do título da novela das 9.

Quando Édson está narrando jogos do Botafogo, gosto de abaixar o volume da TV e acompanhar as imagens ao som do rádio. A tecnologia de hoje permite sincronizar com exatidão. Como diz a antiga chamada: “Você vê o jogo ouvindo a Rádio Globo”. Sou velho fã de carteirinha.

Na temporada de 2015, aliás, Édson Mauro usou o título de outra novela para descrever a sensação de jogar no Estádio Nilton Santos, ou Engenhão, a casa alvinegra: “I love Botafogópolis”, num trocadilho com “I love Paraisópolis”, que estava no ar no horário das 7.

Alguém capaz de conceber a existência de um paraíso chamado Botafogópolis é um profundo conhecedor da alma alvinegra, mesmo sem ser torcedor do clube (ele é vascaíno).

A graça do bordão é que Édson sabe, e dramatiza com humor, que um paraíso alvinegro é um éden difícil de se habitar, de circunstâncias a maior parte do tempo mais infernais do que celestiais. E que, mesmo assim, consumidos em chamas, seus habitantes agradecem a todas as forças da criação por serem abençoados pela estrela.

Pois há, sempre, um milagre à espreita, e uma força capaz de realizá-lo: a “força do querer”, que vai muito além do bordão. Vejam bem: o que dizem os comentaristas? Dizem que, com um elenco de baixo orçamento, sem atacantes, com metade do plantel no hospital, Jair Ventura vem fazendo o diabo, criando um padrão de jogo que independe das diversas formações etc. Mas basta examinar o passado não tão recente para notar que esse fenômeno tem sido uma constante: elencos limitados e campanhas incríveis, faz tempo, são a tônica.

Para ficar na última década, foi assim com Cuca, Ney Franco, Caio Júnior (i.m), Oswaldo de Oliveira, René Simoes, Ricardo Gomes: todos esses talentosos treinadores foram elogiados pelo muito que fizeram com pouco, em que pesem as ajudas de Seedorf e outros raros expoentes.

Independentemente de títulos, ou de quanto durou, o milagre de alçar um exército limitado a glórias fugazes se fez. Muitas explicações foram aventadas, todas respeitáveis e corretas, mas há uma que está no fundo, na essência, e que é decisiva: a “força do querer”. Bingo, Édson.

Querer o quê? Querer ser. Botafogo. Ganhar ou perder, mas brilhar na aba do facho de luz do seu hino, carregando a imagem da estrela através do tempo, mesmo extinta a época de ouro, quando tínhamos os maiores craques da História e o futebol não era uma bolha financeira em expansão infinita.

O paraíso de Botafogópolis não é um lugar onde se aspira à hegemonia, palavra que orienta a estrada de rivais como o Flamengo e o Fluminense e outros colossos clubísticos pelo país. É o paraíso onde se reconhece a verdadeira condição humana: o ser falível, sempre em confronto com uma certa injustiça inerente à vida como ela é, e não como deveria ser.

Em Botafogópolis, o futebol não é apenas um jogo no qual, por via de um histórico de números e estatísticas, se alcança um juízo de valor absoluto. O futebol é, sim, um campo onde se vive cercado de outros sonhos mais altos que apenas a vitória ou as contas.

Sonhos de luzes e sombras, de medo e superação, da emoção da corda bamba.

Sonhos de vertigem na queda ao abismo e da volta à margem, de longos anos de jejum à espera da redenção e do fausto de um momento fugidio: beber o vinho santo e sorver o manjar sagrado que se aguardou à base de água salobra e de pão dormido.

Até Montillo, em sua trágica passagem pelo Botafogo, foi contaminado. Na despedida encharcada de lágrimas, mesmo magoado com os facínoras digitais que o acusaram de roubar o clube, ele pareceu reconhecido por ter morado em Botafogópolis. Montillo, que chegou a propôr devolver salários (um fato único, que me lembre, na história do esporte), estava tomado pela “força do querer”.

Queria muito que tudo fosse diferente. Mas não deu. E, em vez de detonar rancores, chorou como um bezerro. O “chororô” de Montillo só honrou a camisa.

Pois, em Botafogópolis, chorar não é só um direito. É um dever.

Fonte: Coluna do Arnaldo Bloch - O Globo