Não dá para culpar a derrota do Botafogo para o Avaí pela tentativa de unir os ofensivos Montillo e Camilo no time titular — algo que não acontecia desde abril. Afinal, o time carioca teve 83 minutos para ao menos igualar o placar depois que o argentino deixou o campo, com novo problema muscular na panturrilha esquerda. De todo modo, o resultado negativo no Estádio Nilton Santos passa por mudanças nas características usuais do Botafogo.

O técnico Jair Ventura defendeu, em participação no programa “Bem, Amigos” do Sportv após a partida, que seu time não é refém de um único sistema de jogo. Citou números, como o volume de finalizações (29 chutes), para argumentar que o Botafogo teve chances de um resultado melhor, dando a entender que faltou um pouco de sorte. Justamente os excessos, no entanto, não condizem com os bons resultados recentes do time alvinegro.

POSSE DE BOLA

Contra o Avaí, o Botafogo passou cerca de dois terços (67%) do tempo de jogo com a bola sob seu domínio. É uma situação distinta à que normalmente vivencia o time de Jair Ventura, cuja média de posse de bola neste Brasileiro é de 46%. No geral, o Botafogo é a quinta equipe que menos fica com a bola, segundo o “Footstats”.

Neste caso, a mudança de postura ocorreu mais pelas circunstâncias da partida do que por uma opção prévia dos cariocas. Como abriu 2 a 0 no início do primeiro tempo, o Avaí não teve problemas em acomodar-se na defesa e esperar contra-ataques, dando a bola ao Botafogo.

No entanto, é possível argumentar que o time carioca teria a tendência de ficar naturalmente mais tempo com a bola mesmo se não saísse atrás do placar, por estar jogando em casa contra um adversário que briga para não ser rebaixado, e caso Montillo e Camilo ficassem juntos por mais tempo em campo.

TOTAL DE PASSES

Já que ficou mais com a bola, o Botafogo naturalmente trocou mais passes do que o normal. De acordo com o “Footstats”, foram 556 no total, sendo 517 certos. Já a média do Botafogo no campeonato é quase 60% menor: no geral, o time não passa de 350 passes por jogo.

Uma peculiaridade no jogo contra o Avaí foi que um personagem normalmente reserva ganhou protagonismo nos passes decisivos, isto é, aqueles que geram finalizações. Guilherme, que substituiu o lesionado Montillo aos sete minutos, foi o principal garçom dos colegas de ataque, com cinco passes para chutes. Rodrigo Pimpão, o maior passador para chutes do Botafogo no Brasileiro, deu quatro. Bruno Silva, outra presença recorrente no ataque, deu apenas dois.
Bruno Silva encara a marcação do Avaí: volante teve posicionamento distinto após entrada de Guilherme – Guito Moreto / Agência O Globo

POSICIONAMENTO

A entrada de Guilherme, por sinal, levou a uma mudança de posicionamento justamente de Bruno Silva, que vem sendo o principal jogador do Botafogo neste Brasileiro. Escalado inicialmente para explorar o corredor ofensivo pelo lado direito, como vem fazendo em outros jogos, Bruno Silva acabou deslocado para uma posição mais central no meio-campo porque Guilherme, ao contrário de Montillo, sente-se mais confortável pelos lados, e não pelo meio.

É notável a diferença de posicionamento de Bruno Silva no jogo desta segunda-feira (veja abaixo). O mapa de calor elaborado pelo “Footstats”, que mostra as faixas do campo onde Bruno Silva mais esteve e mais dominou a bola, mostra um posicionamento primordialmente central no jogo contra o Avaí (terceiro campo da esquerda para a direita). Na vitória sobre o Vasco por 3 a 1, na última quarta-feira, Bruno concentrou-se no lado direito (primeiro campo à esquerda) e funcionou: deu assistência para um dos gols.
Evolução do mapa de calor de Bruno Silva: da esquerda para a direita, contra Vasco, Coritiba e Avaí – Reprodução/Footstats

Até no jogo contra o Coritiba no Nilton Santos, quando o Botafogo também ficou atrás do placar duas vezes, Bruno Silva não ficou tão centralizado quanto na partida contra o Avaí, como mostra o mapa de calor do meio. Na ocasião, o time carioca conseguiu buscar o empate em 2 a 2.

FINALIZAÇÕES

Mesmo sem a devida participação ofensiva de Bruno Silva, artilheiro do time no Brasileiro com quatro gols, o Botafogo finalizou bastante. Mas faltou a eficiência característica. O time carioca chegou ao jogo contra o Avaí como time que menos chutava a gol no campeonato (em média, 9,2 chutes por jogo), mas também como um dos que mais aproveitava os ataques: precisava em média de sete chutes para marcar um gol. Só Corinthians e Grêmio, líder e vice-líder, eram mais eficientes.

Contra o time catarinense, houve uma mudança significativa: como o time chutou mais, o aproveitamento médio caiu. Embora o goleiro Douglas tenha sido um dos destaques do jogo, com três defesas difíceis, o Botafogo acertou menos o alvo do que costuma: das 29 finalizações citadas por Jair, só nove (31%) foram na direção do gol.

Para efeito de comparação, tanto no empate fora de casa contra o Vitória (2 a 2) quanto na vitória sobre o Vasco (3 a 1), o índice de acerto foi de 50%: nesses dois jogos, metade das finalizações foram no alvo.

Fonte: O Globo Online