O Botafogo mudou a forma como era vista no futebol brasileiro em 2024 e 2025. Foram os anos de ouro da SAF de John Textor, com o trabalho desenvolvido internamente colocando o clube para voltar a disputar títulos – e a conquistar. O que foi fundamental na época?
Ex-coordenador de scout do Botafogo, Raphael Rezende falou longamente sobre o assunto em entrevista ao “Charla Podcast” na última semana. Umas das principais mudanças foi no perfil dos jogadores, buscando um jogo mais físico e intenso, de alta competitividade. Diferente até do que queria John Textor.
Leia as declarações de Raphael Rezende:
Mudança para 2024
– Vou dar um exemplo que é mais genérico e aí vocês vão entender. O Botafogo fracassa em 23, né? O ano é espetacular, mas a queda é vertiginosa. Não consegue ser campeão na reta final do Brasileiro. E a gente conversa internamente e identifica assim, cara, talvez a gente precise de jogadores mais estabelecidos, mais competitivos, com perfil maior de liderança. Talvez isso tenha faltado. Isso é bem genérico. Você não tem como cravar que foi isso que aconteceu e ponto. Não tem. Mais experimentados, que deem uma resposta melhor em momentos de pressão. E aí quando você vai ver o que é a montagem de 24, quando você fala de um Barboza, um Gregore, o próprio Allan, que talvez não tenha tido o impacto que se esperava, mas que tem esse perfil de jogador competitivo internamente, de liderança. É você mudar o perfil de quem está chegando para cobrir uma lacuna que se identificou. Esses caras vão segurar o rojão quando a situação não funcionar. Vai ser competitivo, vai elevar o nível de trabalho, a taxa de trabalho, a cobrança do cara do lado. E efetivamente, 24 tem um ganho considerável nesse sentido.
Treinadores líderes
– A gente teve na figura do Artur Jorge… O Luís Castro já tinha sido o primeiro treinador da era SAF, um perfil de liderança bem marcante. Ele faz as coisas andarem no clube naquele período. Era uma SAF nova. Você tem N contratempos para administrar. Mas era um perfil diferente. Era um perfil mais sisudo, digamos assim, no trato diário, comparado ao que era o Artur. O Artur Jorge tem uma estrela ali, tem uma luz própria, que é loucura. Ele é bom. Num trabalho que é incipiente, a SAF passa pelo que está passando agora, mas era um trabalho de quatro, cinco anos. É curto, né? Pensando em macro história, na história do clube, do Botafogo. Você ter essas figuras que são capazes de fazer todo mundo remar para o mesmo lado, o norte está ali, a gente vai para lá. É fundamental. E ele foi rápido, né? Foram oito meses de trabalho. Eu acho que ali começa, assim, não é uma crítica a quem tomou a decisão, enfim. Mas ali começam as dificuldades que a gente vive a partir da virada de 24 para 25. É exatamente na escolha da não permanência. Se tivesse acertado, se tivesse seguido, talvez o caminho tivesse sido mais estável.
Primeiras alterações
– Eu acho que dá até para andar um passo atrás para fazer a grande transformação real. Ela é a vinda da Série B e a construção do que é o time que bate em 23. Porque em termos de trabalho de scout é até mais representativo o que foi feito em 23 do que o que foi feito em 24. Porque, por exemplo, somando todo o gasto do time de 2023, do time titular, mas mesmo inserindo boa parte dos reservas, só a venda do Júnior Santos, por exemplo, cobre o gasto daquele time lá de 23. Aquele time foi muito barato para o que atingiu. É claro que você tem uma mudança de tamanho de folha, é claro que você tem uma diferença de tamanho de clube. O investimento feito é muito distinto daquele do clube associativo anterior pela situação que vivia.
Moneyball?
– , acho difícil sustentar uma pecha dessas, mas, enfim, a tentativa foi nesse sentido. O John, quando compra o clube, coloca na cabeça que vai contratar o melhor scout do futebol brasileiro. E eu não estou nem falando da equipe em si. O Alessandro Brito tinha um trabalho espetacular no Atlético-MG. Ele vai lá e fala, eu quero que você venha trabalhar no Botafogo. E aí ele vai e contrata o Alessandro para tocar a área. Não só essa área, porque o guarda-chuva do Brito era muito mais abrangente. Enfim, tanto que ele encerra a passagem como diretor. Mas o homem de confiança na parte técnica do dono do clube.
– É o que eu falo da SAF, é um projeto muito novo, né? Naquele momento você está falando ainda do Luís Castro com a chave do clube. Então, com algumas chegadas que eram ligadas diretamente ao nome dele. E aí o departamento de scout vai se fortalecendo com algumas indicações e alguns nãos que se comprovam, né? Ah, isso aqui talvez fosse melhor não ter acontecido, enfim. E a janela que marca um pouco isso já é a do meio do ano de 2022. Aí você tem o Tiquinho chegando, por exemplo, e o investimento não era tão alto na época. Mas essa montagem, para mim, é bem impactante.
Estilo mais físico
– E aí uns amigos mais próximos que trocam ideia de futebol, enfim, que acompanham em grupo na internet, sabem um pouco do que foi a nossa tentativa, o nosso direcionamento naquele momento. Eu falei do Brunno Noce, que tinha entrado comigo ainda com o (Eduardo) Freeland, antes da venda ser finalizada. Ele segue no clube, profissional espetacular. A gente pensava muito parecido nesse direcionamento da parte técnica. E um primeiro ponto que eu acho até que, de certa forma, é um tabu, assim, quando a gente fala de futebol brasileiro, era mudar o biotipo do elenco. A gente tinha um time frágil fisicamente. E ainda é realidade em alguns clubes do futebol brasileiro. Claro que passa por percepção do jogo, a sua cultura, como você foi criado, o que você acredita. Cara, mas é muito difícil você competir, nacionalmente já está cada vez mais difícil, mas internacionalmente, então, praticamente impossível se você não iguala em número de duelos, em imposição física, sabe? E a gente tinha uma defasagem clara no elenco que a gente recebe naquela virada de 21 para 22.
– E quando você não é o time que mais tem capacidade de investimento, é muito difícil que você compita nesses termos. Cara, eu vou tentar competir com o Flamengo e Palmeiras fazendo o que eles fazem, contratando os melhores jogadores? Eu não consigo. Tendo a folha deles, eu não consigo. Qual é o caminho? Vou competir, né? E eu acho que essa mudança, o Botafogo encerra, e não foi algo que a gente colocou como meta, mas a mudança de biotipo era um padrão, claro. Tinha até uma brincadeira do projeto Atalanta. Não sei se vocês vão lembrar. A Atalanta do Gasperini teve um momento que ela tinha o Papu Gómez como jogador cerebral, que tinha um perfil um pouco menor, enfim, era muito técnico. Os outros 10 caras tinham de 1,85m para cima. Era um time monstro que jogava com perseguição, com marcação individual, campo inteiro, ganhava duelo, e tinha um cara que pensava, basicamente. E o Papu ainda sai brigado, e aí entra no lugar dele mais um cara que já tinha o perfil do resto do time. Então aí viraram uns 11, não tinha nem espaço, sabe? E foi uma tentativa nossa, claro. Se você pensar no Botafogo de 23, você tem jogadores como Marlon Freitas, Eduardo, Gabriel Pires, Júnior Santos, o Victor Sá não tem tanta altura, mas força, potência, o Tiquinho, enfim, o time muda o perfil físico. O Marçal é muito forte para sustentar também.
Textor queria outro estilo
– Então, assim, foi um direcionamento muito claro que encontrava uma certa resistência só no Textor, de cara, né? Porque o Textor é o rápido, habilidoso e técnico. Eram as premissas dele. O Textor é o Montoro, o Almada. Fácil de administrar, né? Mas esse é um direcionamento que, na nossa realidade, na época, eu falei, o investimento foi muito baixo. Boa parte dos jogadores, o Adryelson chega livre. A gente tem um impacto em salários, você tem uma mudança de folha. Mas você tem em chegada de jogador, o Adryelson chega livre, o Cuesta é custo muito baixo, o Marçal chega livre, Eduardo chega livre, Marlon Freitas chega livre. Então, você consegue, sem colocar tanto dinheiro na frente, ter um time muito mais competitivo do que era a realidade do clube, claro que mudando o patamar da folha salarial. Futebol definitivamente competitivo não é barato. E essa folha de 22, 23, ela já é muito defasada comparando ao que o futebol brasileiro está fazendo agora em 2026.
Sucesso inicial no Brasileiro 2023
– Tem um contexto legal, que é exatamente isso: os três primeiros jogos do Brasileiro. O Botafogo ganha do São Paulo, do Bahia e do Flamengo. Faz nove pontos. E com contextos muito específicos nos jogos, assim. O São Paulo era do Rogério Ceni e ficava com a bola. O Bahia ficava com a bola. E contra o Flamengo o Botafogo ficou com 10. Então foram três jogos que o Botafogo acabou sendo levado pelo contexto e já tinha vivido o fracasso do período do Carioca tentando ter um jogo no que se chamava o Botafogo Way, né? O torcedor do Botafogo ouviu muito isso. O Botafogo Way nada mais é do que essa ideia de que o time tinha que ser propositivo, ofensivo, ficar com a bola. Dificilmente você seria competitivo o suficiente nesse caminho, nessa direção. O time de 24 individualmente era fantástico, mas era super direto. Como o Franclim hoje está no comando e prega um time muito direto que define jogada rápido, muito vertical. O time do Artur era muito vertical. Era bom. Estou dizendo que era excepcional individualmente. Mas era vertical. E a gente tinha esse conflito, de tentar direcionar… Quando você fala de jogadores, para mim o exemplo mais prático é assim, o futebol brasileiro não tem os melhores jogadores brasileiros. Esses estão lá fora. Quando você iguala, ou jogador sul-americano, enfim, quando você vai comparar dois jogadores que têm um nível muito parecido, é melhor que você traga aquele que vai te entregar uma imposição, que vai te entregar ganhar duelos. E foi esse o direcionamento que a gente tentou. Que vai sustentar a temporada inteira com 50, 60 jogos nas costas. Tudo isso influencia. E o contexto acabou levando pra isso, porque o time não conseguiu performar no que era essa ideia, com a bola, com jogos contra os pequenos, dentro do Campeonato Estadual. E começa o Brasileiro tendo que jogar assim e dando uma resposta extremamente positiva. E aí acabou seguindo nesse caminho. Cuesta e Adryelson são os zagueiros com o maior número de rebatidas dentro do campeonato. O Perri fez um campeonato, boa parte dele também, acima da média, bateu na Seleção Brasileira. O Tiquinho foi, por um tempo, o melhor jogador do Brasileirão. O Eduardo funciona muito bem nesse contexto também, de pisada na área. Circula muito, mas tem presença de área, tem chegada na área. Victor e Júnior com vai e vem inacreditável também pra chegar lá na frente e proteger os laterais. Então, era um time muito físico e ficou muito confortável jogando assim.
Pós-saída de Luís Castro
– Tem essa quebra. Acho que o Luís era muito importante nisso, em administrar o ambiente, em dar confiança aos jogadores. Isso é a cara do projeto naquele momento. Mas talvez a continuidade do que era a forma de jogar tivesse sido suficiente. Até estava comentando aqui o que foi o período do Caçapa. O Caçapa passa duas semanas, digamos, no comando. Não tinha relação anterior com o trabalho. Ele vem do Lyon, braço da Eagle naquele momento. E ele bate quatro vitórias. Três pelo Brasileiro, uma pela Sul-Americana. Faz, se não me engano, oito gols e não toma nenhum. Mas mantendo ele, não mexe no brinquedo, sabe? A frase da época era essa. Não mexe no brinquedo, deixa seguir. É por inércia. Está tudo azeitado, está tudo funcionando.
Chegada de Bruno Lage
– A vantagem era tão grande. Chegou a bater, ainda não era com o Luís, mas com o Caçapa, bateu acho que 13 pontos. E chegou um momento em que eu acho que a ideia foi essa. Era tão grande a vantagem que fazia sentido mudar o jeito de jogar para provar um ponto, entendeu? Vamos jogar de outra forma, vamos ser campeão de outra forma. Para não ficar tanto com aquela marca de um time reativo, que só joga sem a bola. Desde o início, tem uma série de variáveis que influenciam. O time não se adaptou bem a isso, a jogar com a linha mais alta, a tentar ficar mais com a bola. Acho que sustentou a questão de pontuação até por um período, mas não era o caminho, sabe? Ele (Bruno Lage) foi contratado para isso. A questão é que se ele não é brifado para fazer desse jeito, talvez não fosse o sentido melhor, né? Era a ideia do Textor, essa. Passava muito por essa ideia de provar um Botafogo, sabe? Propositivo, que toma conta do campeonato, dos jogos, enfim.