Quando aquele garoto de apenas 13 anos chegou ao juvenil do Botafogo em 1979, vindo do salão do Grajaú, ninguém imaginou que ali estava uma das peças que seriam determinantes na quebra do jejum de títulos dez anos depois. Luisinho Quintanilha foi por muito tempo conhecido apenas como filho do seu Quintanilha, um apaixonado botafoguense, amigo de Garrincha e que levava laranja para os garotos das categorias de base se alimentarem no intervalo de jogos e treinos. Logo aquele senhor, animado em ver o filho jogando entre os jovens de seu clube de coração, fundou a torcida organizada “Pais Foguinho”. Isso talvez explique a identificação que o jogador sempre teve com o Botafogo.

Luisinho ganhou notoriedade nas finais do Campeonato Carioca de 1989 por parar o craque Zico, que pouco conseguiu produzir nas duas partidas decisivas. Porém, muito antes desses dias chegarem, o jogador sofreu em um período em que o Alvinegro não conseguia dar a volta olímpica.

Mesmo tendo propostas para deixar o Botafogo o volante tinha um desafio: deixar de ser apenas o filho do seu Quintanilha e escrever seu nome na história do Botafogo. Recusou transferências até atingir a meta de ver o torcedor botafoguense campeão.

– Isso mexia comigo. Os companheiros dos outros times brincando, falando que eu não ia ser campeão. Mas fomos bicampeões e depois conquistei vários outros títulos em minha carreira – disse o jogador, que brilhou pelo Vasco e ainda defendeu as cores do Corinthians, do Celta da Espanha e da Seleção Brasileira.

Luisinho passou a década de 80 no Botafogo

Luisinho, o lateral-direito Josimar e o atacante Gustavo eram os titulares do time de 1989 revelados pelo Botafogo. O FOGÃONET conversou com o volante e recordou muitos fatos importantes de sua trajetória no Botafogo e também da conquista do título de 1989.

FOGÃONET: Você é cria do clube. Passou toda a década de 80 no Alvinegro. Antes de 1989 era complicado jogar no Botafogo por conta da estrutura. O título de 1989 foi uma espécie de prêmio por tudo o que passou antes?

LUISINHO: Foi um título muito marcante na minha vida. Cheguei ao Botafogo em 1979, com 13 anos, vindo do salão do Grajaú. Era botafoguense de arquibancada, então sofria muito com aquela história de parabéns para você, de jejum. Eu tinha que ser campeão pelo Botafogo e era um período bem complicado.

FOGÃONET: Seu pai, seu Quintanilha, sempre foi seu grande incentivador e um apaixonado pelo Botafogo. Como era a atuação dele junto a você?

LUISINHO: Sim, ele vivia com o Garrincha para cima e para baixo. Buscava ele em Pau Grande. Chegou a fundar a “Pais Foguinho”, uma torcida organizada quando eu estava na base do clube. Levava laranja para os jogadores comerem no intervalo dos jogos, foguete para soltar. Ganhou o apelido de Quintanilha Fogueteiro. Apaixonado pelo Botafogo.

FOGÃONET: É verdade que você se recusou a sair do Botafogo sem ser campeão?

LUISINHO: Sim. Em 1988 teve a proposta do Internacional e depois encaminharam a venda para o Necaxa do México. Disse que só sairia do Botafogo campeão. Era questão de honra. Os colegas de outros clubes zoavam dizendo, fulano saiu do juvenil e já foi campeão e você não. Virou questão de honra. Depois ainda fomos bi em 1990.

Espinosa protagonista na visão de Luisinho

Luisinho deu passe para o gol de Maurício (Foto: Reprodução Youtube)

FOGÃONET: Qual o peso do Espinosa na sua trajetória no Botafogo e no título?

LUISINHO: O Espinosa foi determinante. Ele foi importante demais. O Espinosa não foi só importante na questão tática, que ele conhecia muito bem. Mas também no incentivo. Em fazer cada jogador ali acreditar e tirar seu potencial máximo. Ele reunia os jogadores no quarto, conversava. No meu caso em especial, estava tratando da renovação de contrato que atrasou e acabei estreando só na terceira rodada. Ele nunca deixou de acreditar em mim pois via que eu dava o máximo em campo nos treinos. Foi decisivo para eu renovar e ficar.

FOGÃONET: Mesmo assim você pregou uma peça nele antes da final?

LUISINHO: Tinha uma camisa do Napoli que eu tinha trocado com o Maradona em um amistoso em 1986. O Espinosa falava muito do Maradona então eu passei a levar a camisa todo jogo para a concentração e ele disse que dava sorte. Na quarta-feira da final eu escondi a camisa e disse que tinha esquecido. Ele ficou assustado, chegou a falar que eu não ia jogar. Aí revelei a brincadeira. Tá maluco que eu ia esquecer a camisa? Sou criado no Botafogo e sei quanto vale a superstição. Fiquei três meses fazendo todo dia a mesma coisa, ia mudar logo ali.

Luisinho parou Zico nas finais

FOGÃONET: Algum momento da campanha preocupou?

LUISINHO: Não pois a gente estava muito confiante. Acreditávamos que era a hora. Mas teve um empate de 2 a 2 com o Fluminense que a gente merecia ganhar e acabamos não ganhando. Isso lembro que me marcou.

FOGÃONET: Em uma entrevista o Zico conta que após ver a forma como você roubou uma bola e partiu para o ataque no jogo final, ali ele sentiu que era a noite do Botafogo. Pelo espírito guerreiro. Você marcou o Zico nas finais. Como foi?

LUISINHO: Pois é, um presente do Espinosa (risos). Sobrou para mim pois era mais novo, tinha mais tempo de bola. No primeiro jogo encurtei espaço e dificultava ele ao máximo. Os jogadores do Flamengo viam a falta de espaço e não tocavam para ele por conta da marcação. Ele pedia a bola mesmo assim. Antes do segundo jogo chegaram a falar, “Luisinho pode se soltar mais e avançar, você tem qualidade”. Tá maluco? não cai nessa não (risos). Queria era ser campeão. Deixa para jogar mais avançado depois. Ai segui marcando ele. Teve um momento do jogo que ele passou a entrar mais entre os zagueiros e o Bebeto sai para buscar jogo. Ai foi complicado de acompanhar o Bebeto. Porém, depois o Zico sentiu dores na perna e deixou o campo. Finalmente consegui avançar um pouco mais. Inclusive meti a bola para o Mazolinha cruzar no gol do Maurício.

Identificação com o Botafogo mesmo depois de sair do Alvinegro

FOGÃONET: Mesmo indo para o Vasco você sempre teve o respeito do torcedor botafoguense. Como explica isso?

LUISINHO: Acho que pelo fato de ser botafoguense, de me negar a sair do clube sem troféu, pesou. No primeiro jogo que fiz pelo Vasco contra o Botafogo, recuperei uma bola do Renato Gaúcho na lateral, perto da torcida do Botafogo, e avancei com a bola dominada. Naquele momento a torcida do Botafogo gritou meu nome mesmo eu estando no Vasco. Aí a torcida do Vasco respondeu. Aquele foi um momento muito especial na minha vida por conta da identificação com o Botafogo.

FOGÃONET: Hoje, 30 anos depois, você gostaria de falar algo para a torcida do Botafogo?

LUISINHO: Gostaria de falar para ela nunca deixar de comemorar 89. Ali teve um peso muito importante para a retomada do clube, para a nova fase. Hoje, por mais que critiquem, o Botafogo tem uma bela estrutura. Antes de 89 estava muito complicado e aquele título marcou muito. O Marcelo Alencar era prefeito e o Moreira Franco governador. Os dois eram botafoguenses e o título abriu um grande movimento de volta do Botafogo para a sede de General Severiano, que se confirmou pouco depois. Então 89 foi especial para mim como torcedor e jogador e peço que a torcida sempre comemore muito. Na sexta-feira estarei lá na sede comemorando.

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