É possível traçar uma linha do tempo para entender como o Botafogo chegou ao que podemos chamar de “fundo do poço”. Após ter o ânimo renovado por uma nova administração que prometia reformular o clube e ser referência, alguns fatos foram minando aos poucos o clube da estrela solitária, o que acabou culminando no segundo rebaixamento do clube em 2014. No mesmo dia em que seu substituto Carlos Eduardo Pereira foi eleito, Maurício Assumpção concedeu entrevista exclusiva à Rádio Globo por mais de uma hora.

Numa possível idealização de linha do tempo, podemos começar com o fechamento do Engenhão, em março de 2013. Ali começava a via crúcis alvinegra. Fonte de renda para o clube, além de ficar sem sua casa, o Botafogo viu contratos serem desfeitos e muito dinheiro sendo perdido. O segundo baque não tardou muito a vir. Justamente no momento mais aguardado pelos torcedores, a volta do Botafogo a Libertadores após 18 anos, mais um golpe. O que até então era o grande feito da gestão Assumpção, os astro holandês Clarence Seedorf, após dois anos, deixou General Severiano antes de disputar a competição sul-americana para se tornar treinador do Milan, onde também é ídolo.

De acordo com o ex-presidente, a saída do jogador mais experiente e referência da equipe prejudicou muito a montagem do elenco para a competição, já que a previsão de orçamento do clube para este ano era de extremo arrocho. Seedorf seria, portanto, como um alicerce em uma equipe predominantemente jovem. Sendo assim, com o grupo sem estrelas, a diretoria optou pela escolha de Eduardo Hungaro, treinador da base, agora demitido pela nova diretoria, justamente por conhecer os garotos da base que integrariam o time e, claro, por ser barato. A opção se mostrou equivocada durante a competição.

Com praticamente todas as receitas bloqueadas pela justiça, o Botafogo se viu numa crise que parecia, e parece não ter fim. A esperança passa a ser que a Série B em 2015 seja o início do fim do sofrimento alvinegro. Mas Maurício Assumpção faz questão de deixar claro, apesar de tudo, que o Botafogo deixado por ele, é muito melhor que Botafogo que ele assumiu em 2009.

Confira, acima, a entrevista na íntegra com o ex-presidente Maurício Assumpção. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Engenhão

“Efetivamente tem um laudo, sim, conclusivo com relação a risco de desabamento da cobertura. De quem é o erro, quem deixou de fazer a coisa certa, não é uma questão que caiba ao Botafogo. O que cabe ao time é mostrar que, durante todo o processo que nós tivemos com o estádio, nós cumprimos rigorosamente com todas as questões em relação à manutenção do estádio. Mandávamos relatórios trimestrais para a secretaria, acompanhando inclusive questões que não eram da nossa competência. O problema é que, quando chegou na mão do prefeito um relatório de uma firma alemã dizendo que havia risco de cair o telhado, ele efetivamente fez com quem o estádio fosse fechado. Óbvio que isso trouxe um prejuízo enorme para o Botafogo.”

Seedorf

“A saída do Seedorf no final do ano passado, prematuramente, porque ele tinha contrato até julho deste ano, foi um problema sério. Ele saiu porque ele teve a proposta da vida dele para se tornar treinador de futebol. Ele poderia encerrar o contrato sem pagar multa desde que encerrasse a carreira como atleta profissional. Se ele fosse jogar futebol em outra equipe, teria que pagar R$ 3 milhões de euros, se eu não me engano. Eu tenho notícias de que ele tem muita vontade de vir treinar o Botafogo. Ele era muito importante para a gente em uma Libertadores, porque a gente sabia que teria que fazer redução de custos e aproveitar muitos meninos da base, e ele era o nome.”

Técnico 

“O primeiro nome pós-saída do Oswaldo foi do Autuori. O projeto para ele era maior, não era apenas de treinador. A gente sabe que ele tem muita vontade de ser um gestor, um diretor executivo de futebol de um clube. Nessa época, ele falou o seguinte: ‘eu posso conversar com vocês a hora que vocês quiserem, só que eu já acertei com outro clube, não vou dizer qual é’. Era o Atlético-MG. Como a gente não tinha aquele treinador, digamos, de ponta, e a gente ficou entre uma aposta que já tinha sido testada, que era o Cristóvão, e outra, que já tinha trabalhado com aquele elenco durante um ano, que era o Húngaro. Aí a opção do Húngaro ficou nesse sentido.”

Dívidas

“Eu acho que a conduta do meu departamento jurídico foi a correta. Mas tem uma pergunta que eu faço e o departamento não consegue responder, não porque é incapaz, mas porque não tem a resposta. Segundo o Tribunal, ele não deu a nossa volta ao ato porque a gente fraudou o ato em que estava antes. É isso? É. Mas Fluminense e Vasco também fraudaram o ato e depois foram reconduzidos em uma segunda chance. Por que o Botafogo não pode ter o mesmo tratamento? Fraude é fraude. E a gente discute a questão da nossa fraude. Por que eles voltaram? Eles também fraudaram o ato.”

Avaliação da gestão e as mudanças no clube desde 2009

“Desde o início, que a gente assumiu o Botafogo em 2009, a gente fez um projeto de ter uma marca vencedora. E obviamente o resultado disso no último ano de mandato fica comprometido. Mas ao longo desses cinco anos a gente tem uma razão para dizer que conquistou grande parte do que poderia fazer pelo clube. É importante que a torcida entenda que muita coisa foi feita relativa ao futebol diretamente, e muita coisa foi feita para o clube como um todo. Existe um entendimento dessa diretoria que apesar do futebol ser a coisa mais importante, ele estava vinculado a outras questões como patrimônio, torcida, receita. O futebol precisa ser o carro-chefe, mas outras questões são importantes. Nós recebemos o Mourisco-Mar com um laudo que afirmava categoricamente que ou a gente tomava providências imediatas com relação a essa sede ou interditava e fechava porque havia risco iminente de rebaixamento. A gente conseguiu no primeiro ano de mandato, trazer uma churrascaria que é ponto de referência, reformamos o complexo, estamos acabando naquela região a ciclovia Mané Garrincha, estamos fazendo o mirante Mané Garrincha naquela área. Outra questão em que atuamos bastante foi General Severiano. Reformamos o ginásio, os vestiários, a quadra, as duas piscinas, fizemos quadras poliesportivas cobertas, fizemos a sauna, um restaurante novo e um campo de grama sintética. Criamos o espaço de imprensa Luiz Mendes no Engenhão, fizemos vestiários novos para o Botafogo e para os visitantes, toda a parte de musculação e departamento médico para os nossos jogadores…”

Falta de incentivo para esportes olímpicos

“No Brasil, os clubes que formam atletas olímpicos não são beneficiados por nenhuma lei de esporte olímpico. Não temos incentivo. O Botafogo é um desses clubes. Na natação, no polo aquático, no basquete, no vôlei, no remo. Botafogo não recebeu nenhum dinheiro para incentivar a prática desses esportes.”

Contratação de novos gestores para profissionalização do clube

“A gente entendeu que não dava pra tomar conta de um clube como o Botafogo no modelo que estava. Esse modelo de gestão estava completamente superado. A gente entendeu que precisava trazer diretores executivos para os departamentos. Essa é uma prática que a grande maioria dos clubes do Brasil faz e tem. A gente precisava criar uma estrutura organizacional.”

Previsão de pouco dinheiro para 2015

“A gente fez esse ano R$ 26 milhões em todos os patrocínios privados da nossa camisa. Outros clubes grandes não conseguiram ir no mercado e trazer patrocinador. Eu acredito que no próximo ano isso seja muito difícil de fazer.”

Elencos ao longo dos seis anos

“Em 2009 o Botafogo tinha poucos contratos de jogadores valendo, muitos queriam ir embora. A gente teve que subir naquela época. A gente montou um time que poucos acreditavam que fosse dar resultado, mas foi até a final do Carioca, perdeu dois jogadores importantes do elenco na primeira parte da final, e perdeu nos pênaltis na segunda parte. A gente sofreu muito em 2009. Tínhamos um orçamento e não podíamos estourar. Fomos alvo de muita crítica porque o que a gente mais ouvia de pessoas que, hoje, têm discurso de que não se pode gastar muito, era que a gente precisava contratar. Fomos qualificando o time paulatinamente. A gente precisava brigar em competições nacionais. Essa evolução foi paulatina. Em 2010 fomos invictos no Carioca, fizemos um Brasileiro bom. 2011, Brasileiro também foi bom, competimos até o final. Em 2012, a mesma coisa. E em 2013 a gente atinge o ápice do

futebol.”

Contratação de Seedorf

“A gente precisava de um camisa 10, um craque de renome, e o Seedorf valeu cada centavo que a gente investiu. O principal motivo foi a qualidade que ele deu ao time principal e o conforto que ele deu aos meninos que foram saindo do time da base e chegando ao profissional.”

Divisões de base“O Botafogo era o único clube que não conseguia formar atleta na base. Falta de dinheiro não era a resposta, porque dinheiro nós não tínhamos e fizemos. Quando eu cheguei no Botafogo, assisti a um jogo da base em Xerém. Quando o time do Bota entrou em campo, um membro da comissão técnica do Fluminense disse ‘está entrando o cemitério de jogador’. Domingo passado foi o último jogo que assisti da base, contra o Fluminense, e eu disse isso para os meninos. A nossa realidade mudou muito. Você mede o trabalho na base pelo número de conquistas, pelo número de jogadores convocados para a seleção brasileira, a quantidade de jogador que você consegue vender formados nas bases. Mas o mais importante de tudo isso é a quantidade de jogador que você consegue colocar no time de cima.”

2014 já prometia ser um ano difícil

“Tenho ouvido coisas como ‘você foi o pior presidente da história do Botafogo’. Como avaliam seis anos em função de um e esquecem o que fizemos nos outros cinco? Se não temos tanta perspectiva, por que quatro chapas concorreram à presidência? Independente de estar dentro ou fora do ato, esse seria um ano mais difícil, porque a gente tinha que ter um orçamento menor no futebol este ano para deixar para o próximo presidente uma situação mais confortável. Eu tinha isso no ano que disputei a Libertadores, ou seja, fechei o ano passado sabendo que teria que construir um time que valesse menos economicamente do que o que eu tinha conquistado a vaga. A gente já estava com as penhoras fiscais rolando, e era um problema sério. Duas coisas foram determinantes no ano passado e refletiram este ano: uma foi o fechamento do estádio, e a outra é técnica, a saída do Seedorf. A saída foi comprometedora porque ele tecnicamente em campo fazia o time andar. Ele era o treinador dentro de campo.”

Dívidas fiscais e penhoras“Lançam refis para a dívida fiscal com a ajuda de pessoas que são apaixonadas pelo clube, que eu infelizmente não posso falar o nome delas, porque elas não permitem. Pagamos as três primeiras parcelas, quase R$ 10 milhões. Faltam duas, são cinco. Nós fomos à Procuradoria Geral da Fazenda Nacional em Brasília. Tentamos mostrar uma forma de parcelamento do débito fiscal do Botafogo, mas disseram que não era factível, porque estávamos colocando só o principal da dívida, sem juros e uma série de fatores. Recomendaram que aderíssemos ao refis que iria chegar. Mas as penhoras fiscais não caíram. Estão brincando com clube de futebol no Brasil. Tem clube que aderiu ao refis e não conseguiu pagar a primeira parcela.”

Lei de Responsabilidade Fiscal

“Tem muito empresário que não quer que a Lei de Responsabilidade Fiscal aconteça. Porque na hora que ela vier, o mercado vai cair de preço. Os clubes vão diminuir orçamento. Quem é que perde mais com isso? São os empresários da bola. Eles jogam contra a lei porque não interessa.”

Motivo por não comparecer à eleição 

“Eu acho que nenhum dos quatro concorrentes queria o meu voto. Você tem uma candidatura que foi oposição a mim em 2011, que foi oposição utilizando-se de uma chapa dita pelo MP como fraudulenta em dois momentos (Carlos Eduardo). Esse cara passou os últimos três anos só me bombardeando, obviamente não queria meu voto nem eu vou dar. Marcelo Guimarães era um baita gestor, o dia que ficou desempregado e passou a não receber mais R$ 21 mil e pouco todo mês, eu passei a ser um péssimo gestor, então ele não queria meu voto. Vinicius Assumpção foi da minha gestão durante três anos, no segundo mandato. Em todas as votações eu tive todos os votos do grupo dele ao meu favor. E agora ele diz que o Thiago é de situação, então ele também não queria meu voto. E o Thiago declarou pra todo mundo que não era da situação, e o componente de apoio a ele tem derramado poucas frases elogiosas à minha pessoa e à minha gestão. Então eu não vejo motivo para votar.”

Relação com Carlos Augusto Montenegro

“Eu e o Montenegro pensamos diferentes em algumas questões. Acho que divisão de bases é fundamental para o clube, e essa preocupação eu nunca vi no Montenegro. Eu entendo que é importante a reestruturação de todas as sedes. Ele tem críticas sobre as minhas amizades, porque eu trouxe o pessoal da praia.”

Penhoras podem ser de cunho pessoal

“Eu acho que logo após a minha saída o Botafogo volta para o ato trabalhista. A questão fiscal, o próprio Thiago está preocupado com isso. O próximo presidente, pagando as duas próximas parcelas, você tem um refinanciamento das dívidas importante. Paguei entre dívidas passadas e acordos trabalhistas e penhoras, mais de R$ 134 milhões.”

Fonte: Site da Rádio Globo