Há 50 anos, iniciava-se uma das mais cruéis ditaduras militares da América do Sul. Em 31 de março de 1964, os militares depuseram o presidente João Goulart e deram início a um regime que durou 21 anos no Brasil. O futebol não ficou alheio a essa realidade e chegou a ser usado como propaganda política, como na Copa do Mundo de 1970. Mas já nos primeiros dias pós-golpe, o esporte carioca acabou sendo atingido de maneira intensa e manchado por conta de violações dos direitos humanos.
O Estádio Caio Martins, em Niterói, que antes servia para receber apenas partidas de futebol – e eventos esportivos variados em seu ginásio – se tornou uma prisão para os inimigos políticos dos militares. Desde os primeiros dias de ditadura, até 1966, 1.200 pessoas ficaram presas nas dependências do estádio. Agressões e torturas fizeram parte da rotina do local e, inclusive, um suicídio teria acontecido nas dependências do estádio. Partidas de futebol já não tinham mais espaço no lugar.
Os encarcerados passaram a ir para o estádio quando as delegacias de Niterói ficaram lotadas de presos, ainda na primeira semana de ditadura. O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e o DOI-CODI, órgão de inteligência do Exército, eram os responsáveis pelas prisões. O campo em que atletas antes faziam gols, agora só servia para o banho de sol dos prisioneiros. Ginásio e vestiários em que jogadores se preparavam para as atividades esportivas, passou a ser palco de espancamentos e torturas psicológicas.
Coincidência ou não, aquele ano de 1964 marcou o rebaixamento do Canto do Rio, clube niteroiense e que mandava os jogos no Caio Martins, no Campeonato Carioca. O importante episódio no declínio do futebol da cidade coincidiu com um período de cerceamento da liberdade de expressão em todo o país.
– Uma das imagens mais marcantes foi o dia em que abriram os portões do gramado para tomarmos sol. A cena daquelas pessoas rolando na grama nunca saiu da minha cabeça. Anos depois, voltei ao estádio, levado por meu neto, para assistir a uma partida de futebol. Não aguentei ficar lá – diz o advogado Manoel Martins, em entrevista ao jornal “O Globo”.
O caso do Caio Martins foi o primeiro na América do Sul, mas não o único. Em Santiago, no Chile, nove anos após o golpe de 1964, o Estádio Chile virou uma espécie de campo de concentração para os prisioneiros políticos. O famoso cantor e compositor Victor Jara foi assassinado no local e, mais tarde, teria seu nome emprestado ao estádio em que foi martirizado.
Em 2012, houve uma cerimônia de reparação, no próprio Caio Martins, às vítimas da ditadura, além de uma indenização de R$ 20 mil. Um reconhecimento justo, mas ainda pequeno perto das marcas deixadas por um dos períodos mais nebulosos do país.
Fonte: FutRio