Euclides da Cunha é um dos maiores escritores da história da literatura brasileira. Nesta quinta-feira, sua morte completa 110 anos. Entre a trágica dor da perda do autor de “O Sertões” está o Botafogo, com uma pitada de tiros, traição, futebol, suicídio e um pouco de loucura. O LANCE! explica esta história.

O contexto é o século passado e envolve quatro pessoas. Euclides da Cunha, é claro, uma das pessoas mais famosas do país na época, Anna, sua esposa, Dilermando de Assis, militar e amante da mulher, e Dinorah, irmão de Dilermando e jogador de futebol. Mais precisamente, zagueiro do Botafogo e campeão carioca em 1910, um dos títulos que já foi retratado no hino do clube.

Antes da glória de um dos títulos mais lembrados pelo Botafogo, Dinorah levou um tiro nas costas, em 1909. Foi campeão carioca com uma bala no seu corpo no ano seguinte. Uma bala que veio de uma pistola acionada por Euclides da Cunha.

O contexto: Euclides era casado com Anna, que tinha dois filhos, nenhum com o autor. O primeiro, Mauro, morreu com oito dias de vida, prematuro; o outro, Luiz, viveu normalmente e tinha a cara de Dilermando. Os dois eram amantes e se encontravam quando o escritor estava viajando, algo comum para a profissão que exercia.

Tragédia de Piedade

Quando esteve fora, trabalhando, Dilermano e Anna viveram o auge de um romance proibido e perigoso. Um adolescente vindo do Rio Grande do Sul, com as responsabilidades militares, com uma mulher casada. As pessoas em volta do casal, como parentes próximos, perceberam um clima diferente entre os dois e logo passaram a espalhar a notícia do possível romance pelo ar.

As fofocas do romance logo chegaram aos ouvidos de Euclides. O escritor tinha a ideia de matar Dilermando, comentando, sozinho, que buscaria vingança pela traição. É aí que Dinorah aparece pela primeira vez. O zagueiro do Botafogo, que jogava no futebol paulista quando o relacionamento proibido começou, é enviado para espionar o comportamento de Euclides em sua casa, em Copacabana, mas volta de mãos atadas.

Dinorah morava no bairro da Piedade com seu irmão. No dia seguinte à espionagem, Euclides da Cunha apareceu na residência com o intuito de matar Dilermando. O futebolista viu que o escritor estava na porta da casa e gritou, avisando seu irmão. Foi o tempo que Euclides arrombou a porta com um chute e entrou atirando. Dinorah pulou para salvar Dilermando e levou um tiro no seu lugar.

O zagueiro tentou levantar e pegar uma arma em outro cômodo da casa, mas não tinha forças. Dilermando tinha e o fez. Com uma pistola, trocou tiros com Euclides dentro de casa. Parece contexto de filme de velho oeste, mas não é. Pior para o escritor, que chegou a acertar uma bala no militar, mas também levou um tiro, na altura do peito. Foi fatal. O escritor cambaleou até a entrada da casa e caiu. Estava morto. Era 15 de agosto de 1909.

A imprensa da época relatou o fato como “Tragédia de Piedade”. Euclides da Cunha, movido pelo ciúme causado pelo relacionamento de sua esposa, estava morto. Seu corpo foi sepultado no Cemitério de São João Batista… em Botafogo.

A bala e o campo

De primeira, a imprensa tratou Dilermando e Dinorah como heróis de um episódio que passou a ser retratado como uma morte causada por um impulso paranoico. Aos poucos, os veículos cariocas descobriram o romance de Anna com o militar e os dois passaram a ser tratados como vilões pela população. Não à toa, o zagueiro também foi colocado como um dos “vilões”.

Contra a opinião pública e à sanidade médica, Dinorah resolveu que iria entrar em campo pelo Botafogo cinco dias depois da morte de Euclides, em um clássico contra o Fluminense. Um homem com uma bala acoplada perto de sua nuca iria jogar uma partida de futebol. Mais uma vez, parece roteiro de filme, mas traduz a realidade.

Para deixar a situação ainda mais surpreendente, Dinorah entrou em campo como atacante. Sua posição original era zagueiro, mas a boa condição física e a altura privilegiada o permitiam jogar no terço final – inclusive, marcou nove gols nas 29 partidas que disputou pelo Botafogo. O Tricolor, jogando em casa, venceu por 2 a 1. Enfim, foi vice-campeão carioca em 1909, ano da morte de Euclides.

No ano seguinte, o Botafogo conseguia um de seus títulos mais marcantes: o Campeonato Carioca de 1910, que, por muito tempo, foi retratado no hino do clube. Dinorah esteve na campanha de dez partidas – entrando no gramado em nove oportunidades -, sagrando-se campeão estadual, marcando gols em dois duelos da competição.

Efeitos da bala: a loucura, doença e a perda

Apesar do título carioca e 90% de aproveitamento nos jogos da campanha, os efeitos da bala no corpo começaram a surtir efeitos na vida de Dinorah, que passou a perder alguns movimentos e ver sua carreira acabar em 1911, mesmo que contra à sua vontade – o jogador, sem conseguir correr direito, tentou ser goleiro, mas o tiro de dois anos antes o forçou a acabar com sua carreira.

Sem o futebol e com o corpo cada vez pior, Dinorah sucumbiu à bebida. Ainda visto como um cúmplice do romance que deu fim à vida de um gênio do país, o ex-jogador se atirou no campo do álcool. Pouco tempo depois, contraiu sífilis. Estava a um passo da morte. E ele tentou colocar seu pé um pouco à frente.

Já sem a bala em sua nuca, retirada em 1913, a situação de Dinorah apenas piorava, vagando pelas ruas do Rio de Janeiro, sem lugar para morar. No ano seguinte, parou na praia de Botafogo e se jogou no mar. Sabia que não conseguiria nadar por conta do seu corpo, sofrendo com paralisia em metade dele. Tinha a intenção de tirar a própria vida. Foi salvo por um homem que estava no local e o tirou do mar.

Em 1916, tentou se matar novamente, dando um tiro no próprio peito. Não conseguiu. Voltou a morar em Porto Alegre, seu estado natal, assim como seu irmão, e viu um sopro de esperança na vida quando se reaproximou de seu sobrinho Luiz, também vidrado por futebol. Pareceu que seria suficiente, mas não foi: cinco anos depois, Dinorah se jogou no Rio Guaíba. Desta vez, não foi salvo por ninguém que estava por perto.

Que fim levou Dilermando?

Apesar da história ser focada na história de Euclides da Cunha e na de Dinorah, com passagem pelo Botafogo, é preciso dizer o desfecho de Dilermando no contexto. Após a morte do autor, o militar se casou com Anna em 1911, com quem teve mais dois filhos.

Solon, filho de Anna com Euclides, se rebelou contra a família por conta da relação que tinha com o pai e foi morar no Acre, morrendo cinco anos depois. Euclides Filho, conhecido por Quidinho, tentou vingar o escritor matando Dilermando. Assim como o pai, o filho foi morto pelo militar.

O romance com Anna teve um fim, mas Dilermando se casou novamente, tendo mais filhos com a nova mulher. Foi taxado, pelo restante da vida, como um vilão. Pouco se importava com a fama que recebera, mas sucumbiu a um infarto, em 1951, que tirou sua vida. A moça, por sua vez, faleceu por conta de câncer, no mesmo ano, também sendo renegada pela população brasileira.

Dinorah, que estava no lugar errado na hora errada, tinha foco apenas no futebol. Também foi militar, mas destacou-se dentro das quatro linhas, com destaque vestindo a camisa do Botafogo. Sem se envolver em nenhum tipo de traição ou matar ninguém, acabou morrendo da maneira mais cruel possível.

Fonte: Terra