Depois de conquistar sete títulos pelo Barcelona em dois anos, cinco troféus pelo Manchester City e de ter sido eleito o melhor jogador da África pelo quarto ano consecutivo, o marfinense Yaya Touré finalmente venceu um campeonato pela sua seleção: a Copa Africana de Nações, em 2015. Aos 32 anos , era hora de fazer um balanço.

— Ganhei títulos e dinheiro, mas não sou feliz — disse, em entrevista à revista francesa L´Equipe.

Entre muitos lamentos, Touré reclamava de como era visto em seu país natal. Parte da geração que classificou a Costa do Marfim para sua primeira Copa do Mundo, Touré carregava a culpa pelos fracos desempenhos nos três mundiais que disputou (2006, 2010 e 2014), nunca avançando da fase de grupos. Na Copa Africana de Nações, foram cinco fracassos até o título.

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— Era o meu maior desejo, meu mais importante projeto. Depois de perder duas finais, levantei o troféu como capitão. Excepcional, inesquecível. Fiz o meu trabalho e, de repente, o indivíduo menos amado da Costa do Marfim virou o mais amado — disse, em 2015.

— Me ofendiam até em músicas. Políticos me insultavam. Isso dói, dói muito.

A glória em meio à polêmica resume a vida do craque, filho de um fazendeiro com uma agricultora. Segundo de nove filhos, era aprendiz de engraxate na infância em Abidjan, capital do país. O mestre era seu irmão, Kolo, dois anos mais velho e tão bom de bola quanto o menino Yaya. Quando a oportunidade de sair de casa para tentar a vida no futebol bateu à porta da família Touré, o primogênito teve preferência e foi primeiro. Passou por Arsenal, Manchester City e Liverpool.

Cansado de lustrar os sapatos alheios, Yaya conseguiu seu primeiro par de chuteiras aos 10 anos, e fez sua estreia profissional aos 14 em uma equipe local. Ganhou um apelido fácil de interpretar graças à sua timidez e estatura: era o “Alto Introvertido”.

Em 2001, já na Europa tentando a sorte, não passou após testes no sub-20 do Arsenal. Arsene Wenger, técnico dos Reds, o considerou “completamente médio”. Só oito anos depois chegaria a um um gigante europeu, o Barcelona , depois de passagens por Ucrânia, Grécia e França. Após três temporadas gloriosas, mas insatisfeito por jogar como zagueiro, foi para o Manchester City, onde jogou por oito temporadas e se tornou um dos maiores ídolos do clube.

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Se colecionou taças na Espanha e Inglaterra, ganhou um mesmo desafeto nos dois clubes: Pep Guardiola. Após deixar o City, Yaya acusou o treinador de não gostar de jogadores africanos e de não saber lidar com atletas de personalidade forte.

Touré é muçulmano, e não participava das tradicionais comemorações de título com bebidas alcoólicas em campo, comuns no futebol europeu. Em 2016, porém, foi preso no leste de Londres ao dirigir bêbado. Ele não contestou o teste, mas disse em juízo que, em respeito à religião, não tinha consumido álcool intencionalmente.

Não foi sua única confusão nos tabloides ingleses. Um ano antes um jornal de fofocas noticiou que Yaya traía a esposa com uma garota de programa. O meia sempre negou o caso, se dizendo fiel à sua esposa, Gineba Touré, com quem tem três filhos.

É esta família o último obstáculo para que o Botafogo anuncie hoje a contratação de um dos maiores jogadores africanos de todos os tempos. Satisfeito com a proposta e com os termos do contrato oferecido pelo clube brasileiro, Yaya prometeu, de Londres, por telefone, a Carlos Augusto Montenegro, dirigente alvinegro, em Paris, que consultaria mulher e filhos, para dar a resposta definitiva hoje.

Por que um jogador que já conquistou tudo na carreira atravessaria o oceano para jogar no Brasil ganhando menos por mês do que ganhava em uma semana no City? Talvez Yaya ainda busque a tal felicidade que em 2015 disse não ter alcançado. Ela não veio após o auge: o retorno ao futebol grego e a aventura milionária na segunda divisão chinesa não deram certo e ele até chegou a anunciar a aposentadoria. Por outro lado, segundo Montenegro, o jogador se emocionou com a movimentação dos botafoguenses nas redes sociais para que ele viesse ao Brasil. Se sentiu acolhido, mesmo antes de chegar.

— Ele fala algumas palavras básicas de português, queria aprender mais e gosta muito do Brasil — conta o zagueiro Bolívar, ex-Botafogo, que jogou com Touré no Monaco, que o define como “gente finíssima” e cantarolou à reportagem. — Tinha uma música que na época que estourou, e eu cantava para ele: “Iaiá, minha preta não sabe o que eu sei”. Aí chegava o refrão “Iaiá, ô, Iaiá” e eu falava “olha aí sua música, os caras estão fazendo música para ti lá no Brasil”. Ele ria e adorava.

Otimistas, torcida e diretoria do Botafogo já planejam uma festa para a chegada do astro, que tem tudo para se sentir bem-vindo: não é todo mundo que chega com um samba de Zeca Pagodinho — que é alvinegro —já composto para chamar de seu.

Fonte: O Globo Online