O símbolo de uma trajetória do primeiro rebaixamento ao acesso pode ser contado por um atleta que criou um laço com o Botafogo e que não larga a paixão por nada mesmo que acompanhando de outro estado. Morando em Recife, o ex-zagueiro Sandro não perde um jogo sequer do Alvinegro novamente na disputa da Série B.

Jogador que ficou marcado em 2002 pelo descenso na campanha que acabou culminando com a última colocação na classificação somando apenas 25 pontos em 25 jogos até a permanência no ano seguinte como questão de honra para levar seu clube à elite nacional, o ex-atleta conta os dias para ver o Glorioso sendo destacado como um ‘clube de primeira’ e que a história não se repita após dois exemplos negativos nas páginas de mais de 70 anos de tradição.

“A ansiedade existe até porque tenho amigos no Botafogo. Um deles é o Jefferson. Torço muito pelo Ricardo Gomes e o Edenílson (Sena), que foi o meu preparador físico no Vitória, da Bahia. Tenho ligação com algumas pessoas  do Botafogo.  Estive na Arena Pernambuco no jogo contra o Náutico. Minhas duas filhas são botafoguenses. Torcemos bastante lá e foi legal o reconhecimento do torcedor comigo. Isso me deixa ainda mais alvinegro. O Botafogo tem que voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído. Quando voltamos, achei que o clube jamais voltaria a disputar a Segunda Divisão. Depois de 12 anos, acabou caindo novamente. Serve de lição. Tenho fé em Deus que o Botafogo se organize cada vez mais. Que eles tenham pés no chão, mas com ousadia também e estrutura para que fique na elite do futebol brasileiro durante o resto da história. Não pode oscilar tanto em uma década como acontece com o Vasco”, afirmou durante o quadro “Eu Brilhei no Brasileiro”.

No dia 17 de novembro de 2002, após a derrota por 1 a 0 para o São Paulo, no Caio Martins, em Niterói, o Botafogo escrevia uma página negra na sua história. Estava sacramentado o rebaixamento do clube. A revolta da torcida foi enorme, assim como dos jogadores mais identificados com o clube. O ex-zagueiro Sandro chegou a quebrar a porta do vestiário, pois fora expulso durante a partida. O ex-jogador relembra aquele momento e afirmou que foi um momento de fúria pela tristeza com o que acontecera.

“Foi algo tão espontâneo e natural que acabei machucando a minha mão com o soco na porta de alumínio. Era um sentimento de tristeza, de um profissional que não se conformava com o que acontecia e estaria marcado na história negativa do Botafogo. Acreditava que o Botafogo não queria ficar comigo no ano seguinte porque dificilmente um clube aceita renovar contrato com um jogador que foi rebaixado. Estava vendo algo que acontecia de uma forma diferente que eu previa. Eu queria fazer história jogando em alto nível. Me sentia naquele momento como um dos piores jogadores, ser humano com uma incapacidade sem ter como reagir e ajudar o clube com uma grande torcida. Estávamos sem dinheiro para o outro ano, mas pude continuar no Botafogo. Era uma questão de honra. Quando o Bebeto (de Freitas, ex-presidente) me chamou para renovar, ele me garantiu que não tinha dinheiro. Eu afirmei que o dinheiro era o que menos importava. Disse que queria participar daquele momento e que faria 10 gols. Acabei marcando oito e subimos o time. Agradeci ao Bebeto e ao Levir (Culpi, ex-treinador) por me darem oportunidade. O alívio depois foi muito grande. Deus ainda me premiou com o gol sobre o Marília que garantiu o acesso”, lembrou Sandro para depois completar as recordações da partida contra a equipe paulista no quadrangular final da competição em 2003.

“Foi muito especial esse jogo no Caio Martins. Eu ganhei alguns títulos pelo Santos, Sport, Vitória, mas o maior título foi o acesso. A ascensão foi uma questão de honra e profissionalismo. Limpei a ficha que estava suja. Deixei tudo direito conforme eu encontrei. Foi o jogo e o gol mais importante da minha vida contra o Marília de fora da área e de três dedos no dia 22 de novembro. Aquele dia foi o mais especial na minha carreira”, disse.

Apesar de todo o carinho pelo Botafogo, Sandro rechaça a possibilidade de voltar ao clube como dirigente ou ocupando cargo na comissão técnica.

“Não tenho essa pretensão. Quero deixar a minha imagem no Botafogo como jogador. Isso já basta. Prometi a minha família que não voltaria mais ao futebol. Estive no Santa Cruz por quatro anos e meio. Conseguimos tirar o clube da Série D. Quando o presidente assumiu, deixou o futebol nas minhas mãos. Fui contratar treinador, elenco… Ganhei cinco títulos. Saí do clube depois de muito desgaste. Vi muita coisa errada nos bastidores do futebol. Nós que jogamos futebol não concordamos com certas coisas que acontecem com os jogadores. É um vício dos maus dirigentes. Anuncia e depois engana. Depois que comecei a bater de frente, me senti desgastado e deixei o futebol profissional. Gosto do Botafogo, mas trabalhar nos bastidores e com dirigentes, o dia a dia é muito difícil. Tento deixar com o Botafogo apenas a minha lembrança como atleta.”

Sandro, que deixou o Santa Cruz em junho após desavenças enquanto coordenador técnico aproveitou o momento para detonar a atual gestão do clube pernambucano.

“Vou entrar na minha religião: o pai da mentira é o capeta. Então ou se fala a verdade ou Deus não vai abençoar. Conseguimos colocar o Santa Cruz na Série B e ganhamos quatro títulos com outra gestão. Com a atual administração, fomos campeões estaduais, mas depois do título, os atletas estão com três meses de salários atrasados, funcionários sem receber a quatro meses assim como a comissão técnica. Agora não há divisão por igual nos vencimentos. Cada um recebe de uma forma. Não concordo com isso. No futebol não são somente os jogadores que comem. O funcionário também come e a comissão técnica também se alimenta e tem contas para pagar. Como não tinha como mudar o pensamento dos dirigentes, preferi me afastar. Tenho uma vida organizada e feliz.”

Com um pé calibrado, o jogador relembrou o apelido de “Canhão do Nordeste” que ganhou enquanto jogador.

“Sempre me chamaram de Canhão do Nordeste. Ganhei esse apelido por ter um petardo ou um coice de cavalo. Tinha um chute forte. Às vezes ela ia para a arquibancada e me dava vergonha, mas quando acertava o gol ficava difícil para o goleiro. Foi um apelido que me marcou o fica na memória”, finalizou.

Sandro será homenageado nos próximos dias pelo clube no painel que há em General Severiano com a caricatura de ídolos que passaram pelo Botafogo.

Fonte: Site da Rádio Globo