Jobson não gosta de falar dos momentos difíceis pelos quais passou. A reportagem perguntou quando foi a primeira vez que teve contato com drogas e ele preferiu pular. “Melhor não falarmos de coisas chatas”, disse.

O tempo não volta. Jobson sabe que não terá 21 anos de novo, quando brilhou no Botafogo. Mas, aos 30, fica bravo quando alguém duvida de que jogará bem novamente. “Passar o que eu passei, cadeia, ser preso, estou de pé, aqui e vivo. Vou voltar. E ai daquele que duvidar”.

Reabrir uma porta ao sair da cadeia não foi fácil. A do Botafogo se fechou. “O Botafogo não me procurou, mas eu bati na porta. Mas tem uma gestão que você tem que respeitar. Outras portas no Brasil fecharam, mas a do Brasiliense abriu. A vontade tem que ser a mesma. Ou maior do que a do menino de 17 anos, mas com a cabeça mais experiente e mais tranquilo. O futebol não aceita mais polêmica. Eu sei disso”.

Jobson deixou a cadeia em abril e, com a camisa do Brasiliense, clube que o revelou, conversou com o UOL Esporte sobre o que resta dos seus sonhos. O que ele quer é ser feliz com o futebol, com a família e fazer as pazes após os erros que cometeu.

“Todo mundo merece chance, sim. Eu não sou melhor e nem pior que ninguém. Por que eu não mereço uma chance? Eu matei alguém? Não entendo. Por isso não vou desistir nunca. Não sou melhor e nem pior que muitos.”, Jobson, sobre merecer uma segunda chance.

“A minha vontade é grande. Tem muito jogador mais velho que se cuida. Eu me inspiro muito no Ricardo Oliveira, que é um dos artilheiros do Brasil na idade que ele está. Por que eu não posso voltar a ser o Jobson?”, Jobson, sobre se inspirar em Ricardo Oliveira

A chance dada pelo Brasiliense após sair da cadeia não possibilitaria que Jobson voltasse a jogar profissionalmente em 2018 por falta de calendário. As competições do clube terminaram em agosto: disputou o Candangão no começo do ano e Série D do Brasileirão até agosto.

Para Jobson poder jogar ainda em 2018, o Brasiliense emprestou o atacante ao Capital, time que disputou a Série B do Campeonato Candango até 1º de outubro e foi campeão. De volta ao Brasiliense, jogará o estadual de 2019.

“Sempre dá um frio na barriga. Apesar de não ser um campeonato forte, não deixa de ser profissional. Fiquei nervoso na minha estreia para fazer gol logo. Quando fiz dois gols contra um time daqui, tirei um peso. Está na súmula que foi gol profissional. Eu tenho pé quente. Vim para Brasília e fui campeão”.

Jobson se aproximou dos jogadores mais novos do Capital. “Tinha moleque que não comia direito e vinha treinar. Eu dava carona. Eles sempre mandam mensagem, agradecendo: ‘Pô, Jobson, todo mundo achou que você era um bad boy, um maluco, que você ia ser um arrogante com a gente’. Eu não sou melhor que ninguém”.

O talento não bastou

O Jobson de 2009 era um jogador que prometia dar alegrias para o futebol brasileiro. O cartão de visitas foram os gols em jogos decisivos que livraram o Botafogo do rebaixamento no Brasileirão daquele ano. Brigador, muita força física, explosão em campo, não desistia da bola, ousado.

Mas aquele atacante promissor de 21 anos tinha problemas. A primeira baixa foi por doping. Cocaína, flagrado na reta final do campeonato em que brilhou. Ficou seis meses sem jogar. O rótulo de promessa acabou. E Jobson virou sinônimo de polêmica. Foi suspenso pela Fifa por três anos após outro doping — dessa vez, que ele se recusou a fazer. Em 2016, afundou ainda mais. Foi preso, acusado de estupro de vulnerável. O talento com a bola não era mais suficiente.

“O futebol está carente. Está faltando um Jobson, estão faltando meus gols. Se eu tivesse, com 19 anos, a cabeça de hoje, eu não estaria aqui. Estaria na Europa”.

O erro

Era começo de novembro de 2009 quando Jobson fez o exame antidoping depois de um jogo do Brasileirão. O resultado foi positivo para cocaína. A contraprova também. Nesse mesmo mês, o atacante encantava em campos brasileiros. Seus gols foram decisivos para livrar o Botafogo do rebaixamento.

Dois deles foram marcados contra o São Paulo, em uma vitória por 3 a 2. Jobson ainda deu uma assistência. Depois do segundo gol feito, recebeu o cartão vermelho pela comemoração acalorada. “Foi a melhor expulsão da carreira. Viramos o jogo. Para mim, foi um dos maiores jogos da carreira. O que o torcedor nunca esquece”, conta, sorrindo.

Jobson ainda jogou mais uma vez, contra o Palmeiras. Depois, suspensão de seis meses. “O doping em 2009 atrasou muito minha vida. Eu não consegui realizar algumas coisas da minha vida e da minha família. Todos os jogadores fazem um monte de cagadas, mas sabem fazer. Eu deixava cair na imprensa. Muitos fazem pior, mas sempre tiveram a carreira de santinho”.

“Posso ser o Jobson que faz 50 gols, mas vão lembrar do polêmico. Muitos acharam que eu era viciado, mas vai quem quer [para as drogas]. Já fui mil vezes para o doping e nada. É sinal que estou recuperado, não usei mais droga.”, Jobson, sobre uso de drogas.

“Às vezes, você fica rodeado de pessoas que te dão tapinha nas costas, mas não são amigos. Amigo é aquele que quer que você não vá para a noite, que se cuide. Você tem que ser uma pessoa muito vigilante em relação a isso”, Jobson, sobre as más companhias.

O vai-e-vem

O que acontece com a carreira de Jobson pós-doping é um vai-e-vem ininterrupto. O número de times no currículo do atacante multiplica sempre com um clube por trás, o Botafogo. O clube carioca emprestou o jogador cinco vezes, entre 2011 e 2015. Atlético-MG, Bahia, Grêmio Prudente, São Caetano e, por fim, para fora do Brasil. A Arábia Saudita era o destino. O Al Ittihad Jedda foi o clube.

Mas como um jogador como Jobson poderia dar certo em um país com costumes tão rígidos? “Na Arábia, no início foi só alegria. Eles tratam o brasileiro muito bem, como ídolos. Eu cheguei de cabelo loiro e já me chamavam de maluco. Eles pesquisam tudo na internet. Até lá eu ouvia piada”.

“Fui na casa de um amigo e a esposa dele estava vestida normal. Quando cheguei, parecia o Bolt correndo para subir a escada. Eu virei a cara. Ele disse: ‘Amigo, aqui esposa não pode mostrar nada’. O respeito lá é grande”, contou.

O ‘não’ ao doping

Os problemas logo apareceram por lá. Segundo Jobson, o clube ficou quatro meses sem pagar seu salário. Ele não jogava, mas em março de 2014 foi convocado para um exame antidoping. Ele se recusou. “Queriam fazer um doping sem eu jogar. Achei estranho. Eles estavam devendo salário, achei que iriam me sacanear. Pedi meu passaporte para voltar para casa, para o Fogão. Aí prenderam meu passaporte. Eu comecei a passar dificuldade, fiquei desesperado. Não quero mais saber de Arábia Saudita”.

Jobson não sabia, mas aquele “não” ao antidoping prejudicaria muito sua carreira. O atacante foi suspenso na Arábia Saudita pela recusa e, seis meses depois, a Fifa decidiu que o jogador não poderia atuar em nenhum país do mundo. O choque veio em abril de 2015, antes da final do Campeonato Carioca. A partir dali o jogador ficou mais três anos proibido de jogar.

“Foi na final e eu estava jogando bem. O treinador era o Renê Simões. Com ele, se não tiver disciplina, você não joga. Eu tive a minha postura diferenciada. Só querem falar que eu sou polêmico, que faço merda, que eu não mudo. Eu estava bem pra caramba. Aí chega um doping de não sei onde. Tinha que ser das Arábias mesmo isso aí. Aí fico parado, prejudicado, complica”.

“Eu me arrependo de não ter feito o exame. Eu não fiz, porque eu achei estranho. Eles poderiam colocar alguma coisa na minha urina. Por que o presidente me manda fazer o exame com ele me devendo quatro meses? Eu mandei ele lá para o cafundó do Judas.”, Jobson, sobre por que não quis fazer o exame.

Os três anos sem jogar

Jobson saiu de cena com a suspensão e deixou o Rio. O Botafogo não poderia ter vínculo com o jogador. Nenhum clube poderia. Foi assim que o atacante deixou as páginas esportivas por três anos. O problema foi que ele não sumiu. Passou a aparecer nas páginas policiais.

O atacante foi preso em junho de 2016. Passou 69 dias atrás das grades. A acusação: estupro de vulnerável. Segundo a polícia, ele levou adolescentes de 12 e 13 anos para sua chácara, no interior do Pará, onde as meninas teriam bebido, usado drogas e feito sexo. Por lei, sexo com crianças menores de 14 anos é estupro.

Jobson nega todas as acusações, diz que armaram para ele a situação e que não pode entrar em detalhes sobre o que aconteceu naquela noite. O Tribunal de Justiça de Tocantins, onde está o caso, afirmou à reportagem que “o processo corre em segredo de justiça”.

“Os dias mais difíceis da minha vida foi quando fui tratado como um bandido. Estar no meio de assassinos, estupradores de verdade. Muitos desses me disseram que eu ia sair porque todo mundo sabia que eu não tinha feito nada. Muitos que cometeram homicídios diziam para eu sair e jogar bola. Eu tive muitas conversas com esses caras. Nunca ninguém fez nada, sempre me respeitaram porque sabiam que foi uma bobeira”.

Humilhação

O rosto de Jobson fica sério quando precisa lembrar dos momentos em que passou preso. Foi mandado três vezes para a cadeia, Além dos 69 dias em 2016, ficou detido dois meses e 23 dias em 2017 e mais sete meses entre o final de 2017 e abril de 2018. As duas últimas prisões foram por descumprir regras da liberdade condicional.

Jobson contou sobre ameaças que sofreu de presos, os processos obrigatórios que a mulher e a mãe precisavam passar quando iam às visitas e o medo de morrer no cárcere.

“Não desejo isso a ninguém. Tem que fazer procedimentos, passar humilhação. Sua esposa, sua mãe. Tiram a roupa, as pessoas te olhando como coitado. Um cara que estava fazendo gol em todo o Brasil, preso. Teve um dia que minha mãe foi me visitar e eu chorei. Eu perguntei: ‘O que eu fiz de tão errado na minha vida? Isso aqui é o fundo do poço’. Mas eu sempre falei para ela: ‘Fica tranquila que eu vou sair daqui e jogar bola. Vou provar na Justiça que eu não fiz isso. A senhora sabe que não foi isso que aconteceu’”.

Ele não quis receber visita dos filhos no tempo em que ficou preso. Hoje, ele tem quatro: três meninos e uma menina. As crianças têm 8, 7 e 5 anos e o bebê, seis meses de idade. O mais novo se chama Jobson Júnior.

“Eu não queria que meus filhos me vissem preso, nenhum deles. Meu filho mais velho chorou quando eu saí da prisão, aquele choro da ânsia, do desabafo. Desde o que aconteceu, eu nunca mais tinha visto o menino. Ele sofreu muito. Por isso eu tenho medo”.

Ameaças

Jobson foi ameaçado na cadeia. A acusação de estupro não é bem-vista entre os presos. Isso levou seu advogado a pedir transferência no começo de 2018.

“Eu estava sendo ameaçado. Muito cara que comete crime, estupro, latrocínio, vai chegar na cadeia e querer me xingar de estuprador, vagabundo. Isso eu não aceitava. Eu respondia que ia provar na Justiça. Continuava aquela briga. Na prisão têm aquela coisa que um tem que ficar de um lado ou do outro. Aí eles começaram a me ameaçar e extorquir. Eu não aguentei e pedi para ser transferido”.

“Aquele lugar é o fim do mundo, é o fundo do poço, é o inferno. Se você for fraco, você sai ainda pior. Tem gente que fala que a cadeia conserta vagabundo. Você sai melhor ou pior”.

Medo de morrer

“O futuro nesse lugar é a morte”. Jobson não pensa duas vezes ao responder se teve medo de morrer na cadeia. “Da primeira vez em que fui preso, era uma cadeia muito perigosa em Marabá-PA. Eu fiquei com muito, muito medo. Porque você paga o pato dessas coisas que acontecem lá dentro. E eu não queria morrer ali, acabar minha carreira dentro de uma prisão. Não é possível que eu tenha feito tanto mal na vida. Sair de uma prisão e voltar a jogar bola é maravilhoso”.

A última prisão o deixou sete meses sem jogar bola. “Todo dia era a mesma rotina: ficar deitado, não poder treinar ou jogar. Foi uma das maiores decepções da minha vida. Agora, cabe provar na Justiça. Eu sei que vou ser absolvido. Só que aí eu escuto piada, me xingam. Isso eu ainda vou escutar muito em estádio. Pode xingar, não tem problema. Mas a minha consciência que sabe. E muitos sabem que eu não fiz. Cabe ao meu advogado provar”.

A rotina de Jobson hoje é cheia de regras. Não há mais baladas ou viagens. O jogador diz que treina em dois períodos e depois fica em casa com a mulher e o filho de seis meses. “Jamais quero voltar para um lugar daquele. Nunca na minha vida. É por isso que eu faço o possível para andar certo, para ficar perto da minha família. Ainda mais agora que meu filho depende de mim. Que meus filhos dependem de mim”

“Vi muitos moleques que nem mereciam estar ali. Não estou aqui para defender nenhum detento. Não é isso, pelo amor de Deus. Mas, como ser humano, muitos merecem [sair]. Tem muitos que saem de lá e trabalham, que nunca mais praticaram o crime. Por isso que eu acho que as pessoas merecem uma oportunidade”, Jobson, sobre os presos que viu.

“Não critico religião de ninguém. Sempre orei, sempre tive minha fé no Senhor. Mas eu não sou crente chato. Eu sou tranquilo. Vou para a igreja, sim. Se for para ir de boné para a igreja, eu vou. Deus aceita você como você é. O povo hoje quer falar para você ir para a Universal, que tem até maquininha. Eu vou para qualquer uma, Deus é um só”, Jobson, sobre religião.

“De tudo o que eu passei, não há outro caminho. E, quando eu estive preso, eu pedia, orava todos os dias para Deus me dar uma nova oportunidade, e ele está me dando. Estou aqui de volta, trabalhando. Ano que vem quero ser campeão no Brasiliense, quero subir esse clube aqui. Quero voltar minha história de novo”, Jobson, sobre a aproximação da religião.

A amarelinha ficou faltando

Mais que voltar a jogar, Jobson tem uma dívida com a própria mãe, Maria de Lurdes. “Tudo o que eu prometi para ela que iria conseguir, eu consegui. Só estou devendo uma coisa: vestir a amarelinha. Estou com a amarelinha do Brasiliense. Mas isso é consequência, sempre vou ter isso como meta. Não só para mim, mas para todos os atletas. Todos têm a meta de chegar na seleção. Podem achar que eu estou maluco, mas é meu sonho. Quem vai destruir meu sonho?”.

Fonte: UOL