Poucas horas depois da vitória sobre o Caracas, o técnico do Botafogo, Franclim Carvalho, acordou cedo e participou, direto da Venezuela, da 4ª Conferência Bola Branca, simpósio português sobre futebol organizado pela “Rádio Renascença”. O treinador alvinegro expôs suas impressões sobre o futebol brasileiro, ao ser questionado sobre a baixa quantidade de jogadores portugueses atuando no país, e pontuou calendário e gramados como principais dificuldades.
– É muito difícil o jogador português adaptar-se ao Campeonato Brasileiro. Esta densidade competitiva, estes três jogos por semana eles estão habituados, eles chamam isso de rodízio, que é o jogador fazer dois jogos, no outro já sabe que vai descansar. Isto para mim faz muita confusão, ainda faz, e eu estive aqui um ano em 2024, eles estão completamente adaptados a isto. O jogador que vier vai ter muita dificuldade. Temos o estado dos gramados, que não é bom. Os gramados no Brasil são de qualidade baixa, até porque temos alguns sintéticos, todos sabem, o nosso é sintético. Temos muita viagem, vamos jogar em Fortaleza e são mais de três horas de voo. Nós temos viagens de duas horas, duas horas e meia todo fim de semana – listou.
– Temos diferenças de clima, de temperatura. Nós fomos a São Paulo, chovia muito no fim de semana passado e depois chegamos ao Rio e estão 24, 25 ou 26 graus, aquele calor abafado. Portanto, acho que os jogadores portugueses vão ter muita dificuldade e também pelo contexto, não podemos sair à rua com a mesma liberdade que saímos em Portugal, a verdade é essa. Mesmo um jogador do Sporting, do Benfica ou do Porto acredito que fique mais à vontade em Portugal, porque o português é mais envergonhado, o brasileiro vem direito a nós e quer tirar uma foto, ou quer falar como a equipe jogou ou tem que jogar. Eles são mais desenvoltos. Depois, é a questão da qualidade do jogador brasileiro. No Brasil há muitos jogadores, e muitos jogadores com qualidade, e hoje o Brasil tem capacidade financeira para buscar jogadores da Europa, jogadores brasileiros da Europa. Hoje em dia não é fácil um clube português conseguir ter um jogador brasileiro, porque o clube brasileiro chega lá e paga mais que os clubes portugueses – completou.
Franclim Carvalho também destacou a importância da comunicação para o trabalho no Brasil ter sucesso e disse que os portugueses não têm dimensão da exigência que é o futebol brasileiro e o Botafogo em particular:
– Meus auxiliares são todos portugueses e eles próprios confidenciam que não tinham noção da dimensão do Botafogo. E eu já lhes disse que eles ainda não encontraram, ou ainda não conheceram o verdadeiro Botafogo, porque, obviamente, isto é como em todo lado, quando nós ganhamos aqui as pessoas aparecem. E em 2024 foi um ano dourado. Nós tínhamos sempre o estádio com pelo menos 30 ou 35 mil pessoas. Agora estamos com 20. Eu já lhes disse que o ambiente é completamente diferente, mas nós vamos jogar em qualquer lugar. E no Brasil nós sabemos que irmos a outro estado parece que é estrangeiro, porque é muito longe. Nós vamos jogar a qualquer lado e temos sempre muito torcedor, muitos à nossa espera no hotel, no estádio, temos sempre muita gente acompanhando. E o peso, a exigência diária, no Brasil, a mídia, a comunicação social é muito forte, as redes sociais são muito fortes. São muito agressivos. Isto tem o lado bom e o lado mau. Eu prefiro não seguir, porque, quer queiramos, quer não, isto nos afeta um pouco.
‘Verticalidade e objetividade’
Na conversa que teve com os colegas portugueses por vídeoconferência, Franclim Carvalho também foi perguntado sobre que tipo de futebol planeja implantar no Botafogo. O Glorioso vem fazendo e sofrendo muitos gols sob a gestão do treinador, que vive sua primeira grande experiência como técnico efetivo.
– Todos os treinadores gostam de atacar, gostam de controlar o jogo com a bola, obviamente que eu não sou diferente, mas tenho uma forma de estar e uma ideia um pouco mais agressiva, mais objetiva. Gosto muito que minha equipe remate muito à baliza, ataque muito, mas não gosto de controlar o jogo com a bola, de ser muito paciente, não gosto, assumo que não gosto. Isso se reflete nos dados estatísticos que analisamos. Desde que chegamos, somos a equipe do Brasil que mais remates faz, que mais ataques faz, que mais escanteios tem, que mais passos progressivos tem, e isso vai um pouco ao encontro do que nós tentamos incutir nos jogadores, que é esta verticalidade, esta objetividade de conseguir fazer o gol e não controlar o jogo com a bola por si só, e estar à espera do momento certo para. Somos ou tentamos ser muito verticais nisso – afirmou Franclim, admitindo os problemas na defesa:
– Depois, também sei que tenho que encontrar ainda aqui um pouco o equilíbrio defensivo, porque esta sede, esta vontade, esta verticalidade que nós procuramos depois leva-nos, por vezes, a estar muito expostos, e temos estado aqui sofrendo muitos gols, temos sofrido muito gol, e há um aspecto que nós temos que melhorar. Eu próprio tenho que melhorar enquanto treinador, tentar aqui encontrar esse equilíbrio, nós aqui não temos muito tempo para trabalhar ou para treinar. Isso aqui não funciona como desculpa, mas é uma realidade.